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A mostrar mensagens de fevereiro, 2017

GLOSANDO FLORBELA ESPANCA -Melodias

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  Patrono: Florbela Espanca Académica: Maria João Brito de Sousa Cadeira: 06 ALMA PERDIDA * Toda esta noite o rouxinol cantou, Gemeu, rezou, gritou perdidamente! Alma de rouxinol, alma de gente, Tu és, talvez, alguém que se finou! * Tu és, talvez, um sonho que passou, Que se fundiu na Dor, suavemente... Talvez sejas a alma, a alma doente, D`alguém que quis amar e nunca amou! * Toda a noite choraste... e eu chorei Talvez porque ao ouvir-te adivinhei Que ninguém é mais triste do que nós! * Contaste tanta coisa à noite calma, Que eu pensei que tu eras a minh`alma Que chorasse perdida em tua voz!... * Florbela Espanca In "Livro de Mágoas" *********** A VITÓRIA DO ROUXINOL * "Toda esta noite o rouxinol chorou", Ou fui quem lhe não soube interpretar Um canto, que eu pensava soluçar E era à vitória, quando a conquistou... * "Tu és, talvez, um sonho que passou", Um eco do que um dia ousei sonhar Sobre a alegria de poder cantar, Que, chore, ou ria , nunca soçobrou....

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE XLII

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  HÁ PALAVRAS QUE BAILAM NOS MEUS DEDOS   Há palavras que bailam nos meus dedos E que zombam de mim, deste cansaço Fazendo dos meus dedos seus brinquedos Enquanto eles repousam no regaço   Vão juntinhas contando-lhes segredos Pra que ao ouvi-los sintam embaraço E plo papel se percam em enredos Olvidando a fadiga em que me amasso   E devagar, em esforço cresce o verso Ora algo indolente ora algo disperso Troçando dos meus dedos vagarosos   Vai adquirindo forma de poema Feito com as palavras de algum tema E os versos, que cresceram rigorosos   MEA 24/02/2017 *********   O EMBRIÃO     "Há palavras que bailam nos meus dedos" Seguindo a pulsação das próprias veias, Compondo, ou recriando os seus folguedos, Conforme a mente vai moldando ideias.   "Vão juntinhas contando-lhes segredos", Arrancando e limpando as velhas teias Que escondem, ou mascaram quantos medos Possam vergá-las de quebranto, ou peias   "E devagar, em esforço, nasce o verso", Como se em carne ho...

A MORTE DO(S) (DES)ENCANTADOS

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  Quando a revolta já não faz sentido, Esgotada a chama de uma rebeldia, Tudo parecerá estar diluído Numa existência já sem serventia   Em que o verso parece ter perdido O estro, a força e mesmo a valentia, Que antes sentira haver-lhe permitido Fazer sentido, enquanto o garantia.   Chega a derrota e crê-se, então, vencido Por causa de uma simples avaria... Assim se adia o verso, o não-nascido   Que, noutras circunstâncias, nasceria Por algum tempo ainda. É bem sabido Que cedo morre o Poeta, se não cria.       Maria João Brito de Sousa - 24.02.2017 - 11.02h     NOTA - O título deste soneto nasce do título daquele que, caso tivesse chegado a ser editado, seria o último livro do poeta António de Sousa, meu avô.  

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE XLI

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  UM POUCO DE PRIMAVERA   Naquela verde relva do jardim Há salpicos de vida já brotando Com a brancura fresca do cetim São mesa posta a pássaros em bando   Que saltitam por ela em frenesim Ora ali voando ora debicando Num bailado de voos sem ter fim E em alegres chilreios vão rimando   Versos em que prometem Primavera Em abraços voados pla atmosfera Que nas manhãs de sol pintam no espaço   E expressam melodia tão fremente Com destreza singela e inocente Mudando a cada instante seu compasso   MEA 21/02/2017   ********************   MÁTRIA     "Naquela relva verde do jardim", Expressando a vida em cor, rejubilantes, Há vidas que parecem não ter fim, Que renascem tão vivas quanto dantes,   "Que saltitam por ela em frenesim" Contrariando os mais recalcitrantes, Pois Vida, ao renascer, renasce assim, Em ciclos pré-datados e constantes...   "Versos em que prometem Primavera", Toda a Vida os compõe, vindos da espera Que precede as razões de cada dia   "E exp...

