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A mostrar mensagens de junho, 2014

SONETO EM ABSOLUTO SOLILÓQUIO

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  (Em decassílabo heróico)     Não sei o que fazer… se ao verbo informe, Tomada de paixão, tente moldar, Se negue a sensação sem a esboçar E a devolva intacta ao que em mim dorme.   A compulsão, porém, tornou-se enorme! Mais forte do que eu sou, quer-se afirmar E sinto que não mais se irá vergar Nem há compensação que, hoje, a conforme   Ou que possa anular-lhe esta vontade De ir esculpindo uma voz que agora invade O espaço das mil causas emergentes.   Se o tempo que passou gerou saudade, Depressa entenderá que esta verdade Lhe exige gestações bem mais urgentes.       Maria João Brito de Sousa – 23.06.2014 – 18.18h     Imagem - Pintura de Álvaro Cunhal retirada da página do Partido Comunista Português

SONETO DE RÉDEA CURTA

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  (Em decassílabo heróico)     Sussurro ensimesmado, entristecido, Ou grito enraivecido e revoltado, Cada poema emite, ao ser traçado, Um som que, antes de escrito, é sempre ouvido   E, se o poeta o prende, é desmentido, Tudo o que quis dizer lhe foi roubado Ao negar-lhe as razões pr`a ser cantado Que o fizeram nascer livre e sentido.   Se afirmo o que afirmei, digo a verdade Que poderão tomar por má vontade Contra quem me sugira mote e tema,   Porém só sei escrevê-lo em liberdade E juro que não faço essa maldade De dar tão curta rédea ao meu poema!       Maria João Brito de Sousa – 13.02.2014 – 19.30h     IMAGEM - Amadeo de Souza-Cardoso, Os Cavalos do Sultão

HAVIA UM MAR II

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      (Soneto em decassílabo heróico)     Existe ainda um mar que, em tempo incerto, Transpondo quanto dique eu lhe impuser, Me galvaniza e vai, sempre a crescer Por dentro de mim mesma, a descoberto,   Submergindo o que exista lá por perto, Subindo o que é suposto, em mim, descer Nessa vaga incontida do meu ser Que, ao quebrar, se transforma em livro aberto.   Mole infinita de ondas e marés Nas quais, liberta a escrava das galés, Vaga a vaga, me afundo em vaga alheia   De um mar que podes ser, que também és, Se à praia desces e, molhando os pés, A espuma ascende em nós, galgando a areia.     Maria João Brito de Sousa – 01.04.2011- 09.16   NOTA DA AUTORA - Soneto em decassílabo heróico, trabalhado a partir do soneto original “Havia um Mar”, in PEQUENAS UTOPIAS -   CORPOS EDITORA, Maio de 2012.      

UM SONETO "FORA DA LEI"

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  (Em decassílabo heróico)     Passaram tantos dias, tantos anos (… a vida é mesmo assim que se desenha, Não escrevo pr`a chorar-lhe os desenganos), Que aqui tento evocar, nesta resenha   Do “engenho” que cresceu nos meus “meccanos”, Das bonecas de loiça ou desta estranha Memória que, ao passar, não causa danos Porque, aos danos que fez, esquece e desdenha.   Nostálgica… não sou, nunca o serei! Se evoco, é porque nisto reproduzo O pouco, o muito pouco qu`inda sei   Que vou fazendo enquanto me conduzo Ao sabor da palavra e contra a “lei” Que a tantos dobrará, mas que eu recuso.     Maria João Brito de Sousa – 14.06.2014 – 17.13h

UM SONETO PARA AGRADECER A TODAS AS PALAVRAS NUNCA DITAS

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  (Em decassílabo heróico)   Lá ficam mil palavras por nascer Neste vê-se-te-avias de uma vida Onde morre a palavra preterida Por outra que não quer retroceder,   E quem nelas se enreda até morrer, Quem delas faz preâmbulo e partida, Agradece à palavra já rendida As muitas que ela acaba de acolher;   Pr`a todas as palavras nunca ditas Porque outras mais propícias, mais bonitas, Vieram preencher quanto diriam,   Aqui deixo as que agora foram escritas Pois todas elas devem ser benditas Quanto à nobre função que exerceriam…     Maria João Brito de Sousa – 07.06.2014 – 16.18h   Imagem - Massacre da Coreia, 1951 - Pablo Picasso