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A DÚVIDA

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  Se eu cresci a saber que duvidar É a mais produtiva ferramenta - embora dê trabalho e seja lenta… - Porque me falas tu de acreditar   Como se fosse a forma de criar Que tudo vai gerar, tudo sustenta? A dúvida é um bem que me acalenta, Que me ensinou a arte de voar…   Sem dúvida que a dúvida é, por vezes, O ponto de partida de uma fuga, Mas gera, para nós, sabedoria…   Duvidei tanto, ao longo destes meses, Que vi acrescentada, em cada ruga, A lavra do que eu não compreendia…     "The suicide of the pink whale and the dove I borrowed from Magritte" - Maria João Brito de Sousa

SOBRE A NUDEZ CRUA DO PECADO...

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Sobra-me de alma e falta-me saúde... São coisas desta idade indefinida, Quando se passa além da meia-vida E não mais a pujança nos ilude...   São coisas que, pensadas amiúde, Vos falam da Mulher-Interrompida, Da que voltou por si (ou foi trazida...) De um outro espaço doutra latitude...   Sobra-me um somatório de ilusões, De rastos-de-cometa, sensações De algo que se passou sem ter passado.   Sobram-me, de mim mesma, mil pedaços Que transformei em manchas e em traços Sobre a crua nudez do meu pecado.     Imagem retirada da internet   Pormenor de: "Sobre a nudez crua da Verdade, o manto diáfano da Fantasia"     Estátua de Mestre Teixeira Lopes, representando Eça de Queiroz estendendo sobre a Verdade  o ténue manto da Fantasia.    

INDIFERENÇA

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Quanto direito humano ou que direito Nos dá, a nós, direito de passar Por esse mundo fora sem olhar Pr`a outro como nós, mas imperfeito?   E se lhe faltar pão, amor, saúde, Porque não partilhar o que nos sobra? De nada irá servir a nossa obra Se a obra não partilha e nos ilude...   Tanto humano direito desprezado... Tanta miséria e fome e quão cansado Estará o bicho-homem de se ouvir!   Quantos nem nunca ouviram ou souberam O sentido, a razão porque nasceram Onde outros nunca querem dividir...     Imagem retirada da internet  

JOGOS DE SEDUÇÃO

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Se teço mil carícias de cetim No corpo alucinado de um soneto, Se, nesta tentação, me comprometo Com esta sedução que surge assim,   Eu nunca mais consigo achar-lhe o fim! São tantos os pecados que cometo E tantos os poemas que prometo Que me espanta o ardor que existe em mim!   Mas, mesmo que assim brinque, e u sei que sou Poeta a tempo inteiro - corpo e alma! - Pois nada do que faço me contenta...   Não paro de escrever... eu venho e vou Entre uma rima breve que me acalma E outra que me torna mais sedenta...     Imagem retirada da internet  

ANACRONICA(MENTE)

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Quantas vezes abraço o mundo, a vida, E o Universo e eu somos só um! Quantas vezes sou tantos e nenhum, Dispersa, em esparsa névoa diluída?   Quantas vezes tão só e acompanhada Me sinto, mais do que eu, árvore, flor, Cometa em voo raso, Ursa Maior, Terra, água, fogo e ar... ou mesmo nada?   E, nesta fantasia, que não sei Se é mesmo fantasia ou se é real, Me encontro, me defino e justifico.   De tudo o que fui dando, o mais que dei Foi esta elevação do que é banal À dimensão de um Eu que sacrifico.     Imagem retirada da internet      

O SONHO EM VÃO

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Aqui, onde me vês, não sou ninguém. Sou átomo de vida, um quase-nada, Quiçá uma abstracção inacabada Das coisas irreais que o mundo tem...   Aqui, onde me vês, eu nada sou, Ou sou este teimoso sonho meu... Eu, Hermes mensageiro, eu, Prometeu Que Zeus um dia, irado, castigou...   E, enquanto ilusão, eu nunca sei Se sou por existir, se me sonhei, Se sou realidade, ou invenção   De um Ego que a si mesmo se constrói... O que de mim sobrar (isso é que dói!) Talvez seja, mais tarde, um sonho em vão...     Imagem - "A Sonhadora" - Acrílico sobre C anson                 30x20cm                 Maria João Brito de Sousa, 2001    

