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A mostrar mensagens de maio, 2014

FRACÇÃO

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  (Soneto de coda ou estrambote em decassílabo heróico)     FRACÇÃO * O Tempo, esse tirano, esse vilão A quem, teimosos, nunca aceitaremos, É quem gere, afinal, tudo o que temos Na nossa humana bio-condição  * Mas, longe de aceitar que tem razão, Que da sua passagem dependemos, Chegamos a negar quanto aprendemos Ser fruto dessa vasta produção  * E contra a própria vida nos erguemos Se, esquecido o percurso que fizemos, Cairmos nessa vã contradição   De achar que, por mais voltas que engendremos, Por mais que o próprio tempo confrontemos Em busca da perfeita solução , *   À Vida pouco importa o que inventemos, Nem pensa em resolver quanto vivemos; O Tempo é que o traduz numa fracção. *       Maria João Brito de Sousa – 21.05.2014 – 20.08h     Imagem - A Persistência do Tempo - Salvador Dali

O MAIS DO QUE PERFEITO NAUFRÁGIO

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Poema que vieste e me abraçaste E logo, sem pedir, te deste inteiro, Não saberei dizer se me és primeiro, Ou se, depois de eu ser, de mim brotaste   Porque, se em mim, crescendo te firmaste, Por ti me fiz, mais tarde, o teu estaleiro, Ou mão que lança a rede e marinheiro Das vagas que, incansável, navegaste,   E sei que no momento derradeiro Desta nossa odisseia, companheiro, Depois do breve porto a que aportaste,   No mar que me abraçar, serei ribeiro Que em tua foz se extingue, ó meu veleiro Que tão perfeitamente naufragaste.       Maria João Brito de Sousa – 18.05.2014 – 21.24h  

ESSÊNCIA

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  (Em decassílabo heróico)   Mudas de espanto e sem fazer sentido Nascem palavras, brotam tentações Que se entrechocam num ponto perdido, Gerando prados, montanhas, vulcões,   Trocando as voltas ao que foi pedido, Emudecendo a voz de outras questões Com que se tenham já comprometido, Muito senhoras das suas razões!   Como ecos fundos, chegam sons distantes Que, cá por dentro, fazem ressoar Roucos murmúrios de ideias constantes,   Músicas loucas, vibráteis, pulsantes Em que o desejo se ousa decifrar Na pauta inglória duns versos cantantes.     Maria João Brito de Sousa – 16.05.2014 – 16.54h

UM SONETO BREJEIRO... ou nem por isso...

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  SONETO BREJEIRO *   Se a rosa cor-de-rosa abraça um cravo E logo se desdiz, se faz rogada, Não fica o rubro cravo a ser seu escravo, Mas talvez fique a rosa apaixonada *   E, mais tarde ou mais cedo, em gesto bravo, Reflicta na paixão que foi travada E venha murmurar-lhe; “Eu furo e escavo Até tornar-me a flor mais desejada!” *   Responde o cravo, altivo: -“Eu nunca disse Que queria estar contigo, ó flor burguesa! Não pudeste abraçar-me sem que eu visse *   Que usando a mais-valia da beleza Me ousavas seduzir sem que eu sentisse No teu brejeiro gesto uma certeza!” *     Maria João Brito de Sousa – 09.05.2014 – 14.56h