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A mostrar mensagens de setembro, 2018

SONETO-DEDICATÓRIA

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  SONETO-DEDICATÓRIA * Terçando as armas que deixei pra trás, revivalista fui, por um instante, de um passado tão morto e tão distante quanto o meu espanto vão, de tão fugaz. * Perdido o espanto, nada já me apraz, mas se arma e sonho fossem a constante da luta que esta vida leva avante, então talvez... talvez morresse em paz. * Volto ao revivalismo abandonado, embora velha, embora enfraquecida, ergo o punho bem alto, bem cerrado, * E quem fica pra trás morta e vencida, não é o sonho nunca conquistado, é a derrota, nunca consentida! *   Maria João Brito de Sousa – 30.09.2018 – 12.15h Imagem - Tela de Pablo Picasso  

"ERRARE HUMANUM EST"

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  “ERRARE HUMANUM EST” *   Se nem todos os pés pisaram uvas, se nem todas as mãos colheram trigo, se nem todas as nuvens geram chuvas, se nem todos os tectos são abrigo, *   Nem todo o bofetão chegou de luvas, nem todo o que diz sê-lo é grande amigo, nem todas as formigas são saúvas, nem tudo o que nos dói será castigo... *   Semântica, a manhosa, a traiçoeira, vem por vezes pregar-nos a rasteira de por-nos sob a língua algo diferente *   Daquilo que intentávamos dizer e caímos nesse erro sem saber que para assim falhar basta ser gente... * Maria João Brito de Sousa – 29.09.2018- 10.01h *     Imagem surripiada do Google, sem autoria visível  

OLHEI-ME AO ESPELHO, ABRINDO UMA EXCEPÇÃO

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  OLHEI-ME AO ESPELHO, ABRINDO UMA EXCEPÇÃO * Olhei-me ao espelho, abrindo uma excepção, mas não vi, das mazelas, os sinais... Da dor, não vislumbrei sonoros ais e, como tal, mirei-me ao espelho em vão. *     Eu, que nunca lhe tive devoção, mas que prefiro o espelho aos hospitais, só o consultaria uma vez mais se me desse uma sábia opinião. *     Nada me diz, porém, que eu desconheça e não vendo razões pra consultá-lo, não creio que este espelho me mereça *     Um segundo que seja para olhá-lo; não passa de uma velha, inútil peça que cria pó pra me fazer limpá-lo... *   Maria João Brito de Sousa – 28.09.2018 – 12.45h Na sequência do poema O MEU ESPELHO, de Joaquim Sustelo.  

"F" de FUSÃO

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  “F” de FUSÃO * Faz frio. A fera firma-se furtiva, finta a fuga e feroz ferra o furão. Furioso, faz furor o furacão. Frente fria. Formal. Facultativa. * Frágil, fremente, fina, (a)firmativa, franqueia a fresta, a fenda, a frustração. Fito. Futuro. Fímbria. Facalhão. Faz frente à forca, firma a flor festiva. *     Facilmente fraqueja. Frágil fica. Frenética e fremente, frutifica, fruto feliz da flora fecundada. *     Fugaz, flexível, fina e florescente, furta-se à fátua fama. Febrilmente, fundem-se a flor e a fraga fragmentada. *   Maria João Brito de Sousa – 27.09.2018 -17.41h  

(IN)FLEXÃO VERBAL

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  (IN)FLEXÃO VERBAL * De que ventos irados, de que brumas te chegam tantos medos pessoais que irão queimando até que te consumas no espasmo dos momentos terminais, * Quando a ti mesmo e só a ti resumas em sons, que para ti serão sinais, se, do que temes, sobrarão só espumas e, do que afrontas, sobrará bem mais? * De que futuro agreste e controverso te chega o marulhar de um mundo imerso numa contradição que não tem fim? * Ah, se hoje é o futuro de um passado que antes do tempo vai sendo julgado, porque mais crês no medo do que em mim? * Maria João Brito de Sousa – 26.09.2018 -17.32h    

DESACATOS DA MINHA GATA, MISTRAL

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  DESACATOS DA MINHA GATA, MISTRAL * Tais desacatos faz a minha gata, que me vez de me zangar desato a rir quando a vejo pular até cair em torno de uma sombra que a acicata, * Mas se na sala entrar uma barata - e  já me aconteceu, devo assumir... - é vê-la a recuar e a fugir como se me implorasse: - Ó dona, mata! *   Se a cama vai ser feita de lavado, ei-la sobre os lençóis em louca dança a amarrotar-me o pano bem esticado... *   Não pára um só segundo, nem se cansa de o puxar para trás e para o lado pra revolvê-la toda, sem parança... * Maria João Brito de Sousa -25.09.2018 – 13.57h * A propósito do poema “O Gato Fez Desacato” de Joaquim Sustelo  

