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A mostrar mensagens de maio, 2020

UM SONETO PARA ANTÓNIO DE SOUSA

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  UM SONETO PARA ANTÓNIO DE SOUSA * São de astros os dez mastros dos teu dedos E destros os teus estros decantados Que enquanto livres voam são escoltados Por montanhas cobertas de arvoredos, * Picos armadilhados de rochedos, Vales numa vertigem desenhados, Despenhadeiros quase despenhados De alturas outras, que não geram medos. * São de astros feitos, esses teus sonetos, Poeta da casaca de cometas, Razão em suspensão sobre os afectos * Que calam, nos silêncios que prometas, A lucidez dos nomes simples, rectos, Que, lá do topo, vão lançando as setas. * Maria João Brito de Sousa - 31.05.2020 - 15.20h

CANSAÇO

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CANSAÇO   *     "A velhice é cansaço... e esse cansaço" Mais alto soa que qualquer cantiga, Mais bem me vence do que me castiga, Melhor me prende que o mais terno abraço. * Já pouco faço e, disto que faço, Evola-se um suspiro, uma fadiga, Uma exaustão severa e muito antiga Que não tem tempo e se perdeu no espaço. * Quero alcançar-te e já não tenho braço, Tento elevar-me e fico tonto e lasso Esmagado pela dor que me mastiga. * Descanso o corpo e fico preso ao laço; Repouso em vão que a cada novo passo "Esse mesmo repouso me fatiga!" *   Maria João Brito de Sousa - 30.05.2020 - 09.45h * Soneto inspirado em dois versos de Filinto de Almeida, 1857/1945 *   Poema elaborado no site Horizontes da Poesia a partir de dois versos (o primeiro e o último) indicados pelo poeta e administrador Joaquim Sustelo.    

UM SONETO PARA JUSTINA

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UM SONETO PARA JUSTINA * Procura-se osga-moura pequenina De seu nome Justina a Justiceira. Dá-se uma recompensa financeira A quem saiba dar novas de Justina * Ou me possa dizer por que a ladina Me desapareceu desta maneira Depois de cativar-me toda inteira Como se eu fosse ainda uma menina. * Talvez o réptilzinho adivinhasse Que, caso nesta casa pernoitasse, De ceia à minha gata serviria... * Não, não darei alvíssaras, lamento! Melhor fica Justina livre, ao vento, Do que em barriga alheia ficaria. * Maria João Brito de Sousa - 29.05.2020 - 16.13h

"SONETTO" DA CONFIRMAÇÃO DA NEGATIVA

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"SONETTO"[1] DA CONFIRMAÇÃO DA NEGATIVA * De fel me cubro se de mel me cobres; Já não há beijo que esta boca adoce Nem há paixão carnal que me destroce, Ainda que em doçura te desdobres. * Nos cantos que tomei por meus alfobres Não houve espaço, por menor que fosse, Para que conseguisses tomar posse Do não-sei-quê que nunca em mim descobres * Terás de perceber que estou velhinha, Que nada crio se não estou sozinha, Que da amizade sei tirar prazer * E que, quando era jovem, um bastou Pra que soubesse que esta que hoje sou Decerto quebraria sem torcer. * Maria João Brito de Sousa - 28.05.2020 - 18.58h * [1] do italiano cançãozinha ou soneto   Imagem - Tela de René Magritte

COROA DE SONETOS A QUATRO MÃOS

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  SIGAMOS MAIO AFORA * Sigamos Maio afora confiantes Sabendo, embora, quanto nos espera; Sejamos mais do que o que fomos antes Em cada Maio e em cada Primavera, * Que Maio sempre fez de nós gigantes Diante da malícia de uma fera Que nos tem por dispersos, vãos, errantes Cavaleiros do sonho e da quimera. * Sigamos Maio afora; Junho e Julho Esperam por nós, de nós terão orgulho, Tal como cada mês que está por vir * Nos há-de abrir os braços, finalmente, Quando o futuro se tornar presente De quanta gente em Maio o construir! * Maria João Brito de Sousa - 02.05.2020 - 08.39h *** 2 "De quanta gente em Maio o construir!" Esse futuro por agora tenso Que o mês de Maio irá fazer surgir Envolto em sonhos bons tal como penso * Junho há-de com mais força também vir A força de vencer, que me convenço Depois deste "maduro Maio" florir Irá florir o mundo ao qual pertenço * Confio em ar mais puro... a atmosfera Irá consolidar a primavera Nos campos e nas almas desta gente, * Que ag...

