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A mostrar mensagens de janeiro, 2008

AUTO-RETRATO

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  De novo um poema que não é soneto. Nasceu assim e assim deu origem a este óleo sobre madeira...       AUTO-RETRATO         Sou um animal como outro qualquer Pois coube-me em sorte Ser bicho-mulher...   Mamífero-alado Posto em vertical, Mais perto de um anjo Que de um ser carnal...   Às vezes sou planta, Do sonho à raiz, Só sei entender O que a terra me diz...   Serei sempre o fruto Daquilo que eu quis!         Maria João Brito de Sousa

GENETICAMENTE INSPIRADO

  GENETICAMENTE INSPIRADO *   Vou pincelando, a ocres e vermelhos, Este soneto oval que me fascina E engano os meus anseios de menina Numa ressurreição de cacos velhos *   Desminto a evidência dos espelhos! Deste enlevo renasço, pequenina, Crescem-me asinhas de feição divina E fico invulnerável a conselhos, *   Pois moldo, pinto, engendro a "obra-prima" Que vou solicitando aos meus sentidos Sem que me sinta, nunca, arrependida *   E, a cada segundo, o que me anima É toda a profusão de coloridos Que há nesta sensação de criar vida! *   Maria João Brito de Sousa  31.01.2008 - 10.15h   ***   In Poeta Porque Deus Quer, Autores Editora, 2009

AQUELOUTRA

  AQUELOUTRA *   Essoutra controversa, excomungada, Abstrusa figurinha de café, A que jamais impondo a sua fé Nela constituíra uma morada, *   A cara de bezerra desmamada, Da lágrima ao sorriso, é como é E nunca mais se aparta do seu pé Qualquer desconcertante gargalhada. *   A que passou por tratos-de-polé Sem nunca se apodar de maltratada, A que despreza os ditos da ralé, *   A tonta, a sem-razão, desmazelada, Que vai e torna a vir como a maré... A Poeta-Pintora naufragada! *       Maria João Brito de Sousa - 30.01.2008  - 14.17h     Memorando Mário de Sá Carneiro    

SONETO CAMONIANO

  A purista que assumo ser perante a palavra, contrasta, abruptamente, com o "desastre" que, efectivamente, sou perante a informática. Mea culpa. É absolutamente necessário que me justifique melhor. Não percebo rigorosamente nada de "word" e tenho andado para aqui a debitar sonetos (excelentes sonetos...) que são um verdadeiro desastre sob o ponto de vista formal, pois nem sequer aparecem aos vossos olhos divididos em duas quadras e dois tercetos... o que é o mínimo dos mínimos que se pode exigir a um soneto! E o soneto é, efectivamente, uma "entidade" complexa, a mais complexa da Poesia. Antes de mais, no soneto MASCARADA, que não foi "criado" directamente de mim para as teclas do PC, escapou-me um verso da penúltima estrofe... Seguem as duas últimas estrofes, porque uma das minhas características mais louváveis é não saber viver em paz com os erros que cometo...     ...Mas parte-se um sapato de cristal! O pézito está f`rido, dói-me tanto... A c...

A MASCARADA...

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A MASCARADA *   Quis vestir-me de Gata Borralheira! (prenunciava o nome o meu futuro) Calcei sapatos do cristal mais puro E ergui palácio e trono na lareira. *   P`ra dar veracidade à brincadeira, Vesti o meu vestido verde-escuro E, não fora o sapato ser tão duro, Durar-me-ia o jogo a tarde inteira, *     Mas... racha-se o botim, quebra o cristal, Fica o pé a sangrar e dói-me tanto... A criada, no auge da aflição, *   Tentando reparar tão grande mal, Consegue-me acordar do estranho encanto Porque em vez de acudir-me... varre o chão! *       Maria João Brito de Sousa - 29.01.2008  16.47h    

UMA LUZ NO FUNDO DO MAR

  UMA LUZ NO FUNDO DO MAR *     Meu castelo de sal em lua-cheia, A renda que debrua as tuas vagas E pontilha de branco as duras fragas, Vem, às vezes, lançar-me, sobre a areia, *   Gotinhas desse mar que bebo à ceia... De ti, mar, que fugias e voltavas Nas ondas que obedecem como escravas Aos mais fúteis caprichos das sereias.   *   Assim, singro este mar que me conduz À nascente de mim no infinito E a templos de água e sal sobre ilusões. *   Fala-me, essoutro abismo, doutra luz E eu, quando oiço o mar, quase acredito No mundo imaginário dos tritões. *         Maria João Brito de Sousa - 29.01.2008 - 16.06h        

TANTOS POEMAS POR CRIAR...