(DES)SINCRONIZAÇÃO

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Peço-te mil perdões por ter-te amado, Porque te amei demais... Eu, a Poeta, Pintei-te de outra cor, quis-te paleta, Quis-te só para mim, quis-te encantado...   Amar-te tanto assim foi sempre errado. Tornei-te meio-ser, alma incompleta, Tentando ir caminhando em linha recta Num círculo perfeito e pré- traçado...   Amei-te em cada gota do meu sangue, Amei-te até morrer, caindo exangue; Amei-te além de mim. Tão mais além...   Gravei na dimensão dos meus sentidos Um ideal de humanos desmentidos Que nos foi condenando. A nós, também...   Maria João Brito de Sousa - 2008       Imagem retirada da internet

A POBREZA

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Sim, sofro como sofrem os magoados, Mas nunca como sofre o desistente! Se sofro, é duma dor que, embora urgente, É deste mundo e não me dá cuidados...   Sofro da fome que é dos deserdados Daquilo que faz falta ao ser vivente, Daquilo que pensei ser-me indif`rente Porque não vem nos versos nem nos quadros,   Daquilo que não posso dispensar Por força do meu espírito estar preso À carne que me rende e que eu desprezo...   E esta ambivalência a condenar Urgências da minh`alma, como um peso A esmagar no meu corpo o fogo aceso!     Maria João Brito de Sousa - 19.08.2008     Imagem - "O Guardador de Almas"                  Pastel Sépia s/ Canson                  Maria João Brito de sousa, 1999

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

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* Eu já morei nos longes de outros tempos, Já enfrentei dragões, sendo moinhos, E vi, com meus dois olhos, os caminhos Que levam das mil glórias aos tormentos. * Morei em esconsas celas de conventos, Conheci mil palácios, provei vinhos, Travei batalhas, lavrei pergaminhos Sem me render ao medo, aos desalentos. *.. Ergui, da areia, as pedras de Gizé, Morri mil mortes, matei outras tantas... De tudo o que eu criei, perduram sonhos; * A humana condição é como a fé Na estranha lucidez que nos comanda... Surdos, mudos e cegos... mas risonhos! * Maria João Brito de Sousa - 15.08.2008 - 19.18h   Imagem - "Ensaio Sobre a Cegueira" , 103x73cm                  Técnica mista                   Maria João Brito de Sousa , 1999

O CAPITAL

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  O CAPITAL *  Poemas que vos dizem quanto sei, Poemas que vos falam do que penso E outros descrevendo o contra-senso Desta temeridade em que me dei, *  Descritivo fiscal de quanto herdei, Livre de selo, imposto, emolumentos, Ou talento, que paga em sofrimentos As taxas exigíveis pela lei; *   Todo este capital vos legarei E enquanto vo-lo deixo em testamento, Crescem-me os bens pr`além do que sonhei  * Na soma dos mil versos que engendrei, Por fim legalizada em documento; Eis todo o capital que acumulei!   *   Maria João Brito de Sousa - 13.08.2008 - 13.20h   Imagem retirada da Internet   Reformulado a 20.10.2015

O CAOS

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    É o modelo vivo da desordem, A descrição geral do desconforto, Mas, apesar de parecer já morto, Vive tal como os outros que se mordem.   Pouco ou nada lhe importa que discordem Da sua estranha vida e, porque é "torto", Já nem sequer procura abrigo ou porto E despreza atenções dos que lhe acodem.   Que não ouse ninguém repreendê-lo! Irado e já tomado de impaciência, Pode mesmo chegar a destruir,   Mas, se esse alguém puder compreendê-lo, Ele abre uma excepção e faz cedência Do Adão que foi gerado em seu sentir...     Maria João Brito de Sousa - 10.08.2008   Imagem - "Escorço - Grande Pintora a Lápis de Cor"                (pormenor)                Maria João Brito de Sousa - 2007

