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O INTRUSO [perspectivas]

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  Repararam? A portinhola ficou aberta. São os vestígios daquele enorme intruso que todas as manhãs tenta invadir o meu espaço. Nunca consegue... é demasiado grande e desajeitado, mas continua a tentar, invariavelmente. Passa uns tempos naquela azáfama e acaba por deixar-me alimentos e água fresca como se com isso pudesse comprar a minha identidade... pobre intruso. Não é mau de todo, embora seja absurdamente ingénuo. Por vezes esforço-me por entendê-lo. Que razões o levarão a invejar-me? Sigo-lhe, curioso, cada movimento. Observo-o até que o tédio me force a recolher a cabeça sob uma das asas. Confortável, esqueço-o por momentos e mergulho neste oceano cuja nascente começa algures dentro de mim. Nunca é longo, o descanso... logo o intruso arranja forma de se tornar audível. Não sabe estar sozinho e solicita-me continuadamente. Por vezes - quantas vezes - sem paciência, volto a observá-lo. Cá no fundo, enche-se-me o coração de um dó que extravasa as minhas penas e as grades da gaiola. ...

A CONSTRUÇÃO DA SAUDADE

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  Não partas ainda. Fica mais um bocadinho. Um bocadinho apenas, antes de te diluíres nas memórias que me não permitirão a carícia sedosa da tua pelagem riscada de amarelos de Nápoles e de outros amarelos, maduros como folhas de Outono. Nem o exacto som do teu chamamento, o calor que de ti emanava e todas essas pequeninas coisas do dia a dia de que tanto me queixei enquanto os dias eram dias antes de partires. Olha-me ainda. Repara no meu sorriso triste… tu não o sabes, mas é um sorriso de saudade adiada. Uma saudade que começou a nascer no momento em que me apercebi da inevitabilidade da tua partida e que, não tarda, se começará a esfumar na linha de horizonte das recordações. Conheço-a como às palmas das minhas mãos, sei que me será absolutamente necessária, mas não a quero neste preciso momento. Agora quero adiar-te um pouco, pintar-te na tela da alma, escrever-te no livro do Tempo com letras de tinta indelével. Fica um pouco mais... o tempo de saborear bem, de avaliar e conhecer, s...

O CAPÍTULO QUE ME ESQUECI DE LER

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Não, mãe. Não tenho remorsos. Peço imensa desculpa, mas não tenho. Bem... talvez tenha tido daquela vez em que estraguei a mochila velha para que o pai me comprasse aquela linda, linda, que combinava às mil maravilhas com o cheiro das aparas de lápis e a textura do papel Almaço que eu teimava em levar comigo para toda a parte... que idade tinha eu? Quatro, cinco anos? Lembro-me de ter pegado na tesoura, lembro-me daquele apertozinho no coração - talvez lhe chamasses peso na consciência - que senti quando cortei uma das correias. Não foi fácil. As correias eram resistentes e as minhas mãos eram tão pequeninas... mas o que custou mais foi a mentira. - Pai, a mochila velha estragou-se... Vi-o observar serenamente a velha sacola. Ainda hoje não sei se percebeu logo o que se passava, mas penso que sim... agora. Na altura disse-me, calmamente, que iríamos, nessa tarde, comprar uma nova. Fui desenhar para o quarto de brinquedos, mas não estava feliz. Nada feliz. Era estranhíssimo porque me im...

A MULHER INTERROMPIDA

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Não foi assim tão antigamente... Foi há cerca de um tempo Mais duas metades de dois tempos meios. Uma voz amiga, certamente, Embora longínqua, perguntou por mim E eu, tão confusa, não me conhecia... Sou mulher de um homem, Respondia. E a voz insistia: - Mulher, quem és tu? - Sou a mãe de um filho que não mora cá E de três meninas que me querem muito, Apesar da culpa, apesar de tudo... E a voz repetia: - Mulher, quem és tu?   E eu iria jurar que não mentia quando respondia: - Eu sou essa mãe, apesar do luto!   A voz não cedia quando perguntava Do Espaço, do Tempo e outras coordenadas: - Ó mãe dos teus filhos, diz-me quem és tu! Onde moram as tuas horas carnais? Onde guardas o corpo quando sais E voas em busca do filho perdido? Que fazem essas tuas mãos? Que estrelas tão negras trazes no olhar? Que morte tão estranha te veio buscar E esqueceu teu corpo entre os teus irmãos?   E eu respondia Sem me aperceber Que me descrevia sem me conhecer: - Sou a mulher do meu homem E a mãe das minhas ...