TANTOS POEMAS POR CRIAR... *   Importam-se de não falar de mim? Serei sempre o que digo nestes versos Por mais que soprem ventos tão adversos Que, a cada sopro, di tem o meu fim. *   Também o bravo lírio cresce assim E tudo é natural, porque os inversos Se tocam e se tornam controversos Ecos de Colombina e de Arlequim. *   Eu, nesta eterna pressa de criar, Correndo pelos dias, pelas horas, Num tempo que ao chegar é já passado, *   Não peço pena! Deixem-me passar, Que já não tenho tempo pra demoras E o que está por criar quer ser criado! *       Maria João Brito de Sousa - 29.01.2008 - 12.39h

MEU AMO, O MAR...

 MEU AMO, O MAR *     Meu amo e meu senhor das ondas bravas, Dos líquidos abismos insondáveis, Que prometendo amor`s inconfessáveis Me vão trazendo as horas como escravas, *   Meu senhor das marés, o que me davas Se obedecesse a apelos impensáveis Das ondas que parecem sempre amáveis? Também a mim, será que me afundavas? *     Ó mar das profundezas ilusórias, Como entregar-me a ti se tão bem sei Que essas tuas promessas são traidoras? *     E  surgem, de repente, estas memórias Dos medos ancestrais que ainda herdei De quantos te entregaram suas horas... *       Maria João Brito de Sousa - 29.01.2008 - 10.58h      

A MENINA NO JARDIM

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    A MENINA NO JARDIM *   Sabia-me de cor nas tardes mansas; O cão à minha beira e eu criando Aquilo que de mim ia brotando Enquanto contemplava outras crianças. *     O cabelo, apanhado em duas tranças, - que a criada, afanosa, ia entrançando - Atenta aos traços que ia desenhando, Esquecida de outros jogos, de outras danças. *     Em casa, a avó pergunta à empregada: - Brincou muito, a menina, no jardim? Correria demais e já se cansa? *     E a pobre da mulher, preocupada: - Minha senhora, não foi bem assim... Rabiscou toda a tarde, esta criança! *       Maria João Brito de Sousa - 29.01.2008  

A MORTE DO POETA

A Livraria-Galeria Municipal Verney organizou, em parceria com a Camâra Municipal de Oeiras, um ciclo de palestras denominado "Quintas Feiras Culturais", que está aberto ao público em Oeiras, na Rua Cândido dos Reis Nº90, a partir das 16.00h. A útima 5ª feira de cada mês é, invariavelmente, dedicado à Poesia e à Associação Portuguesa de Poetas, da qual sou membro. Na passada 5ª feira, Maria Ivone Vairinho, Presidente da APP anunciou a morte de um Poeta português da "velha guarda", o Ulisses Duarte. Fez-se um minuto de silêncio e foi aí que "nasceu", em mim, o soneto que agora publico.         SER, DEPOIS DE SER *       Da cicatriz do SER depois de ser Emerge, no Poeta, o seu legado Na música que o verso, ao ser traçado, Imprime, no futuro, a quem vier. *     Não morre, do poeta, esse poder Pois cada verso seu, cristalizado, Fica connosco, em nós é semeado E cada um de nós o faz crescer. *     Poeta é imortal, juro-vos eu, Que entre tantos nasci e deles her...

TRABALHO

      TRABALHO *   Sou um perfeito exemplo do empenho: Passo dias e noites acordada, Trabalho quanto posso e, já cansada, Continuo de pé, e vou e venho *     Se quero descrever-me, é num desenho Em que posso falar estando calada, Nesta infinda tarefa concentrada, Como se me talhassem dum só lenho *   Não paro de pensar! Só o cigarro Me acompanha nas horas criativas, Porque, afinal de contas, sou humana *   E esta vocação de deus-de-barro Que me transforma as mãos em rodas vivas, Já não me deixa tempo para a cama! *     Maria João Brito de Sousa - 28.01.2008 - 11.12h   NOTA - Refiro-me ao tempo em que ainda pintava... e era assim mesmo que, frequentemente, os meus dias e noites se passavam.  