AO DEMAGOGO

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   AO DEMAGOGO * Dedico este soneto ao demagogo, exímio enganador de multidões que faz malabarismos com questões e de pronto transforma um nada em fogo *     Que, ao encontrar ouvidos, pega logo e passa a ser lesivo pra milhões pois irá propagar-se às gerações que se inflamem nas chamas do seu jogo. *     Palavras, só palavras... que lhe importam os límpidos conceitos que transportam, se não puderem ser compreendidas? *     Contudo, teimo ainda em dedicá-las ao demagogo que intentar calá-las com verborreias falsas, corrompidas. *     Maria João Brito de Sousa – 24.09.2018 -16.15h  

SINOPSE

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  SINOPSE *     Provou só mais um fruto e descansou, dormiu, sonhou, amou, teve meninos e, vendo-se senhor dos seus destinos, comeu todos os frutos que encontrou. *     Foi tarde, bem mais tarde, que acordou e viu brotarem frutos pequeninos dos ramos, quais pequenos desatinos de arbustos que não viu, que nem provou. * Foi caso extremo e não criou padrão, que a sorte quis poupá-lo à decepção e, afinal, tudo estava no começo... * Depois, os frutos foram rareando e agora ninguém sabe dizer quando, nem como irá pagar-se esse alto preço. *   Maria João Brito de Sousa – 23.09.2018 – 11.56h    

O RESTAURADOR DE CONCEITOS

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  O RESTAURADOR DE CONCEITOS *   Construíra a palavra e quis honrá-la, limpá-la, dar-lhe o uso adequado para poder depois utilizá-la em vez de remetê-la pró passado. *     Apanhou-a do chão. Ao levantá-la, tomou peso ao que tinha levantado e que era o peso que o levara a amá-la e a soletrá-la; PROLETARIADO. *     Olhou de novo. De novo encontrou outra palavra viva que engendrou e se moldara à sua própria mão. *     O mesmo peso, a mesma infinda luta que o levara a criá-la, resoluta, para gravá-la em si; REVOLUÇÃO. *     Maria João Brito de Sousa – 21.09.2018 – 22.54h  

AS JANGADAS DOS POETAS

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  AS JANGADAS DOS POETAS * Meia dúzia de tábuas bem pregadas, um pano velho em jeitos de improviso e temos a Jangada das jangadas pronta a reinventar um paraíso *     Num mar de ondas – quem sabe? - ionizadas um pouco – ou muito... - além do que é preciso, São frágeis, quase sempre inacabadas, nem visam lucro, só dão prejuízo. * Assim vejo as jangadas dos poetas, assim recrio a minha e traço as metas de tão frágil conjunto de artefactos * E enquanto for poeta e construtora, também serei, de mim, dona e senhora, e, dos mais, servidora. Sem contratos. *   Maria João Brito de Sousa – 20.09.2018 – 11.35h  

COMO DIZER-TE? II

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  COMO DIZER-TO? II * Ao tédio, que nego, renego e desfaço pedaço a pedaço, com honras de apego, com martelo e prego, sou aço sobre aço zurzindo, qual maço, um arco que é cego, * Mas logo o delego pra espaços sem espaço e nem por cansaço ao tédio me entrego pois mudo, navego e assim não me maço se faço e re-faço, ou se guardo e nem pego... * É tempo de um espanto de pura vertigem... Tudo nos exigem. Exigem-nos tanto que mesmo um quebranto não sei de que origem * Parece ser virgem escondida por manto... Vivemos, portanto, dos medos que infligem deuses de fuligem e aras de amianto. * Maria João Brito de Sousa – 19.09.2018 – 10.10h   (soneto em verso hendecassilábico com rima encadeada)      

COMO DIZER-TE?

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  https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A9_(poesia )   COMO DIZER-TO? *     A ti, que te entreteces num compasso que não aceita este compasso meu e o julga vacilando a cada passo pra não torcer-lhe um pé* que outrem cedeu, *   A ti, que o imaginas perro e lasso, morto, a fazer-nos crer que não morreu, como dizer-te que traz nervos de aço em braços que lhe vão da terra ao céu *   E que é fruto do próprio pensamento tão mais liberto quanto mais ritmado, ou que conquista espanto, espaço e tempo *   E aí se firma, assim, cadenciado, sem precisar de pauta ou de instrumento porquanto nasce e cresce musicado? *     Maria João Brito de Sousa – 17.09.2018- 15.48h   * *Pé – referência ao pé métrico do verso   https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A9_(poesia )    

DEVERIA?

