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ESTRANHA SOBREVIVÊNCIA

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Impôs-se-me uma lágrima e chorei... Chorei como quem chora a própria vida! A lágrima era o ponto de partida Desse poeta em mim que então soltei...   Mais lágrimas rolaram... mais de mil, Seguidas por mais mil que não paravam. Fui lágrimas de mim que em mim rolavam Até redesenhar o meu perfil...   Depois nasceu a vida aberta em flor Onde antes eram lágrimas de dor E este poeta em mim sobreviveu...   Ah! Como é louco e estranho o meu destino! Sobreviver à morte de um menino E alcançar, depois, o próprio céu!

O CORPO POR UMA JANGADA

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  Eu vivo neste corpo de Jangada; Perdi-me, fui ao Céu, depois voltei E choro ainda quem por lá deixei No seio duma luz imaculada... . Chora, Jangada chora os impossíveis! O menino da luz não volta, não... Desceu à terra dentro de um caixão E mora agora entre os não visíveis... . Chora, Jangada, chora o teu mar-alto! O teu vulcão de lava há-de apagar-se E tu hás-de rumar, de novo, à luz . Onde antes te afundaste em sobressalto E, um dia, um mesmo sol virá deitar-se Num chão onde se ergueu tão dura cruz...   Maria João Brito de Sousa - 14.03.2008 - 20.24h . (Ao chegar do hospital, no supermercado, às 20.00h)

A MAIS-VALIA

A MAIS-VALIA * Abriu-se-me uma f´rida pequenina Que tal como as palavras foi crescendo, Tomou conta de mim, foi-me doendo, Fez-me sentir, de novo, uma menina.   Depois melhorará! É esta a sina Da vida que por cá sigo vivendo E será sempre assim, eu compreendo, Até que chegue a hora da vindima.   Rasga-se a cicatriz na carne-viva, O menino do céu chega-se a mim, Retorna-me essa imensa nostalgia   E, enquanto essa dor me traz cativa, Escrevo estes meus poemas que, no fim, São, de tudo o que faço, a mais-valia.       Maria João Brito de Sousa   -   10.02.08 - 01.35h   -          

UM MAR CÁ DENTRO...

UM MAR CÁ DENTRO     Sabe-me a boca a sal. O meu menino Há tanto que partiu e mesmo agora Existe, em mim, um mar que quando chora Se veste inteiro de um azul divino.     Nunca mais voltará, o pequenino, Foi para o céu azul onde hoje mora E nunca saberei qual é a hora De poder partilhar o seu destino.     Sabe-me a boca a sal. Talvez do mar... Talvez, cá dentro, o sangue tenha sal, Por isso a minha boca está salgada     E chora, cá por dentro, e quer calar, Mas tanto mar cá dentro faz-me mal, Sabe-me a boca ao sal, de estar calada.           Maria João Brito de Sousa 10.02.2008     10.02.08 - 01.00h -      

QUIMERA

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   QUIMERA *     Trouxe-te a noite em asas de poema,   Levou-te uma manhã sem coração:   Foi-te a vida fugaz como ilusão   Mas deixou-me a saudade imensa, eterna... *     Se tudo o que vivemos vale a pena   Teria o teu percurso sido vão?   Meu menino, sei lá por que razão   Te concederam vida tão pequena! *     E se, apesar de tudo, ainda vives   Se a alma pequenina que tu és   Ganhou as asas de anjo que sonhei   *     Então existo menos do que existes:   Sou barro em que repousam os teus pés   Velando uma quimera que engendrei.   *         Maria João Brito de Sousa    04.02.2008 - 03.30h *

MESMO QUE O MEU MENINO PARTA EM MAIO

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    MESMO QUE O MEU MENINO PARTA EM MAIO *      Sou a perfeita esposa do Senhor; Lavo e teço os poemas das manhãs, Amasso em pão-de-deus a minha dor, Encho os silos de trigo e de maçãs, *     Pinto a cor da fartura nas auroras E derramo a alegria de ser eu Quando me deito, à noite, fora de horas, Em lençóis onde a lua adormeceu. *   Sou casta, sou serena e sendo velha (quantos milénios nesta minha vida!?) Há uma luz em mim, como se um raio *     Me tivesse enviado uma centelha Que me legasse a graça de uma ermida, Mesmo que o meu menino parta em Maio... *           Maria João Brito de Sousa - 01.02.2008 - 12.08h