FATALIDADE

Eu, dois ou três meses.jpeg


FATALIDADE
*



Já faz tanto tempo que pouco me sobra


Do tempo que, à justa, cabe a cada humano


E ele há tanto verso que em mim se desdobra


Que nisso envelheço milénios por ano...
*



Já faz tanto tempo que o tempo me cobra


Quanto me extasia sem causar-me dano:


Verso a verso tento consumar a obra


Mas depressa acordo desse sonho insano
*



E do quase nada que possa restar-me,


Fazendo-me surda aos sinais de alarme


Que alguns julgam fruto desta (in)sanidade,
*



Persisto no verso, dure ele o que dure:


Se desta "doença" não há quem me cure,


Já nasci poeta. Que fatalidade!
*


 


Mª João Brito de Sousa


28.06.2022 - 16.00
***



Soneto dedicado à poeta e sonetista Helena Fragoso


 

Comentários

  1. Brancas nuvens negras29 de junho de 2022 às 11:11

    Brilhante, brilhante.
    ... Fazendo-me surda aos sinais de alarme
    Que alguns julgam fruto desta (in)sanidade,...
    Brilhante todo o poema, estes dois versos ilustram o desígnio dos artistas.
    Um abraço.
    L

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    Respostas
    1. Muito obrigada, L.! :)

      Dediquei este soneto a uma sonetista que, como eu, tem uma vida muitíssimo difícil, mas nunca desiste de escrever.

      Espero que também ela se reconheça nele.

      Forte abraço!

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  2. Felizmente que nasceu poeta. Escreve de forma deslumbrante. O meu elogio
    Cumprimentos poéticos

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  3. Fatalidade ?

    Coragem também aos belos poemas
    com que nos regalas, o olhar

    Bela tarde MJ, beijinhos

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    1. Olá, Anjo

      Esta fatalidade é pura ironia... Pelo menos no sentido de "desgraça" que comummente lhe é atribuído...

      Feliz dia para ti!

      Beijinhos

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  4. Digamos que seja mesmo fatal _ aquela que seduz com os versos, desde sempre !
    E é esse talento o precioso remédio para todos os males.
    Vamos persistir !
    meu abraço, de boa noite

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    Respostas
    1. Eheheheh... Lis, o conceito de "femme fatale" está muito, muuuuito longe de se poder aplicar a uma pessoa como eu, rsrsrs... Mas não me importo nada, nadinha que os meus sonetos seduzam meio mundo

      Uma coisa sou eu, nada tímida mas muito caseirinha e "low profile", e outra é o produto do meu apaixonado trabalho literário

      Quanto ao talento, nem sei que te diga... Sempre afirmei - e continuo a afirmar - que toda a obra artística é fruto de 1% de talento e 99% de trabalho, mas quem engendrou esta equação, que subscrevo, esqueceu-se de lhe acrescentar uma variável sem a qual ela não faz qualquer sentido: as circunstâncias.

      Essas malvadas têm um enorme peso nesta equação e é nelas que, tanto eu quanto a sonetista a quem dedico este poema, tropeçamos e nos estatelamos redondamente.

      Um grande abraço, de bom dia, agora

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  5. Maria Elvira Carvalho30 de junho de 2022 às 08:54

    Que bom que nasceu poeta e nos pode brindar com belíssimos poemas como este.
    Abraço e saúde

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    1. Muito obrigada, Elvira

      De pouco me serviria ter nascido poeta se não tivesse tido a sorte de nascer num meio razoavelmente abastado, entre gente que valorizava a poesia como um género literário maior...
      No entanto, ocorre-me agora o caso do nosso poeta António Aleixo, que também nasceu poeta e conseguiu fazer o que fez , apesar de não ter tido a imensa sorte que eu tive. E pergunto-me quantos grandes poetas não terão nascido e morrido na miséria, sem terem tido a oportunidade de deixar o menor rasto do seu talento?

      Saúde e um grande abraço


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  6. Quanta beleza nesta "doença", Amiga Maria João,
    Quanta beleza nesta fatalidade, que agora li!
    É a natureza da poesia na imensidão!
    É o total universalidade da poesia, em TI!
    Beijo
    Lena B.

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    Respostas
    1. Viva, Lena B.

      Tanta coisa assim? Eu considero-me uma mera aprendiza da poesia metrificada, uma espécie de incansável operária... A Musa é que, de quando em quando, se cansa de mim, rsrsrsrs...
      Obrigada!

      Beijo!

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    2. Minha Querida,
      Sempre a aprendizagem em cada acto de Vida vivida... em cada momento, sempre presente, de Presença Superior do Amor!
      És abençoada pela tua Musa - Fértil na abundância poética da Vida sofrida... aprendida... vivida!... sempre conscientemente PRESENTE!
      Beijjo!

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    3. Lena B., garanto-te que ainda não tinha lido estas tuas palavras quando escrevi o soneto que acabo de publicar, mas concordo contigo: a minha tresloucada e corajosa Musa é mesmo uma bênção!

      Obrigada do fundo do meu remendado coração

      Outro beijo

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  7. Ser Poeta é Destino, é Sina, é Condão, ... é Fatalidade! Felicitações e votos de saúde!

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    Respostas
    1. Talvez sim, Francisco... Aqui, neste soneto, a fatalidade veste a capa da ironia, mas sei, por experiência própria, que é uma "coisa" que tem muita força. Tanta que, por vezes, chega a prejudicar-nos...

      Obrigada, muita saúde e um fraterno abraço

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