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A GAVETA DOS ACASOS

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      Todos deveriam ter uma, pensou ao abrir a gaveta superior da secretária. As nuvens, lá fora, não haviam meio de decidir-se. Invadiam o espaço exterior como rainhas absolutas da tarde. Ameaçavam mesmo invadir-lhe o quarto, pousar sobre ela, asfixiar a criatividade que de si emanava. E por ali pareciam estar apostadas em manter-se, tiranas, gordas, pasmas. - Antes chovesse…, murmurou enquanto retirava as primeiras folhas de papel descuidadamente arrumadas na “gaveta dos acasos”. Amontoava-as, agora, sobre uma cadeira, em gestos rápidos e mecânicos, uma parte de si concentrada na tarefa, a outra lá por fora, onde os cúmulos cinzentos se indecidiam sobre a sua vocação tempestuosa. Mas nada parecia fazer sentido naquela tarde de chumbo e a arrumação nunca fora um dos seus melhores trunfos.   Um pedacito de papel amarelecido chamou-lhe, subitamente, a atenção. Apenas o vislumbrara entre montanhas de papel mais recente, encarquilhado nas pontas, prometendo memórias que dissipariam as nu...

A GRUTA DAS TREZENTAS CINQUENTA E SEIS PALAVRAS E UMA MEMÓRIA

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    Era uma vez uma gruta pequenina, escavada nas rochas da praia, quase coberta pelo mar na maré-cheia. Diz a lenda que, há muitos anos atrás, essa gruta foi uma mulher igualzinha a mim, igualzinha a nós todas… consta que tinha longos cabelos negros, daí as longas algas que, há uns anos, inevitavelmente assinalavam a entrada da pequena reentrância rochosa. Talvez vocês nunca tenham reparado nela, mas eu conheci-a pessoalmente há quase cinquenta anos, quando eu e o meu pai brincávamos aos espeleólogos em plena costa do Sol… “Diz a lenda…”, digo eu, que era diferente das outras grutas. Não porque fosse maior, mais profunda ou muito diferente de todas as outras… mas era uma gruta tão especial que nunca a consegui esquecer. “Diz a lenda…”, digo eu, que era uma gruta fêmea. Mulher, sem dúvida, e indubitavelmente solitária por opção. De forma aparente, claro está, pois recordo-me muito bem de, tanto eu como o meu pai, sabermos, com s...

FABULANDO...

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Três jovens rãs caminhavam despreocupadamente numa bela tarde de Verão. Duas delas tagarelavam e a terceira, muito calada, ia apreciando a paisagem enquanto recordava os últimos parágrafos que lera no seu livro de Ciências Físico Químicas. Era uma rã bastante interessada no mundo que a rodeava e, por mais que as outras a solicitassem para uma conversação sobre as últimas tendências da moda, os olhos acabavam por se lhe desviar para a cor do céu àquela hora, o verde dos caminhos, a majestade das árvores e o voo dos insectos que por ali zumbiam aos milhares. Outras vezes era o pensamento que lhe vagueava, de novo, para as lições de Biologia e Físico Químicas... as tais que tão particularmente lhe interessavam. As amigas, pontualmente, zombavam dela: - Olha lá, mana! Ainda acabas por tropeçar na pata de uma formiga!, dizia a da esquerda. - Olha-me para esta tonta, sempre a pensar na morte da bezerra! Quando não lê ou estuda, fica assim, feita zombie, de olhos perdidos no nada... , acresce...

MARIA SEM CAMISA

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NA DEADLINE PARA http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/   Não, não sou exactamente eu, conforme a imagem sugere. É mais ou menos o meu Ego sem censura, o que por aí anda à rédea solta e que acaba, sempre, por se manifestar no momento das grandes decisões. Por isso é, como eu e como todos vós, uma personagem. Pormenores? Aqui vão!         Maria Sem Camisa, a sem-dinheiro,,   Passando pela vida ao Deus-dará   Tem fama de ser louca e de ser má   Mas, no fundo, é poeta a tempo inteiro...       Maria vai plantando o seu canteiro   De sementes de si e o que não há   Inventa-o a Maria e tanto dá   Ter pouco se tão rico se é primeiro...       Maria-Sem-Camisa planta ideias   E disso vai colhendo o seu sustento   Sem cuidar da chegada ou da partida...       Os frutos que ela colhe são candeias,   São estrelas a luzir no firmamento   Da órbita em que traça a sua vida...                 A SEM CAMISA II   Maria-Sem-Camisa, a sabe-tudo, Aprendeu a falar c`os animais E não desdenha nunca saber mai...