ANUNCIAÇÃO DO CRISTO AMARELO A GAUGUIN

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        Este trabalho de 55x40cm, a pastel de óleo sobre madeira, pretende ser uma pequena homenagem a uma tela de Paul Gauguin que se chama "O CRISTO AMARELO" (90x73cm) que se encontra em Nova York na Albright-Knox Art Gallery. Paul Gauguin foi um dos grandes percursores do modernismo Europeu e teve (a meu ver...) o grande mérito de abandonar uma vida confortável de corrector da Bolsa para se entregar de corpo e alma à pintura  

MARIA-SEM-CAMISA IX

Maria-Sem-Camisa está gordinha! Empanturrada em versos nem tem fome... Ninguém pode engordar do que não come E ela mal petisca e não cozinha... Não come e, no entanto, é redondinha! Não pode "arredondar" quem nunca tome Do alimento vivo o doce polme, Pois quem vive do ar... sempre definha! Maria come pouco, quase nada... Se engorda é porque assim o decidiu Ou porque não lhe interessa emagrecer... Talvez o "poetar" de madrugada Seja o tal "nutriente" que ingeriu E não precise mesmo de comer...   Maria João Brito de Sousa  

EU, PROJECTO DE MIM

  EU, PROJECTO DE MIM *   Eu vivo-me em severa ditadura Por ser, de mim, projecto antecipado Onde não cabem medo, nem pecado, E que tão só na morte encontra a cura. *   Fico, até que me chame a sepultura, Projecto do meu EU, meio traçado (sempre houve que alterar um gesto errado, porque assim é a vida... se nos dura) *   Acrescenta-se um traço na estrutura; Fica o projecto mais equilibrado Embora eu esteja ainda mal segura *   E o traçado ascenda a tal altura Que ousar descê-lo vai ser complicado... (no céu há sempre alguém que me procura) *       Maria João Brito de Sousa - 26.01.2008 - 16.53h

AUTONOMIA

AUTONOMIA *   Segue em rota frontal de colisão Com a minha vontade de ser eu, Na polpa do poema, o que escreveu Esta determinada, incauta, mão. *     Não volto atrás, nem nego a decisão! Tão livre é o poema que nasceu Que, sendo por mim escrito, não é meu Pois me ultrapassa em determinação. *   Cá fico, neste cais de terra e mar, Olhando essa insensata autonomia Que, mesmo partilhada, segue em frente *   Nas asas de um mistério por sondar Que dá vida ao poema que só qu`ria Um pouco da atenção de muita a gente. *     Maria João Brito de Sousa - 25.012008 - 11.58h

ADEUS, MAMÃ!

  ADEUS, MAMÃ! *   Afogo o meu soluço em parte alguma Se recordo o menino que gerei E logo tudo aquilo que não sei Se dissolve no ar desfeito em espuma. *   Num vão peculiar do meu sentir, Arrumada a miragem, com carinho, Lá deixo o meu menino deitadinho, No mais fundo de mim irá dormir. *   Agora é o poema quem, comigo, Passeia de mãos dadas, vai à rua, Dorme na minha cama e, de manhã, *     Me acorda pr`a que vá brincar consigo... Depois, mal chegue a noite e veja a lua, É quem me vem dizer: - Adeus, mamã! *         Maria João Brito de Sousa - 24.01.2008 - 22.36h  

MARIA-SEM-CAMISA VIII

Maria-Sem-Camisa VIII   *  Talvez tivesse sido concebida No Olimpo de Zeus, essa Maria E só descesse ao mundo porque qu`ria Salvá-lo da desgraça prometida... *   Agora está, talvez, arrependida Pois não aceita o mundo essa magia Que espalhando ilusão, dando alegria, Se propõe dar sentido à sua vida. *   Mas não é mau, o mundo... é inseguro! Tem medo de mudar, pois ser dif`rente Exige, a todos nós, muita coragem. *   Nunca o mundo vislumbra o seu futuro, Como o não vê, decerto, tanta gente Que molda o mundo inteiro à própria imagem. *       Maria João Brito de Sousa - 24.01.2008 - 11.53h