POEMA II

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Um poema é um nobre missionário Gerado pelo sonho em movimento... Ecoa pelo espaço e pelo tempo Sem pedir alimento nem salário   E sempre é casto, sendo libertino... Seduz, fascina, ensina uma uma lição E parece incansável na missão De ser parte integrante do destino   Se ri, se chora, abraça sem escolher E nesse seu abraço faz saber Que um sonho nunca morre; é infinito   Poema, ao dar-vos tudo o que tiver, É quem vos dá, no fundo, a conhecer O que, dentro de vós, há de bendito...   Ao Mário Quintana (li alguns dos seus poemas na minha mais remota juventude e recordo-me de que o meu avô falava muito nele. Suponho que fossem amigos ou, pelo menos, correspondentes e reencontrei-o no blog http://escritosdeeva.blogs.sapo.pt/ ) Ao Freddie Mercury.   Imagem - "L`Important c`est la Rose" - Acrílico e pastel de óleo                Maria João Brito de Sousa - 1999

VIVER APAIXONADAMENTE

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  Paixão. Viver a vida sem paixão É quase não viver, é só passar Por este nosso mundo sem deixar Um rasto nesta estranha imensidão,   É deixar por metade a construção Do edifício "vida", abandonar A razão de viver e nem sonhar Que o mundo esteja - e está! - na nossa mão.   Viver sem ser apaixonadamente, Passar e não olhar, ser indif`rente, É ser mais pobre ainda, é não ter nada,   Ou, sendo "nada", ter forma de gente, Quando se ignora o apelo sempre urgente Da vida que nos chama, apaixonada...     Maria João Brito de Sousa - 01.07.2008 - 11.55h     Pormenor de "O Cristo Amarelo", Paul Gauguin, 1848-1903   . Soneto dedicado, a pedido, a quem me comenta com o nick "Paixão"

DICOTOMIA

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Humano corpo-escravo, a quanto obrigas! Quantas vezes limitas quanto prendes... Bem sei que não conheces, nem entendes, Os meu voejos d`alma, estas cantigas.   Pobre corpo mortal! Quem tu abrigas É um`alma invencível a quem estendes Uma âncora-grilheta. Compreendes? Pouco lhe importa, a ela, quanto digas.   Neste equilíbrio instável sobrevivo Entre um corpo imprestável e cativo E um` alma de poema, insatisfeita.   Nesta dicotomia, o meu arquivo, Amontoo os mil versos que cultivo No seio dessa amálgama (im)perfeita.       Maria João Brito de Sousa - 29.06.2008 - 13.26h . Dicotomia - Aguarela e pena 67x47cm Maria João Brito de Sousa 2002  

CORAÇÃO DIGITAL I e II (diálogos entre poeta e instrumento de trabalho)

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  CORAÇÃO DIGITAL     Pobre coraçãozito digital Tentando acompanhar o meu que é louco... Por muito que tu saibas, sabes pouco, Pois falta-te o genoma de animal...     Pobre companheirito de metal Limitado por Gigas e por Megas Que estás sempre a meu lado e me não negas As compulsões de origem natural;   Ao toque duma mão, sempre leal, Fazendo ouvir o teu zumbido rouco, É sempre disponível que te entregas     A esta minha urgência tão total, A que nunca fizeste ouvidos moucos, Neste enlace ideal das horas cegas...     Maria João Brito de Sousa - 2008       CORAÇÃO DIGITAL II     Já estou desfragmentado e, no entanto, Pareço não ser lá muito eficaz... Não sei por que razão isto me traz Um tal cuidado e tanto desencanto...     Aqui, sossegadinho, no meu canto, Aceito o que vier e fico em paz Pois dou exactamente o que tu dás! Dou tanto como tu! (ou quase tanto...)     Eu sei! Tu és poeta, eu instrumento... Não te posso dar mais! O que eu lamento Não ter a Vida que te faz sonhar!     Serei...

O GATO

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    O GATO *     Deus tentou um poema... e foi o Gato O melhor que nasceu quando o escrevia Por isso tem o gato uma magia   Que nos fascina, mesmo quando ingrato *   Parece, entre os felinos,  bem pacato,   Mas desde que alcançou autonomia   Tomou, entre os demais, a primazia  E pôs  a bicharada em desacato *     Uns chamaram-lhe deus, outros diabo...   Por uns foi adorado, outros tentaram   Dizimar, por inteiro, a sua raça *   Mas reina, ainda hoje, esse nababo, Sobre as superstições que o renegaram E quando nos conquista, é pela graça. *     Maria João Brito de Sousa-21.012008 - 14.31h