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POR VEZES A PALAVRA É PEDRA E CAI(A)...

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POR VEZES, A PALAVRA É PEDRA E CAI(A)... * Por vezes, "a palavra é pedra e cai(a)", Ora num precipício, ora dum muro; Efémero e fugaz golpe de saia, Pincel de transparências sobre o escuro, * Dama de porcelana que desmaia, Vislumbre de impossíveis que, inseguro, Deixa de (de)bater-se e chega à praia Para nela afogar o seu futuro. * Mas pode ser também pedra-de-toque, Parede-mestra, sopro, onda-de-choque Moldando outro futuro. Outro qualquer. * Efémera ou perene, ei-la presente No mais opaco e no mais transparente Dos sonhos que alguém possa entretecer. *   Maria João Brito de Sousa - 07.05.2020 - 09.27h * À poetisa Lídia Borges, a partir de dois versos seus "Há momentos em que a palavra/ É pedra e cai[a]"   Imagem retirada  daqui NOTA - Acabo de ser contactada pela autora que me alertou para o facto de os versos originais terem um erro. É um erro claramente induzido pela minha quase cegueira e não posso modificar o soneto ou deixaria de fazer sentido, mas aqui fica ...

LÍNGUA MATER

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LÍNGUA MATER * Cheiras-me a citrinos, sabes-me a canela, Soas-me tão bela quanto os grandes hinos E até os destinos gritarão; És ela, És a que nos sela com lacres latinos, * Se nos exibimos sem qualquer cautela Numa caravela por céus clandestinos, Hereges divinos urdidos em tela, Tudo e todos nela; povos, fados, sinos... *   Sabes-me a alegria, levas-me à tristeza De não ter grandeza pra tanta harmonia. És por vezes pia, noutras a avareza * Senta-se-te à mesa, rouba a soberania Ao que te cabia só por natureza, Mas tanta beleza... mais nenhuma a cria! *     Maria João Brito de Sousa - 05.05.2020- 20.43h * NO DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA (soneto hendecassilábico com dupla rima encadeada)   Imagem retirada   daqui

SIGAMOS MAIO AFORA II

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SIGAMOS MAIO AFORA II * Ó Maio das trovoadas contrastando Com os azuis profundos do teu céu E as alvas rendas que o mar vai bordando Sobre areias e rochas. Tudo é teu! * De Maio é que os vermelhos vão brotando Quando a rubra bandeira eclipsa o véu Que a "reacção" ainda vai teimando Em estender sobre um chão que já perdeu! * Viva Maio! Pra sempre e mais um dia, Viva o Maio que em Maio romperia Como semente de árvore de fruto * Que nem machado, nem serra dentada Poderão derrubar, porque plantada Onde a vontade erguera o seu reduto! *   Maria João Brito de Sousa - 05.05.2020 - 11.29h   Imagem retirada  daqui

EM SILÊNCIO, MÃE

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EM SILÊNCIO, MÃE * Seria sempre tarde ou muito cedo Pra te tentar dizer o que hoje digo, Ó minha mãe guardada num segredo Muito só nosso e por demais antigo. * Não houve raiva, mãe, nem houve medo, Nem rebeldia ou sombra de castigo Mas sendo tão menina fui brinquedo Que te desafiava e, eu, contigo * Já não brincava, mãe, que outras estradas Me chamavam pra novas caminhadas Que nunca aceitarias. Cedo ou tarde, * Tão menos unas, quão menos distantes Estaríamos, ainda que ignorantes De de um murmúrio nascer tanto alarde. *   Maria João Brito de Sousa - 03.05.2020 - 13.26h * (da jovem que fui para a minha então ainda jovem mãe)

COMO AS ANDORINHAS

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COMO AS ANDORINHAS *   Não trago mezinhas, nem vos trago nada Que ando já cansada de ver que sozinhas Bocejam vizinhas, qual a mais trancada, Qual  mais alquebrada de esfregar cozinhas, *   De espanar coisinhas, de ficar deitada... Aqui, confinada, escrevo cantiguinhas Muito levezinhas. Versão mais pesada É bem complicada e eu suo estopinhas *   Pr`adoçar-lhe as linhas ou dar-lhe a toada Mais apropriada, tal qual as gavinhas Que moldam as vinhas a qualquer latada. *   Hoje, atordoada, só de coisas minhas Encho estas cestinhas de palha entrançada; Vou em revoada, como as andorinhas! *   Maria João Brito de Sousa - 02.05.2020 - 11.59h   (soneto hendecassilábico com dupla rima)    

VERDADE(S) III

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VERDADE(S)III EM (genuíno) SONETO ALEXANDRINO (a da genuinidade) * Tudo pondo em questão, duvido sem parar Da placidez lunar até à suspeição Com que encaro a fissão de teor nuclear, Não vá ela levar o mundo à perdição... * Sou fiel como um cão, mas sou gato a sondar Tudo quanto encontrar espalhado pelo chão; Ignoro a frustração e afasto-a se chegar A mim sem me enlevar, nem me pedir perdão. * Duvido por sistema e não deixo de crer Num versito qualquer que aspire a ser poema Seja qual for o tema a  que se propuser, * Portanto, mal puder, desfaço o tal dilema E não há voz suprema ou espada de aluguer Que me force a ceder se o verso em mim já rema. *     Maria João Brito de Sousa - 29.04.2020 - 13.00h

