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A mostrar mensagens de maio, 2018

MARAVILHA - A minha ideia de...

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MARAVILHA - O meu conceito de... * Quando a realidade maravilha E se nos abre em todo o seu esplendor, Quando arrebata, porque em nós fervilha O sangue ardente do pesquisador * Quando se acende a luz que tanto brilha E afasta toda a treva em seu redor, Assumo-me inteirinha enquanto filha, Não de quanto sonhar, mas do que for. * Sempre que isso acontece e me arrebata, Dá-me, da maravilha, a forma exacta, O êxtase, o sabor da saciedade * E, sempre que a renego, um peso imenso Conduz-me ao sonho róseo que condenso Num sucedâneo da realidade. * Maria João Brito de Sousa – 29.05.2018 – 10.41h    

CASTELO DE AREIA

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  CASTELO DE AREIA Castelo de areia. Quem lhe reconhece, No que prevalece, direitos de autor? De mal a pior, o demais que acontece Apenas se tece nas mãos do escultor, Pois quando parece pronto para expor, Desaba em clamor e depressa se esquece; Não lança uma prece, um só grito, um estertor, Por seja o que for que a morte lhe apresse. Ninguém lhe conhece segredos de amor (boatos, rumor, mal o mundo os soubesse, que, se os conhecesse, os mudava em teor), Ergue-se ao alvor, ao sol-pôr desfalece; Por mais que o quisesse, cai sem ter valor, Que nem pr` ó escultor essa ruína o merece. Maria João Brito de Sousa – 27.05.2018 – 09.04h (Soneto em verso hendecassilábico com rima intercalada.)  

RELATIVIDADE(S)

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  RELATIVIDADE(S) A vida, tal e qual a evolução, Despreza os planos feitos por terceiros, Desenlaça-se e está sempre em expansão Até ao fim dos tempos derradeiros Em que é suposto rumar à extinção Para dar vez à vez dos pioneiros Da novíssima etapa deste chão Em que nos cremos deuses, ou romeiros. Não vos falo de um tempo que medimos, Neste nada em que somos e sentimos, Pelos relógios, pelos calendários Que engendrámos, criámos e gerimos, Nem dos prazos que nós instituímos; De outro vos falo, infindo e sem horários. Maria João Brito de Sousa – 25.05.2018- 10.39h  

A FACE OCULTA DA EMOÇÃO

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  A FACE OCULTA DA EMOÇÃO Repara como se usa e manipula Uma emoção qualquer, a bel-prazer, Se a razão não a filtra, nem regula, E deixa que ela exerça um tal poder Que o que havia de bom nela se anula Pra dar lugar ao mau que nela houver E te enreda, te prende, te encasula Nas mais perversas tramas do teu ser. Emoção livre e todo-poderosa É cega, é surda, avança impiedosa, Não olha a meios pr`alcançar as metas, Não tem espírito crítico, nem pensa; Ora beija, ora esmaga sem detença Homens, mulheres, crianças e poetas.   MariaJoão Brito de Sousa – 23.05.2018 – 08.01h  

MEDIR OS PASSOS

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  MEDIR OS PASSOS Se é facto que um caminho é perigoso, Um descaminho pode sê-lo mais Se se apresenta esconso e tortuoso, Cheio de tabuletas e sinais Que pequem por excesso e, mentiroso, Te encaminhar ao fosso aonde cais, Ao beco sem saída, mas vistoso, Onde entres sem saber que já não sais, À pedra em que tu possas tropeçar De um conselho mal dado, ou de um por dar, Que sempre algum conselho irás seguir, E ainda que creias ir sozinho, Mede bem os teus passos que um caminho Nunca foi coisa fácil de medir Maria João Brito de Sousa – 21.05.2018 – 13.00h  

RUA SEM NOME

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  RUA SEM NOME Se te indico um caminho, uma vereda, A contra-gosto o faço, mas aviso; Não tem honras de estrada, ou de alameda, Nem de asfalto, sequer, será seu piso. Não é nenhuma rota, que a da seda Redundaria em risco e prejuízo; É apenas um esconso, estreito friso No espanto do que a vida te conceda. Sendo um atalho, nem sequer tem nome, Nuns dias terás sede, noutros, fome, Mas, outros, eu jamais te apontaria, Porque já trilho o meu há muitos anos E, apesar dos muitos desenganos, Eu mesma, outro melhor não escolheria. Maria João Brito de Sousa- 19.05.2018 – 16.08h  