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE XL

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  ÁGUAS   Águas da chuva são belos brilhantes Delicados e frágeis a brilhar Em gotas transparentes, cintilantes Numa cama de flores, a sonhar   As águas do mar são ondas gigantes Na imensidão perdida do olhar Feitas de vento e sal, que estonteantes No areal se permitem descansar   Águas do rio são leito de jovem Que em seu curso a embalam e se movem Como se fora berço confortante   As águas do granizo, sei que são Em pérolas os sonhos de paixão Dum cavaleiro audaz belo e galante     MEA 9/02/2017 ÁGUAS, TAMBÉM... "Águas da chuva são belos brilhantes" São transparentes lágrimas sem choro, Ou névoas que, não qu`rendo estar distantes, Se juntam pr`a formar límpido soro. "Águas do mar são ondas gigantes" Que vejo junto à costa, se demoro Os olhos qu`inda as vêem como dantes Desde o tempo distante em que hoje moro. "Águas do rio são leito de jovem", Pois também se evaporam, depois chovem Pr`a, novamente, ao rio se irem juntando. "As águas de granizo sei qu...

CONVERSANDO COM FLORBELA ESPANCA - Morte

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  DEIXAI ENTRAR A MORTE Deixai entrar a morte, a iluminada, A que vem para mim, pra me levar, Abri todas as portas par em par Como asas a bater em revoada. Que sou eu neste mundo? A deserdada, A que prendeu nas mãos todo o luar, A vida inteira, o sonho, a terra, o mar, E que, ao abri-las não encontrou nada! Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste? Entre agonias e em dores tamanhas Pra que foi, dize lá, que me trouxeste Dentro de ti?...pra que eu tivesse sido Somente o fruto das entranhas Dum lírio que em má hora foi nascido!... Florbela Espanca In, "Charneca em Flor" **************************** ORDEM DE PRORROGAÇÃO DE SENTENÇA Desvia essa gadanha, ó velha Parca, Que por mais alguns anos ta dispenso, Pois, se ontem te venci, melhor te venço Enquanto em vida deixo a minha marca E enquanto for levando a minha barca Por entre um nevoeiro espesso, denso, Prossigo nesta rota do bom-senso Assim que a bujarrona se me encharca Do sal marinho, quando o vento o traz À minha barca que dema...

SILÈNCIO(S)

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  Neste silêncio triste embalo os mortos Entre asas fracas, flácidas, pendentes, E sobre este regaço, os mesmos hortos De onde ervas emanavam, persistentes, Cobrem-se já de caules secos, tortos, Negros, mirrados, quase transparentes, Quais longos mastros nos distantes portos Da rota imaginária dos ausentes... É outra, no entanto, a minha rota, E se hoje reavivo a estranha frota, Razões bem fortes tenho pr`a fazê-lo, Pois muito se assemelha ao que descrevo A angústia de não ter para o que devo, Embora eu mude o esboço a cada apelo. Maria João Brito de Sousa - 06.02.2017 - 13.23h  

GLOSANDO PATATIVA DO ASSARÉ

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  O BURRO     Vai ele a trote, pelo chão da serra, Com a vista espantada e penetrante, E ninguém nota em seu marchar volante, A estupidez que este animal encerra.   Muitas vezes, manhoso, ele se emperra, Sem dar uma passada para diante, Outras vezes, pinota, revoltante, E sacode o seu dono sobre a terra.   Mas contudo! Este bruto sem noção, Que é capaz de fazer uma traição, A quem quer que lhe venha na defesa,   É mais manso e tem mais inteligência Do que o sábio que trata de ciência E não crê no Senhor da Natureza.   Patativa do Assaré (1909-2002)   In "O Secular Soneto" (osecularsoneto.blogsot.pt)   BURRO(S)     "Vai ele a trote, pelo chão da serra," Carregando no lombo a carga alheia, Porque burro de carga não coxeia, Nem quando em sujo lodo um casco enterra.   "Muitas vezes, manhoso, ele se emperra" Causando ao dono enorme cefaleia, Quando, na hora de voltar à aldeia, Entenda ser demais quanto carrega...   "Mas contudo! Este bruto sem noção" ...

