DOR
Não me doas assim, tão cruamente, Roubando-me a noção de tudo o mais, Deixando-me irascível, descontente, Exausta do suplício em que me esvais… Deixa-me em paz o corpo onde sou cais, Sozinha, eu sei, mas orgulhosamente! Devolve-me o meu "eu" de aonde sais Pr´a que o poema nasça urgentemente... Quem pode assim escrever, desfeita em dor, Abafando os gemidos da lamúria, Sem descanso ou momento de conforto? Quem poderá provar-te sem temor, Sem que a voz lhe rebente numa fúria, Ou preferir-te à paz de um cais já morto? Maria João Brito de Sousa