UMA MORADA POR DETRÁS DO ESPELHO

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  CONVITE - Entretanto, vamos dançando o tango no   http://www.avspe.eti.br/eventos/eventota ngo/lista.htm     Quase todos os homens têm     Uma morada por detrás de um espelho.   Nem todos se aventuram A pernoitar nela, Mas todos a construíram Com maior ou menor Grau de esforço e consciência.   Quando a tormenta Abala a morada visível, A maioria refugia-se Na casa que o espelho protege Embora Em quase todos os casos O espelho reflicta a própria tormenta…   Noutros, porém, a tormenta Nunca chega a atingir A superfície de quase todos os homens Que se aventuraram a reflectir.      Poema reeditado para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

O APAGÃO - uma visão contra

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  N ão. A maioria das pessoas não entendia – nem podia entender – as verdadeiras consequências de um “apagão” energético. Ele, ali, na UCI do hospital, rodeado por convalescentes temporariamente monitorizados, lembrou-se de se lembrar daquilo… depois deu azo a que o momento se espraiasse por toda a sala e deu-lhe uma continuidade lógica. Este, este e este morreriam, sem sombra de dúvida. Claro que havia o gerador de emergência, mas esse funcionaria durante um curto período, devido à sobrecarga, e acabaria, também por se “apagar”. Contudo era evidente que a esmagadora maioria se rendia à hipótese revivalista de ficarmos sentados à lareira… conversas mais íntimas, mão na mão, jogos de cartas à luz das velas, famílias que haviam deixado de o ser, refeitas de um dia para o outro, num passe de magia… talvez fosse melhor pensar assim. Logo a ele lhe ocorrera prognosticar, naquela noite, o que realmente se passaria com aqueles seus doent...

DIA DE S. NUNCA À TARDE

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    E se a nuvem que passa não passasse? Se a chuva não parasse de cair, Se o vento não cessasse de zunir E o sol nunca mais te iluminasse?   Se mais nenhum poeta “poetasse”, Se o mundo se esquecesse de sorrir E mais nenhum de nós quisesse abrir Os braços para alguém que a nós se abrace?   Ah! Homens sem sorriso ou poesia São sucedâneos de homens, não são gente! São pavio de uma vela que não arde!   Não seria, então, mundo o que haveria, Nem a vida seria omnipresente! Seria um dia de… S. Nunca à tarde!   IMAGEM RETIRADA DA INTERNET      A caminho de http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

UM SINAL COR-DE-BURRO-QUANDO-FOGE

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Atravessou com o sinal vermelho. Tinha adquirido aquele perigoso hábito nos tempos em que, ainda jovem, alguém se lembrara de trocar o polícia sinaleiro por aquele mastro inestético, insensível. Era um tempo em que cada segundo era precioso e picar o ponto antes do ponteiro dos segundos cruzar a linha vertical era bem mais imperativo do que obedecer a um sinal. Fosse de que cor fosse. Mil vezes o haviam alertado. Mil vezes prometera tentar habituar-se. Primeiro com alguma convicção, depois com o automático: - Sim,sim… , de quem tem pressa em livrar-se de um assunto a que não dá a menor importância. Naquele dia, em nada diferente dos anteriores, o sinal manteve-se invisível, se não aos seus olhos, pelo menos ao cérebro que tão refractário se mostrava em automatizar uma ordem dada por um poste cor-de-burro-quando-foge que, incomodativo, se erguia na perpendicular do plano da calçada…   Foi exactamente por isso que nesse dia, em coisa nenhuma diferente de todos os outros, qua...

ÀS SEGUNDAS FEIRAS

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      Lembras-te ainda? Era às segundas feiras Que este mundo girava em teu redor, Que uma nova semana, abrindo em flor, Prometia alegrias e canseiras…   Eram novos degraus de horas primeiras, Era o recomeçar de um corredor… Ao longe outros degraus ganhando a cor Indistinta das coisas derradeiras…   Só à segunda feira esse começo Era real, sensível, pertinente, Invariavelmente desejado…   Ainda hoje assumo e reconheço Que é difícil esquecer, ser-lhe indiferente, Vivê-la e, sem notar, passar-lhe ao lado…     Escrito para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/   IMAGEM RETIRADA - com um enorme sorriso - DA INTERNET...