VERDADE(S) II

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VERDADE(S) II (a da singularidade) *   Creio na insustentável lucidez Do verso acabadinho de eclodir Que noutros se replica, achando vez Pr`acrescentar-se até se despedir. *   Creio no homem que consegue rir E no que chora ao fim de cada mês A fome que está farto de sentir E a raiva que lhe impõe novos porquês. *   Creio na irreverência dos felinos, Na clara transcendência de alguns hinos, Nos amanhãs que um dia cantarão, *   Nas doutas obras e nas comezinhas Coisas do dia-a-dia. Até nas minhas Óbvias fraquezas, que tão fortes são... *     Maria João Brito de Sousa - 28.04.2020 - 16.30h   Imagem retirada  daqui

VERDADE(S)

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VERDADE(S) (a da evolução) * Na verdade guardada a sete-chaves No cofre de uns arcanos poderosos, Não creio, não, que anseio como as aves Por simples vôos livres, silenciosos. *   Na verdade que embarca em grandes naves Movida por segredos tenebrosos, Também não creio, não, que ponho entraves A testemunhos pouco rigorosos. *   Não creio, não, numa única verdade Mas creio em cada espanto que a vontade Desperta em cada homem quando, atento, *   Se permite aceitá-la inda inconclusa, E, assim, creio na fome que, profusa, Do próprio fruto retira alimento. *     Maria João Brito de Sousa - 27.04.2020 - 15.58h  

A DATA-TERMO DAS NOSSAS FACTURAS

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A DATA-TERMO DAS NOSSAS FACTURAS * Não sei se pelos meses vou passando, Se pelo fim do prazo das facturas Que, mês a mês, me impõem ir pagando, Tal qual fazem as outras criaturas * Humanas como eu, que vão gastando Água, energia e gás. E que aventuras, Que ginásticas vamos engendrando, Que milagres pedimos, que figuras * Fazemos quando o prazo está findando E os euros já se foram nas verduras, No arroz e no pão, nada sobrando... * Segunda conta-aviso... e mais tremuras! É iminente o corte, aniquilando De vez, sonhos e nervos. Vidas duras... * Maria João Brito de Sousa - 27.04.2020 - 10.39h      

SONETO SEM TÍTULO

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SONETO SEM TÍTULO ou NAUFRAGANDO, SEM MAREAR * Por que fomes passaste, companheiro Feito de pó de estrelas como eu? Que sede insaciável te bebeu Sonho, sangue e suor do corpo inteiro? * Por que alto mastro ou por que chão rasteiro Passaste a vida que te anoiteceu Enquanto um velho sonho te prendeu À pulsão de ir ao mar sem ter veleiro? * Assim te vejo. Assim me aconteceu, Velho ou menino, casado ou solteiro, Lembrar-te ou inventar-te enquanto réu * De imaginário tribunal costeiro, Entre barcas com velas azul-céu E ondas moldadas em rodas de oleiro. *     Maria João Brito de Sousa - 26.04.2020 - 14.25h     Imagem retirada  daqui

25 DE ABRIL, SEMPRE!

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25 DE ABRIL, SEMPRE! *   Chegou enchendo as ruas da cidade, Pintando cada casa de vermelho, Deixando que um do outro fosse o espelho Que em cada um espelhava a liberdade. * Semeou as sementes de igualdade Nas já cansadas mãos de cada velho E do jovem também, sem um conselho, Que tempo nunca teve, ou mesmo idade. * A todos pertencia e, por igual, De todos foi repasto e comensal Na grande mesa da libertação. * Fomos nós, povo, quem o conquistou E a nós cabe lembrar que, se murchou, Reavivá-lo está na nossa mão! *   Maria João Brito de Sousa -24.04.2020 - 10.30h   Imagem carinhosamente roubada do blog  Relógio de Pêndulo

TERRA

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TERRA *   Era uma rocha bruta, hostil à vida, Soturna de aparência e fervilhante De explosões e da lava borbulhante Que toda a recobria, como ferida. *   Milhões de anos passaram de corrida Pela árida rocha inda expectante, Ainda de estar viva tão distante Quanto de pela vida ser traída.   *   Depois, foi tanto o tempo que passou Bebendo a luz do sol, que germinou Em moléculas simples, toda inteira. *   A evolução foi sábia no que fez Quando aos poucos cobriu, de lés a lés, De vida o que antes foi fogo e poeira.  *   Maria João Brito de Sousa – 22.04.2020 – 17.49h *   Imagem retirada  daqui  