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DEVERIA? *     Deveria quedar-me em ledo encanto Ao sabor desta música de fundo, Mas mal o dia nasce e me levanto Só penso em conhecer melhor o mundo. *     Deveria ficar-me pelo canto Da eterna melodia, mas confundo Um tanto dela com esse outro tanto Maior do que o que sou... e mais fecundo. *     Deveria sentir-me saciada Por cantar muito, não sabendo nada; Só por poder cantar, cantar, cantar... *     Deveria, pensais... mas se o devesse, Até o verso perderia interesse E morreria em vez de se espraiar. *       Maria João Brito de Sousa – 15.09.2018 – 13.21h        

UM LENÇOL DE ÁGUA PURA E LINHO CRU

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  UM LENÇOL DE ÁGUA PURA E LINHO CRU *     É lençol de água pura e linho cru, Este amor que se expande e gratifica, Que não tem voz, mas te trata por tu E em ternura te eleva e multiplica, *   Tal qual nasce um menino e, todo nu, Reduz a nada a extrema dor que implica O parto, essa memória de baú Que se relê quando já nada a explica. *   Cobrimo-lo de panos pra que aqueça, Amparamos-lhe a queda, se tropeça, Tentamos dar-lhe tudo, nada tendo, *   E o mesmo fazemos, sem sabê-lo, Se a mão nos obedece ao estranho apelo De um verso que nos nasce e vai crescendo. *       Maria João Brito de Sousa – 14.09.2018- 13.14h        

LAPSOS DE UMA MUSA CONFUSA E ESTREMUNHADA

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LAPSOS DE UMA MUSA CONFUSA E ESTREMUNHADA * Do convés fui descendo e vislumbrei ratos roendo rolhas nos porões da barca que enfrentava os vagalhões do mar sem fundo em que eu mesma a lancei *   E afinal foi dormindo que o sonhei! Sonhei com vagas, rolhas e ratões, e, nesse absurdo sonho, entre ilusões, vi situações que descrever não sei * Porque, durante o sono, a barca encheu-se duma peculiar tripulação... Depois, ao acordar, a coisa deu-se * E a musa, extrapolando a confusão, cantou ratos e rolhas. Cometeu-se um lapso, sem do lapso ter noção. * Maria João Brito de Sousa – 13.09.2018 – 15.59h Imagem retirada da net, via Google    

NOUTROS TEMPOS, NOUTRAS LINHAS

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  NOUTROS TEMPOS E NUMA OUTRA LINHA *       Sem tempo, nem linhas, que eu tempo não tenho e às vezes desdenho lembrar coisas minhas, recordo as mezinhas dos tempos de antanho e estranho – se estranho! - revê-las vivinhas... *     Algumas, de ervinhas sem brilho, ou tamanho, em potes de estanho, nas casas vizinhas enchiam cozinhas e salas de banho de um crente rebanho e de uns crapulazinhas. *     Chás disto ou daquilo, pomadas caseiras, curavam quebreiras e usavam-se ao quilo pró mal de mamilo, sarampos, papeiras... *     Flor de laranjeiras e outras no estilo eram peristilo de casas inteiras... Dormia-se em esteiras. Temia-se o asilo. *       Maria João Brito de Sousa – 12.09.2018 – 14.00h *     Soneto em verso hendecassilábico e rima encadeada que me ocorreu após a leitura do soneto COM LINHAS DO TEMPO da autoria de MEA.  

EQUILÍBRIO INSTÁVEL

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  EQUILÍBRIO INSTÁVEL *   “Senta-se e pensa e estuda e analisa...” Se nisto não encontras poesia, se este voar não te urge nem extasia o olhar que sobre as letras te desliza, *     Será porque outro vôo realiza numa outra sede, a do meu dia a dia... Se dif`rente a almejasse, a perderia, que a minha só assim se verbaliza. *   Tenhas, ou não, em conta esta diferença, eu vôo como posso e sei voar e, ainda que longínqua na presença, *   Nunca desisto de me equilibrar sobre a aresta cortante e fina e tensa de onde estou sempre em vias de tombar. *       Maria João Brito de Sousa – 10.09.2018 – 15.34h

"SINE DIE"

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  “SINE DIE” *     A minha velha musa entrou em greve. Partiu sem avisar, por tempo incerto, deixando-me sozinha no deserto em que estiola a mão que já não escreve. *     Sei que lhe devo o que ela me não deve, que sempre tenho o saldo a descoberto, que a mão me ficou lenta e que, decerto, se fartou deste corpo que prescreve... *     Há-de voltar numa manhã qualquer, quando eu tiver esquecido que partiu, cantando um verso para me entreter, *     Por ela musicado à beira rio... Há-de voltar, mas só se perceber Que a mão me vacilou, mas resistiu. *       Maria João Brito de Sousa – 09.09.2018 - 10-59h        

SEM SOMBRA DE MISTÉRIO OU NOSTALGIA

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  SEM SOMBRA DE MISTÉRIO OU NOSTALGIA *       Será que ainda alguém, nalguma esquina, Sonha o retorno de Sebastião? Faço a pergunta e tenho a sensação De ver um vulto envolto na neblina. *   Focalizo melhor. É de varina O vulto transmutado em multidão; Talvez sobre a memória de um varão Se ergam reminiscências de menina... *   Aqui, pelos subúrbios, rompe o céu O sol, exactamente ao meio-dia. Nenhum Sebastião me apareceu, *   Foi-se a varina que eu mal discernia E o dia finalmente amanheceu Sem sombra de mistério ou nostalgia. *       Maria João Brito de Sousa – 07.09.2018 – 12.17h