GLOSANDO JORGE DE SENA

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  INDEPENDÊNCIA     Recuso-me a aceitar o que me derem. Recuso-me às verdades acabadas; recuso-me, também, às que tiverem pousadas no sem-fim as sete espadas. Recuso-me às espadas que não ferem e às que ferem por não serem dadas. Recuso-me aos eus-próprios que vierem e às almas que já foram conquistadas. Recuso-me a estar lúcido ou comprado e a estar sozinho ou estar acompanhado. Recuso-me a morrer. Recuso a vida. Recuso-me à inocência e ao pecado como a ser livre ou ser predestinado. Recuso tudo, ó Terra dividida! Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'         ... OU MORTE. "Recuso-me a aceitar o que me derem", Enquanto o não pagar. E pago foi Por estas mãos que quase nada auferem Deste trabalho infindo que as corrói. "Recuso-me às espadas que não ferem" E à forja em que uma espada se constrói, Pois, de todos os gumes que me esperem, Há-de ser sempre o meu que mais me dói. "Recuso-me a estar lúcido ou comprado" E recuso-me a ser manipulado Pelas razõe...

CONVERSANDO COM MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE XV

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PERDI-ME NUM POEMA   Perdi-me quando entrei por um poema Que de versos abertos convidava A um passeio livre sem problema Plas sílabas e estrofes que eu sonhava   E eram tantas palavras sobre um tema Tantas quadras dispostas que mostrava… Que entrando lá fiquei nesse dilema De nem sequer saber por onde andava   Equipei-me dum lápis e papel E pra que ao meu querer fosse fiel Nele refiz os versos dos caminhos   Perfumei-os com rosas e alecrim Depois criei-lhe um céu só para mim E bailei-o ao som de cavaquinhos     MEA 31/01/2017   **************************   O BAILADO     Perco-me mais e mais a cada dia, Nos versos, rimas, notas musicais, Eu que, quando perdida, encontro mais Em termos de abundância e de harmonia   E que quanto mais pobre e mais vazia, Mais rica vou ficando... não notais Que os versos podem ser paradoxais Quando engendrando mais que a fantasia?   Garantidos os bens essenciais, Ao ritmo de alguns versos mais leais O pouco que nos sobre é garantia   Do nascimento dos origi...

SONETO A UM VERSO "EM BRUTO"

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  SONETO A UM VERSO "EM BRUTO" Gosto-te, ó verso brusco, asselvajado, Na força em que, apressado, mal respiras E fumegas no cano, enquanto as miras Nem foram necessárias. Disparado, Saído num rompante, alvoroçado, Sem que pedisses contas, nem às liras Que quase sempre escutas quando admiras Requintes de outro irmão mais demorado... Que esta "embalagem" não te fica bem? Quem to ousa dizer? Afinal, quem Te poderia impor tempos dif`rentes? E sorrindo, apesar de não ter dentes, Sei que engendrar-te, não me tornou mãe, Mas em quem te entendeu como ninguém... Maria João Brito de Sousa - 31.01.2017 - 11.05h     NOTA - Por favor, não se assustem com a imagem que é meramente ilustrativa da metáfora do disparo...  

CONVERSANDO COM MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE XIV

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UM AÇUDE DE ÁGUAS INQUIETAS Tenho tantas palavras por dizer E sei nelas tal força pra sair Que se calcam e falham de nascer Quando lhes vou dar tempo pra fluir   Deste dia nublado a embater Nas vidraças querendo-me exaurir Das forças que me restam por não ver A clara luz do sol que me faz rir   E do mar a saudade que me dói Que aninhada em meu peito me corrói Assim latente traça esta inquietude   Que atropela o que penso e me confunde E que neste dispor faz que me afunde Nas águas inquietas deste açude     MEA 29/01/2017     TEMPOS DE SECA     É nos tempos da seca que a planura Se enche das crostas áridas, gretadas, Da terra sequiosa, ardente e dura, Que implora a bênção de águas derramadas.   Se às vezes me sei terra, sou perjura Quando no rio revejo, bem espelhadas, Aspirações comuns, árdua procura Da foz... ou das palavras consumadas.   Virá, ou não, o tempo de uma enchente? Pr`á terra, sim, mas nunca sabe, a gente, Quanto tempo esta sede irá durar   E enquanto a seca queima a terra...