ESTATUETA ANTIGA DE PEQUENO PORTE

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ESTATUETA ANTIGA DE PEQUENO PORTE *   Já fui menina. Tonta de impossíveis, Bebi marés de sal, movi montanhas, Moldei filhos e versos nas entranhas, Fui-me ajustando ao nível dos desníveis. *   Se contada, contei-me entre os passíveis De estranhos serem entre almas estranhas, Se não contada, ousei, como as aranhas, Ir fabricando  teias invisíveis. *   Já fui a voz de todas as crianças. Inspirei belas telas e faianças. Fui de aguarela e de tinta-da-China. *   Cresci, envelheci, fiz frente à morte; Estatueta antiga de pequeno porte, Eis o retrato desta velha ruína. *   Maria João Brito de Sousa – 21.04.2020 – 11.30h  

ENTRE PILHAS DE LOIÇA SUJA

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Leia  aqui  se faz favor

SEDE(S)

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SEDE(S) *     Bem mais depressa morro se desisto De analisar o mundo, o sonho, a vida... E analiso aquilo e, depois, isto Perspectivando a coisa então escolhida. *   É imenso, esse nada que conquisto Através desta sede desmedida Que posso descrever-vos como um misto De espanto e de humildade. Se traída, *   Não sabe como nem por que viver, Murcha, entristece e deixa-se colher Pela grande gadanha, sem protestos. *   Enquanto viva e sempre que puder Tudo analisa, quer é aprender, Mesmo que lhe não sobrem senão restos.   *   Maria João Brito de Sousa – 17.04.2020 – 12.50h   Imagem - "Duas Mulheres Correndo na Praia" - Pablo Picasso

METROS QUADRADOS

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METROS QUADRADOS *     Metros quadrados, poucos, que palmilho No limiar da minha (im)paciência, Formam o palco da minha existência E o berço destes versos que partilho. *   Metros, uns tantos, que amo e que perfilho Como se impostos pela consciência Dessoutra voz sem cor nem consistência Que sussurra e ressoa qual estribilho. *   Nestes metros quadrados me enraízo, Observo o mundo e teço o meu juízo Que sempre deixo aberto a novos dados. *   De pouco, muito pouco mais preciso, Pra vos não dar excessivo prejuízo, Pr`além de uns tantos metros (en)quadrados.   *   Maria João Brito de Sousa – 18.04.2020 – 09.50h

LINDA!!!

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LINDA! *   Linda! Que bem vestida e bem calçada Passava uma menina ali defronte... Um pouco além, na linha de horizonte, Outra passava suja e desgrenhada.   * Coubera-lhe outra sorte e não ter nada, Andar descalça, beber duma fonte E morar na cabana lá do monte Era-lhe igual a ter capa dourada... *   Se era criança, ainda! Era-lhe igual Trincar côdea ou bolacha de água-e-sal E até a dura enxerga era bem vinda *   Quando o sono chegava de mansinho Depois do pão molhado em leite ou vinho Que tivera por ceia. E como é linda!   *     Maria João Brito de Sousa – 17.04.2020 -14.22h  

CORAÇÃO SUBURBANO E REMENDADO

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CORAÇÃO SUBURBANO E REMENDADO *   Coração suburbano e remendado É qual punhado de coisa nenhuma Que perdido entre agulhas de caruma Julgasse que afinal fora encontrado.   * Ao sentir-lhe o pulsar (des)compassado Como o de vaga ao desfazer-se em espuma, Ao mar o lançaria se outra escuna Mo levasse e trouxesse renovado!   * Mas nem o mar me of`rece tal benesse, Nem eu lhe of`recerei o que parece Desafinado, ainda que o não esteja. *   Pulsa enquanto pulsar lhe for possível, O punho ora rebelde, ora sensível, Que me traz presa à vida e que lateja.   *   Maria João Brito de Sousa – 16.04.2020 – 18.00h

VIAGEM POR DENTRO DE UM POEMA

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VIAGEM POR DENTRO DE UM POEMA *   Partiu de si à hora do costume, Sem ter de precaver-se em demasia Já que nesta viagem ficaria A léguas de si mesmo e do cardume. *   De si partiu depois de aceso o lume Da candeia do espanto, antes vazia Duma urgência que agora a consumia, Inda que à pandemia fosse imune. *   Partiu de si por tempo indefinido; Por um minuto ou dois terá partido, Ou talvez fossem dias, meses, anos... *   Partiu! Foi sem destino nem sentido Atrás de um verso em fuga, perseguido Por dogmas, frustrações e desenganos. *     Maria João Brito de Sousa – 16.04.2020 – 10.52h *   Fografia de António Pedro Brito de Sousa, meu pai

NÓS, HUMANOS

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NÓS, HUMANOS *   Cremos em anjos, demónios e santos, Criamos deuses de humanas fachadas, Tememos bruxas, duendes e fadas... E frágeis somos, mesmo sendo tantos! * Vemos mostrengos por detrás dos mantos Das nossas mentes pouco habituadas A questionar-se quando confrontadas Com dogmas pré-impostos por uns quantos. *   Assim somos! Assim nos coube ser Na profusão de vidas a nascer Que povoou este astro todo inteiro. *   O que me cabe a mim senão escolher, Já que negá-lo seria perder, Teimar que isto que afirmo é verdadeiro? *     Maria João Brito de Sousa – 10.04.2020 – 17.38h