GUERRA E PAZ

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  GUERRA E PAZ Há guerra e paz na voz com que protestas E umas frutadas notas que não sei Se te vêm de um tempo de aço e festas, Se de outro, contra o qual me revoltei, Mas há-as, que as senti, abrindo frestas Na dor, quando a teu lado a partilhei, No grito, como as ervas, como as giestas Que em ti colhi, quando jamais plantei. Que mais há nessa voz que é minha e tua, Que mais trazes no som que vem da rua, Se não a impotência da tristeza, De não poder-te dar melhor, nem mais Do que estes vôos rasos sem os quais Talvez nem pão tivesse, sobre a mesa? Maria João Brito de Sousa – 19.05.2018-17.04h  

PASSANDO AO LADO

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  “PASSANDO AO LADO” E quando mal se dorme porque a dor Teimou a noite inteira, acrescentou-se E, conseguindo levar a melhor, Deixou dentro de nós a dor que trouxe, Não há espaço pra sonho, ou chão pra flor; Já nada é espanto, nada é pêra-doce E tudo, analisado ao pormenor, Parece um pesadelo. Antes o fosse! Mas pesa-me, este longo desabafo; Não tenho a fina lira que tem Safo, Nem as paixões soberbas de Florbela. Poeta de aço vivo e já tardia, Subtraio à dor um pouco de ironia, Passo-lhe ao lado e... já nem dou por ela! Maria João Brito de Sousa – 19.05.2018 – 09.08h  

MOAXAHA IV

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  MOAXAHA IV Aos que em tudo acreditam me dirijo. Corrija quem puder. Eu não corrijo! Erros de paralaxe. O que serão? Há que ter disso a mínima noção E não acreditar de modo vão Em tudo o que se vê nestas paragens Onde se (des)constroem mil imagens. Escorços, pontos de vista, perspectivas, Visões em túnel, falsas narrativas E crenças, serão como arestas vivas Que muitas vezes saltam das mensagens E te enredam na farsa das miragens. “Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.” Citando Miguel Torga, in DIÁRIO, 1941   Maria João Brito de Sousa – 18.05.2018 -12.33h  

POR INSTINTO

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  POR INSTINTO Foi por instinto, apenas por instinto, Que (quase) me quebrei pela cintura E que agora me quebra a dor de um cinto Que foi amparo de outra criatura. Por instinto me sei, me dou, me sinto Distante de estar “dita” e de ser “dura”. Por instinto não quero, nem consinto, Viver nas trevas de outro mal sem cura. Por instinto, saí no intervalo De um filme sobre a vida de um cavalo Que foi domado à força e não morreu. Por instinto te acuso, ó Panaceia, Do mito que te encobre e que falseia As mil “virtudes” desse mundo teu!   Maria João Brito de Sousa – 17.05.2018 – 12.27h  

ÀS TRÊS PANCADAS - Ícaro revisitado no século XXI

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  ÀS TRÊS PANCADAS Desafiou o espaço. Abriu as asas E sentiu-se voar, voar, voar... Olhou em derredor por sobre as casas Buscando um galho, um ramo onde pousar. Queimava o sol, no alto, como brasas, E o vento, que soprava a bom soprar, Desvirtuou-lhe alturas, que viu rasas Apesar do seu rumo se afastar Cada vez mais e mais das tais ramadas Sobre as quais (re)pousar, de asas fechadas, E o quente sopro, que o alienava, Haver-lhe distorcido as coordenadas Ao ponto de enviá-lo, às três pancadas, Pra lonjuras das quais ninguém voltava. Maria João Brito de Sousa – 16.05.2018 – 13.03h  

MENTE DESCONTÍNUA

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  MENTE DESCONTÍNUA (segundo R. Dawkins) Ó Mente Descontínua, enquanto pensas Nos pequenos padrões por que te guias, Atenta no que perdes, olha as densas Nuvens cinzentas que tu própria crias! Razões pra desdizer-te, são imensas; Não são poucas as mentes que desvias E que submetes às razões pretensas Das tuas caprichosas tiranias. Repara como o tempo te reduz, Como à contradição te leva a luz, Enquanto quase nada andaste em frente, Porquanto procuraste, salto a salto, Encontrar a firmeza do asfalto Na fluidez de um fio de água corrente. Maria João Brito de Sousa – 14.05.2018 – 19.14h Não se pode conhecer bem uma árvore sem ter abarcado primeiro a floresta inteira, essa, a que não é apenas um somatório de árvores e sim esse somatório potenciado e condicionado pelas suas próprias interacções. - Eu  