ALEGORIA DE UMA ZANGA

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ALEGORIA DE UMA ZANGA * (Em verso hendecassilábico com rima encadeada) * Maduros os mostos, montada a treliça, De pronto se atiça uma zanga nos rostos E os pressupostos de haver nova liça Incham qual carriça espantando os opostos. *   Confrontam-se os postos, deflagra a cortiça Na chama castiça de antigos agostos Que a tudo dispostos, jubilosa eriça Com fúria maciça explodindo em compostos. *   Dos mostos maduros mais bem fermentados, Serão decantados os vinhos mais puros... Não sei que futuros nem sei que passados *   Só sei que há legados funestos e duros E outros com furos muito bem guardados Por lábios cerrados, disfarces e muros. *   Maria João Brito de Sousa - 26.05.2020 - 12.28h  

E PARA QUASE TODOS, QUASE NADA

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  DEPOIS ou E PARA QUASE TODOS, QUASE NADA * Depois a gente chora, a gente ri, A gente, como dantes, nasce e morre E há-de calar-se a voz que em mim discorre Sobre as coisas que agora escrevo aqui * Alguém virá dizer-vos que morri, Outro alguém cuidará do que me sobre (que não é pouco, embora eu seja pobre) E talvez sobreviva o que escrevi. * Isto temos por certo, mas enquanto Houver lugar prá vida e para o espanto, Aproveitemos esta caminhada * Que quase nunca é fácil e segura Já que pra muito poucos há fartura E para quase todos, quase nada. *   Maria João Brito de Sousa - 24.05.2020 - 10.50h     Eu, ontem. memorando Maria Velho da Costa.

"D" de DÉDALO

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“D” de DÉDALO *   Deu-me Dédalo duas dedaleiras. Dueto d`ouro Dédalo me deu; Duplamente o dador se (con)doeu, De dedos despojado e de dedeiras. * Dispondo-me a (ce)der, dobei doideiras. De duro dardo (a)dentro descendeu, De delícias desfeita me (per)deu... Doces divagações (d)entre (ca)deiras. *   Doseio a delicada doação, Demoro e dignifico a duração Desta deliquescência dedilhada. *   Declino docemente a deplecção Da doçura durante a digressão; Dificilmente doo deturpada. *     Maria João Brito de Sousa – 24.05.2020 – 00.15h *   Imagem do labirinto do Minotauro (knossos, Grécia) retirada  daqui  

"D" de DESVENDAR

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“D” de DESVENDAR * (Em decassílabo heróico) *   Dedo-duro, disseste... digo, dizes Dos desumanos dardos desta dor. Direi dormir, dourar e decompor Dogmas e dados em dez directrizes. *   Dei-te demais. Desenlacei deslizes Dos deslocados dados do dador. Demências dissequei. Do ditador Derrubei dois demónios. Dois? Desdizes! *   Dócil Diana, deve-me ditados, Dezenas de dedais, dúzias de dados... Deve dar-tos depois. Descansa, dorme, * Divide em dúcteis dobras delicadas Duas diagonais desencontradas; Disseca-me e desfruta-me, ó disforme! *   Maria João Brito de Sousa – 23.05.2020 – 15.40h   *   Imagem - Tela de Jackson Pollock

"P" de PECADO

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  “P” de PECADO *   Pequei! Pesada pena, pausas parcas, Postulam prolongadas privações. Penosamente parem patriarcas, Póstumo pó, perpétuas punições. *   Perdido o prumo, pesa(m)-me Petrarca(s). Procuro pastos. Prendem-me prisões Profanadas por penas de plutarca(s). Proféticas. Prováveis. Previsões. *   Púdicos pés pisei. Pratos parti. Perdidamente presa, paz perdi. Palimpsesto. Pintura. Palco. Ponto. *   Provei paz paralela. Podre paz! Pobreza pressenti. Pão pertinaz... Produzo; pumba, pumba! Peco? Pronto! *     Maria João Brito de Sousa – 25.07.2018 – 13.51h *   Imagem - Eu, no quarto dos brinquedos da casa de Algés

BEM-SE-SABE

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BEM-SE-SABE   *   (Soneto em verso eneassilábico) * Bem se sabe o que julga saber-se, Mal se sabe o que nem se adivinha; Se bem sabe o que possa comer-se, Mal nos sabe o que aos frutos definha. * Que bem sabe um bom doce de alperce Preparado por quem o cozinha Com o toque alquimista que exerce Sobre quanto de si se avizinha. * Se pra tudo houver contrapartida, Bem melhor percebemos que a vida É mudança imparável, constante, * E se tudo se move e renova, Bem se sabe o que a vida comprova; Quem parar vai morrer nesse instante. *   Maria João Brito de Sousa – 21.05.2020 -  13.00h *   Imagem Natureza Morta com Maçãs - Paul Cézanne

ALEA JACTA EST

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ALEA JACTA EST *     Depois do gelo, a terra abre-se em flor E à flor segue-se o fruto do costume, Como à faísca irá seguir-se o lume Ao qual se há-de seguir seja o que for.     *     Lançam-se os dados. Busca-se o factor Que satisfaça as ânsias do cardume Que aguarda ordeiramente e nem presume Poder cair nas mãos do pescador. *   Na praia, três pulguinhas, das da areia, Vão emulando o canto da sereia A bem da tradição... e dos seus egos. *   Sobe a maré e cumprem-se os destinos Dos cardumes, dos homens, dos meninos E até dos que são loucos ou estão  cegos.   *   Maria João Brito de Sousa – 20.05.2020 – 10.14h   Imagem - "La Luna Rota", Almada Negreiros - Retirada  daqui