GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (18)
PANTEÍSMO Ao Botto de Carvalho Tarde de brasa a arder, sol de verão Cingindo, voluptuoso, o horizonte... Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão Dum verso triunfal de Anacreonte! Vejo-me asa no ar, erva no chão, Oiço-me gota de água a rir, na fonte, E a curva altiva e dura do Marão É o meu corpo transformado em monte! E de bruços na terra penso e cismo Que, neste meu ardente panteísmo Nos meus sentidos postos e absortos Nas coisas luminosas deste mundo, A minha alma é o túmulo profundo Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos! Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" TROPISMO(S) "Tarde de brasa a arder, sol de Verão" Sobre um estuário estático e brilhante Que me parece vir da dimensão De um mundo imaginado e já distante ... "Vejo-me asa no ar, erva no chão", Cauda de peixe, nau de navegante, Sargaço, limo, lapa ou mexilhão Nas desnudadas rochas da vazante... "E de bruços na terra penso e cismo"; Que louco este infindável mimetismo, Que estranha a minha ...