AMOR E DOR - Epílogo

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  AMOR E DOR - Epílogo Pra rematar a saga, Amor consente Tomar a Dor por esposa e companheira. Amor, que nunca foi muito prudente, Não sabe o que é passar a vida inteira Lado a lado com Dor, que impenitente, Inflige a Amor insónias e canseira. Amor está cego e a Dor, sendo inocente, Nem pode pressupor ter feito asneira. Deu-se este enlace em tempos tão remotos Que nem posso evocar que estranhos votos Uniram para sempre este casal, Mas garanto que afirmam ser felizes, Que deram fruto, tiveram petizes E se amam. Para o bem e para o mal! Maria João Brito de Sousa – 14.05.2018 – 11.15h     Imagem - AMOR E DOR, Edvard Münch  

AMOR E DOR II

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  AMOR E DOR II Amor e Dor, brincando se entre-chocam E se enredam num fio que acaba em nó. Até então, Amor vivera só E, a Dor, lá nas lonjuras que se evocam. Moram juntos agora e, mal se tocam, Sentem um pelo outro um mesmo dó; Amor, que era imortal, desfaz-se em pó E a Dor sucumbe à dor que os nós provocam. Nesta paradoxal (des)união, Sente Amor, pela Dor, tal compaixão, Que cega, pra não vê-la sucumbir E a Dor, que vendo Amor, o julga são, Mais se enreda nos nós, mais sem perdão Se obriga a não deixar Amor partir. Maria João Brito de Sousa – 13.05.2018 – 09.27h  

DO SONETO II

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    DO SONETO II Vai desde o Dó maior ao Si menor, Este sonetozinho que componho Das fragrâncias de abrunho e de medronho Que entendo que me pedem prás compor Em pequeninas pétalas de flor, Nas vasilhas de barro em que me sonho, No tempo – do qual pouco já disponho -, No espaço, vá o espaço aonde for. Não finge. Nada inventa. Nunca mente. Irrompe, com a força da semente, Do chão de pedras de onde ousou brotar E, quando irrompe, emerge tão contente Que se apressa a dizer tudo o que sente Sobre tudo o que alguém saiba escutar.   Maria João Brito de Sousa – 11.05.2018 – 15.15h    

AMOR E DOR NAS FALDAS DO ARARATE

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  AMOR E DOR NAS FALDAS DO ARARATE Chegando ao Ararate, Amor e Dor, Sentaram-se, cansados da jornada. Olhando o Monte, a Dor ficou sarada E, de contente, quis curar Amor; Repara, Amor, que estava bem pior Antes de iniciar a caminhada, Que, olhando o Monte, foi-se-me a pontada, Que sinto despontar força e vigor! Vem ver, para que o mal nunca te chegue, Para que a dor, ao ver-te, se te negue, E não haja doença que te mate! Ouviu-a, Amor. Olhou. Perdeu-se olhando. Voltou sozinha a Dor, de dor chorando Por perder-se de Amor nesse Ararate. Maria João Brito de Sousa – 10.05.2018 – 18.46h  

MOAXAHA AO PÃO

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  MOAXAHA III AO PÃO Há quem cozinhe o pão da sua ceia Na brasa incandescente de uma ideia. Por vezes, nada, nada nos sacia Esta fome, esta sede, esta agonia, Este desassossego, esta avaria Que, ao consumir-nos, sempre se acrescenta Ao verso cuja massa em nós fermenta. Outras vezes, ficamos em pousio A levedar um pão bem mais tardio. Sem brasas. Só tições no forno frio E um nada, um quase nada que alimenta Quanta razão de um nada se sustenta. “Não tem asas a vitória terrestre: tem pão sobre os seus ombros, e voa corajosa libertando a terra como uma padeira levada pelo vento.” Citando Pablo Neruda in “ODE AO PÃO” Maria João Brito de Sousa – 09.05.2018 – 13.40h Imagem - The Bread Carrier - Pablo Picasso  

DO SONETO

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  DO SONETO A Rima empunha enxadas e resiste! Premindo teclas sem hesitação Percorre o Tempo de palavra em riste; Que ninguém tente impor-lhe a rendição! Pode trazer consigo um verso triste Para juntá-lo ao viço da canção Que canta quem não cala, nem desiste De fazer de um soneto uma missão, Ou pode estar escondida, ensimesmada, Em gestação latente e bem calada Até que, de repente, brota e jorra Como se fosse, a espera, premiada E, quando já madura e fermentada, Desse vida ao Soneto, antes que morra. Maria João Brito de Sousa – 09.05.2018 – 11.20h  

