A SANGUE-FRIO * Longos, longos dias de cinza vestidos São tão mais compridos quão mais são vazias As horas tardias dos tempos perdidos Sem versos corridos e sem melodias. * Sem fugas, sem vias, nem novos sentidos, Alastram sofridos tédios, agonias, Neutras sinfonias de sons repetidos Tão só pressentidos, se acaso os ouvias. * Eis as pandemias tiranas e cruas Que invadem as ruas, as casas, os quartos... Medrosos mas fartos, lançamos-lhes puas, * Compramos gazuas, sonhamos com partos, Sofremos enfartos gemendo em cafuas; Ó almas já nuas, seremos lagartos? * Maria João Brito de Sousa - 23.01.2021 - 11.50h *** 2. "Ó almas já nuas, seremos lagartos?" Porque subvertemos o quente no frio? Porque, dos abraços, já ficamos fartos? Porque esvaziamos as horas a fio? * Temos inda alma, que gerou os partos de belos poemas, que falam do rio que corre para o mar, sem medo de enfartos, porque enfrenta a vida como um desafio. * E, todas as noites, que cruzam as ruas, onde corpos sonham com as ...