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CANTA-ME UM FADO

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Fotografia de Moira, 2026 * CANTA-ME UM FADO * I * Canta-me um fado louco e rouco e tosco Ao som de uma guitarra há muito gasta, Num beco antigo e sob o brilho fosco De uma gambiarra à porta de uma tasca * Canta-me um fado enquanto em ti me enrosco Pra me esquecer do pouco que me basta, Um que venha depois viver connosco E seja um genuíno fado rasca! * Canta-me um só de quantos nunca ouvi Que mostre o que ganhei, o que perdi E me faça sorrir enquanto choro * Um que dê voz aos meus sonhos traídos E devasse os sentidos proibidos De quanto não vivi e que hoje ignoro * II * Não peço que me seja dedicado, Baste que chegue até ao meus ouvidos Em tom boémio ou triste e tão magoado Que os acordes me soem a gemidos * Vá lá! Canta-me um fado sussurrado Que seduza os meus versos mal medidos, Que me desminta os sonhos tresloucados E me traga de volta os já perdidos * Um fado nado numa velha rua Que uma viola parisse à luz da lua, Sem pressas nem cuidados nem parteira * Nascido pra amar ou pra morr...

CANÇÃO ARQUEJANTE

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CANÇÃO ARQUEJANTE * Não sei com que garra, mas hei-de lutar! Ceder? Nem pensar! Formiga ou cigarra, Se a morte me agarra, vou-me libertar Pra poder cantar ao som duma guitarra * E se ela me amarra com fios de luar, A Lua, meu par nas noites de farra, Vem e desamarra quanto me amarrar... Não parto a chorar e não faço algazarra * Cá fico, na Barra, que é o meu torrão: Um palmo de chão e uma nesga de Tejo São tudo o que almejo. Mais não peço, não * Senão, ai, senão, o que sinto, o que vejo E, infindo, o desejo - quase tentação - De ousar a canção como último arquejo. * ©Maria João Brito de Sousa 05.09.2026 Soneto hendecassilábico com rima entrançada * Imagem gerada pelo ChatGPT 
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 Imagem gerada pelo ChatGPT * "ANDA O MUNDO CONCERTADO" * "Anda o mundo concertado" De tão errónea maneira Que nem a seta certeira Lhe acerta... e passa-lhe ao lado Deixando o bolso furado A quem não tem nem carteira Mas passou a vida inteira A bulir qual condenado Mesmo que sem ter pecado Nem jamais ter feito asneira... * Por tal concerto não queira Ser, um homem,vitimado Que ninguém fica animado Se uma raposa matreira Lhe esvazia a capoeira... E, pobre ou remediado, Amigo, tem lá cuidado, Não caias na ratoeira Que a elite financeira Contra ti tem preparado * Ou irás ver-te acossado: À frente, uma ribanceira E, atrás, a espúria fogueira Em que irás morrer queimado... Partirás sem ter lutado Ou erguerás a bandeira Do que foste a vida inteira, Mesmo estando condenado?  Foste, amigo, atraiçoado, Não desistas à primeira! * ©Maria João Brito de Sousa 23.08.2026 * Décimas criadas a partir de um verso de Camões "Anda o mundo concertado"  

PEQUENO SOM - Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

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PEQUENO SOM - SONETTO * COROA DE SONETOS * Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes * 1. * Oiço-te,ó som longínquo mas audível Que ontem me fascinava a toda a hora... Aqui me tens. Por ti torno visível Aquilo que visível nunca fora * E seja, ou não, a minha voz sofrível, Dou vida a uma coisa que é sonora, Incorpórea e talvez indefinível, Mas que ainda me exalta e me enamora... * Bendita seja a hora em que te ouvi Quando já quase, quase te olvidara, Pequeno som que nunca sei explicar * Foi bom, foi muito bom trazer-te aqui: Tu és o que me nutre e me prepara Prás lutas qu`inda tenho de enfrentar * ©Maria João Brito de Sousa 16.08.2026 *** 2. * “Pr’ás lutas qu’ inda tenho de enfrentar” Gostava de ter força, de ter jeito Para imitar o som que ouço no leito Agora mesmo à hora de acordar * Soa do Sul, de Oeiras, junto ao mar Com a sua harmonia me deleito Ao qual agora vou render meu preito E palmas muitas palmas lhe vou dar * É voz que a entoa ou realejo? Não sei, só sei que vem da foz do...
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PEQUENO SOM - SONETTO * Oiço-te,ó som longínquo mas audível Que ontem me fascinava a toda a hora... Aqui me tens. Por ti torno visível Aquilo que visível nunca fora * E seja, ou não, a minha voz sofrível, Dou vida a uma coisa que é sonora, Incorpórea e talvez indefinível, Mas que ainda me exalta e me enamora... * Bendita seja a hora em que te ouvi Quando já quase, quase te olvidara, Pequeno som que nunca sei explicar * Foi bom, foi muito bom trazer-te aqui: Tu és o que me nutre e me prepara Prás lutas qu`inda tenho de enfrentar * ©Maria João Brito de Sousa 16.08.2026

SE ME FOR DADO CRER

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  Imagem gerada pelo Chat-GPT * SE ME FOR DADO CRER * Se me for dado crer, que seja assim que creia: Que a dor que me cerceia esta ânsia de viver Me não deite a perder o fio de cada ideia, Que me não falte à ceia o pão para comer * E que enquanto viver, embora gasta e feia, Castelos sobre a areia alcance ainda erguer Nos quais me recolher a cada maré cheia Do mar quando se alteia em vagas, a crescer * Caso assim possa ser, que quanto me rodeia Me seduz e me enleia enquanto eu cá estiver, Não pare de acender a luz que me norteia * E que não seque a veia, a tal que ousou tecer No tear do dever, a rubra, imensa teia Que no meu estro ondeia enquanto escolha houver. *   ©Maria João Brito de Sousa 14.06.2020 *** Soneto em verso alexandrino com rima entrançada *

O POETA DE LISBOA

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 O Velho Guitarrista Pablo Picasso * O POETA DE LISBOA *   Falou-vos de canoas e varinas, De marchas, manjericos e pregões, Contou-vos do seu mar, das orações, Das velhas conversando nas esquinas *   Contou-vos das tabernas e cantinas, Do fado, das guitarras, das canções, Das palavras acesas, dos jargões Na voz mal afinada dos ardinas *   Falou-vos de Lisboa, das colinas, Das vielas, da Sé, das procissões, Das causas e razões mais pequeninas *   Que irão ultrapassando as previsões, Dos bares e das noitadas com "meninas", Dos homens, das mulheres e das paixões! *   ©Maria João Brito de Sousa 07.11.2008