O IMPÉRIO DO SONHO E DA RAZÃO

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  Sei lá se olhando a Lua vi pegadas... Fazer Roschach? Não, não me apetece! Mas sei que há mentes muito atribuladas Vendo padrões em tudo o que parece Ser semelhante a coisas procuradas Que o olho focaliza e reconhece Como outras coisas já padronizadas E usadas em padrões que esse olho tece... Sobram-me – ainda...- algum discernimento E aquela rapidez de entendimento Que bastam pra saber dizer que NÃO Se a Fantasia, prima do Talento, Me concedesse as honras de um portento Do Império do Sonho e da Razão. Maria João Brito de Sousa – 08.05.2018 – 18.01h     NOTA – Delegando hipotéticos cargos, já que não posso delegar dores reais...  

FRACTAIS

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  FRACTAIS Não houve sol, nem lua, que se amassem Mais do que eu vos amei, do que amo ainda, Mas por muito que alguns me aliciassem, Sei muito bem quando não sou bem-vinda E nunca deixaria que me usassem Sem me entenderem, dando por já finda A lucidez que tive. Ah, se sonhassem As vias que a minha alma inda deslinda! Por vales, por planaltos, por montanhas, Por terras tão longínquas quanto estranhas, Me embrenho a cada dia mais e mais No desbravar de matas e de manhas Que nunca terão fim. Estas entranhas Transportam-me às lonjuras dos fractais! Maria João Brito de Sousa – 07.05.2018 – 12.07h  

MÃE

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  MÃE Sei-te velha menina inacabada Com asas de papel de seda e espanto Que adejam sobre tudo e sobre nada, Deixando-te encantada em qualquer canto, Sorrindo muito, ainda que magoada, Muitas vezes rendida à beira-pranto De olhos tristes, de lágrima arrancada Ao livre choro que te tece um manto. Vi-te de punho erguido pelas ruas, Vi-te multiplicada em tantas luas Quantas as marés-vivas te inspiravam E vi-te, antes de ver-te, à beira Tejo, Olhando o mesmo espelho em que me vejo, Tecendo os sonhos que os demais sonhavam. Maria João Brito de Sousa – 06.05.2018 – 09.06h  

NA VIDA, NADA, NADA É LINEAR...

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  NA VIDA, NADA É LINEAR...       Mas se nem todo o bem é por igual Sentido como um bem pra toda a gente E se nem todo o mal se faz por mal Podendo até brotar de algo inocente,   Se até a própria morte é, afinal, Da vida que não pára e segue em frente, O final de um caminho natural Que foi vivido, embora brevemente,   Porquê dividir tudo em mal e bem, Sem ter em atenção que há sempre alguém Que quer fazer o bem e por bem faz   Algo que, ao fim e ao cabo, prejudica? Se me não crês, repara e verifica Que nada é linear. Sei que és capaz!         Maria João Brito de Sousa – 04.05.2018 – 11.12h   Imagem retirada da net, via Google

BEM-ME-VOAS, MAL-ME-VOAS

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  BEM-ME-VOAS, MAL-ME-VOAS     Que espécie de ave pensas que persigo? Àquela que tu dizes perseguir Não a vejo voar, mal a lobrigo Na linha de horizonte, ou no porvir,   E, porque sou pardal, sempre te digo, Se a tua crença assim mo permitir, Que esse híbrido ideal, ao meu, mendigo Desta imensa vontade a que me obrigo,   Nem morto o levarás a competir; Multiplica-se, em vez de dividir, Voa sem medo, dando a face ao p`rigo,   E canta, ora acordado, ora a dormir, Sobre um mundo que nunca quis punir, Já que nem quer saber o que é castigo!       Maria João Brito de Sousa – 03.05.2018 – 12.58h            

VÔOS DE PARDAL

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  VÔOS DE PARDAL   Tenta gerir o tempo do poeta Que nunca sabe quando um verso chega E tantas vezes no tempo delega Versos que o dia a dia lhe prometa.   Tenta mudar a rota do cometa, Ou tenta dar uma pequena achega Ao imenso universo que ta nega, Pois desconhece a sua própria meta!   Tenta deter o amor, quando paixão, Tenta (re)programar a vocação Impondo-lhe fronteiras, rumos, cais...   Tenta-o tu, porque eu bem sei que o não Conseguirás. Terás tentado em vão Deter o vôo livre dos pardais!     Maria João Brito de Sousa – 02.05.2018 – 15.15h