HORA CERTA

 HORA CERTA     Irei, assim que chegue a hora certa! Nem antes nem depois (não sou dif´rente...) Da hora destinada a toda a gente Assim que a vida humana em si desperta *   O certo é que a verdade desconcerta Mal surja e se defina em nossa mente, Porque, sendo o que a vida nos consente, Sabemos quanto a hora é, sempre, incerta *   E, geneticamente irresponsáveis, Seremos responsáveis, no entanto, Por tudo o que fizermos nesta vida, *   Porque, sendo as respostas insondáveis, Não perde, a vida, o seu tremendo encanto Por ser incerta a hora da partida. *     Maria João Brito de Sousa - 23.01.2008 - 21.05h    

A SEDUÇÃO

  A SEDUÇÃO     O mar tem tantos truques, tal poder, Pra nos prender a vida e fascinar Que parece mais homem do que mar, Quando seduz e encanta uma mulher.     Mas o mar não rejeita quando quer! Se um dia nos deixamos encantar Sabemos ser cativo esse lugar Que o mar tem pronto pra nos oferecer.     Depois da sedução estar consumada, É tudo para a vida e para a morte E não há volta a dar, o mal está feito,     Porque não há retorno, não há nada Que possa libertar-nos dessa sorte, Se um dia adormecermos no seu leito.       Maria João Brito de Sousa - 23.01.2008 - 14.46h

SONETOS DO MAR

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A Primavera está a chegar e, com ela, veio-me esta vontadezinha de escrever sobre o mar... Afinal eu, cidadã do mundo, sempre vivi aqui, exactamente na zona litoral que define a linha onde o Tejo e o Atlântico se encontram. Em Algés, cresci até à adolescência, na Rua Luís de Camões, numa casa que ainda hoje existe e está assinalada com uma pequena placa que homenageia o nascimento do malogrado Amaro da Costa, cujo pai era um grande amigo do meu avô, o Poeta António de Sousa, de quem, mais tarde vos tenciono falar. A minha primeira casa enquanto "pessoa crescida" foi em Paço de Arcos, mesmo junto à estação da CP, na rua Carlos Luz. Agora vivo há trinta e seis anos em Oeiras, na Quinta das Palmeiras e tenho a certeza que não saberia viver fisicamente longe daqui. Por isso aqui vai a minha:           A JUSTIFICAÇÃO DO MAR *     Serei, na (in)completude dos gentios, Quem de ti fez o berço original, Quem te encheu da grandeza natural De invernos, dos agrestes, e de estios; *   Sou...

SIMBIOSE

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 SIMBIOSE *   Perdeu o voo, o meu amigo alado, Perdeu autonomia e perdeu vida Este Columba livia de asa ferida Que acabo de tomar a meu cuidado *     Talvez volte a voar, talvez magoado Perdesse a tal vontade desmedida Que nos confere o impulso de partida Sempre que o céu se torna desejado *   Perdeu o voo e a ousadia, Perdeu tudo o que tinha de mais belo, Talvez nem queira já viver sequer *     Mas eu sou doutorada em teimosia: Desdobro-me em cuidados, trato, velo, Já nem sei se sou pomba ou sou mulher *     Maria João Brito de Sousa, *  in Poeta Porque Deus Quer - Autores Editora, 2009

MARIA-SEM-CAMISA VII

 MARIA-SEM-CAMISA VII *   Maria-Sem-Camisa é muito rica, Partilha o que não tem com toda a gente E já ninguém, por cá, fica indiferente À estranha caridade que pratica *   Daquilo que emprestou jamais critica Uma devolução menos urgente E não há nada que ela não invente Quando a necessidade o justifica *   Maria faz-de-conta, a sem-camisa, Vai dando o que mais falta no seu lar E como tudo falta... tudo dá *   Mas só dá o que dá a quem precisa Que a quem vier pedir sem precisar Maria vai dizendo: - Já não há! *     Maria João Brito de Sousa - 22.01.2008 - 13.39h