QUERES SABER UMA COISA?

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- Vou contar-te uma coisa! Esta partilha Daquilo que em nós vamos descobrindo, É o que, em nós, existe de mais lindo! Mais do que aprenderemos na Cartilha!   - Um segredo que é nosso? Eu quero ouvi-lo! Quero ir além de mim, saber bem mais, Entendê-lo, guardá-lo entre os demais Para multiplicá-lo e dividi-lo!   - É esta coisa nova e tão dif`rente Das coisas que nos passam pelos dedos, Do que vamos tocando e toca em nós…   - Também tu descobriste, finalmente, O som que se modula em mil segredos Que é a livre expressão da nossa voz!     Poetado para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/   :)

CONTO DE FADAS I e II

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    Neste Conto de Fadas, divertido, Fugindo dos enredos costumeiros, Os tesouros são ramos de pinheiros E o Príncipe Encantado é um... bandido!   Não há vestidos longos, vaporosos, Nem sapatinhos "sexi", de cristal... Só a Fada Madrinha é mais normal E gosta de ficar entre os bondosos.   Aconteceu há muitos, muitos anos, Mas foi como se fosse agora mesmo Que a Princesa tivesse desmaiado   E os ramos de pinheiro, quais abanos, Sacudiram-na tanto e tão a esmo Que afastaram o Príncipe Encantado...     II   Surge a Fada Madrinha, convencida De que a pobre Princesa era infeliz E dá-lhe um piparote no nariz Deixando a pobrezinha adormecida...   Logo os pinheiros vêm, de mansinho, Explicar à Fada bem intencionada Que, muito embora boa, estava errada, E a Princesa só queria era carinho...   Então cumpre-se o tal sereno encanto E a Princesa-Poeta acorda então No verde pinheiral, entre cadernos!   Na mão, o lápis que ela queria tanto... Ficamos todos em contemplação, Sentindo que, afi...

O CÃOZINHO QUE NASCEU COM AS PATAS BRANCAS

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Era uma vez... era uma vez uma mulher que queria escrever uma história para a Fábrica de Histórias e não sabia ficcionar... Chegara recentemente a essa conclusão e sentira-se um tanto ou quanto diminuída por isso. Era simples, a mulher, mas tinha o seu orgulhozinho e tamanha lacuna parecia-lhe estranhíssima. Tanto mais que ainda se recordava de ter ficcionado uma ou outra historieta para as filhas, em tempos que, há muito, já lá iam. Caramba! De uma ficçãozita todos somos capazes! - Invectivou-se, como se aquilo lhe puxasse pelos cordelinhos da imaginação e pusesse a emperrada maquineta da memória a funcionar. Nada. Nem uma palavrinha para além do "Era uma vez"... só sentia. Ah! Sentir, sentia! Sentia, nesse dia, uma particular gratidão por alguém que a ajudara a salvar a vida  -   ainda débil, ainda "tem-te, não-caias!" -  da gatinha que a mãe lhe trouxera para casa há sete anos atrás. Por isso e porque "sentir" sempre fora a sua especialidade, a mulher d...

"MUDAR O MUNDO" na FÁBRICA DE HISTORIAS

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  Nesta história de "Mudar o Mundo", a grande diferença está na forma de abordar a questão. Quando eu era muito jovem, acreditava que podia mudar o mundo. Hoje, já com cabelos brancos, olho para trás e sorrio... e tenho a certeza de que nunca me restou alternativa. Nem a mim, nem a ninguém... Todos nós, pelo simples facto de existirmos, vamos mudando o mundo, segundo a segundo. Claro que somos livres de mudá-lo da melhor ou da pior maneira possível. É aí, e apenas aí, que, no meu entender, reside o livre-arbítrio. Por isso, hoje vos remeto para um texto que publiquei em Março, no poetaporkedeusker  e que irá, direitinho, para a FÁBRICA DE HISTÓRIAS   Deixo-vos um link para esse texto e outro para a Fábrica de Histórias e - porque não? - um convite para escreverem também.   http://poetaporkedeusker.blogs.sapo.pt/35088.html   http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/   O texto será, posteriormente, publicado na Fábrica. Vão até lá e descubram como se vai mudando o mundo no dia a...