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A mostrar mensagens de junho, 2020

GALOPE

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GALOPE * (Soneto em verso alexandrino) *   Nem sempre é transparente o verso em que me embalo E nem sempre vos falo assim tão claramente, Que a força da corrente é tanta que me calo E só no intervalo oiço o que tinha em mente. * O poema é prepotente, exalta-se e, num estalo, Açula-me o cavalo em que cavalgo sempre Que o verso emerge urgente, abrindo-se num halo De assombro, ainda ralo, ainda incoerente, * Ainda tão somente em vias de pensar E até de se explicar, arfante e tão espantado Que nem concebe errado expor-se a galopar * Sem antes descansar, sem mesmo ter parado, Sem sequer ter-se olhado: as ventas a soprar E esse sopro a deixar o poema embaciado. *   Maria João Brito de Sousa - 30.06.2020 - 14.28h * Imagem retirada  daqui    

O ESTRANHO CASO DO DESCONHECIDO QUE VEIO MORRER NO MEU SONHO

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O ESTRANHO CASO DO DESCONHECIDO QUE VEIO MORRER NO MEU SONHO * * Deitou-se nos meus braços naufragados, Esboçou um gesto e sem mais reacção Morreu-me neles, de dentes cerrados Feito um fardo de carne, um peso vão, * Os olhos inda abertos, encovados Nas órbitas de um rosto em convulsão E os cabelos àsperos, suados, Roçando a minha naufragada mão. * Quem era? Quem não era? Não sabia E o cadáver não mais responderia Por muito que eu ainda perguntasse * Porque é que no meu sonho falecia Sem se dignar explicar por que o fazia E sem sequer esperar que eu acordasse. *   Maria João Brito de Sousa - 27.06.2020 - 19.09h

EM ESTADO BRUTO

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EM ESTADO BRUTO * Do sumo doce do mais doce fruto Sacio a minha (in)saciável sede No som que, silabado, se sucede Ao sussurrado som que agora escuto. * Mas se um verso me surge irado, hirsuto, Soprando fúrias que mais ninguém mede, Deixá-lo-ei rugir como me pede, Que às vezes solto o verso em estado bruto. * Nem sempre a razão tem supremacia Sobre esta compulsão que o verso cria Quando me guia nessa direcção * E verga-se a razão dando passagem Ao verso que transborda e galga a margem De todas as razões que há na razão. * Maria João Brito de Sousa - 27.06.2020 - 15.04h

CENÁRIO(S)

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CREIO III

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CREIO III *   Creio na paz, duríssima conquista Do oprimido sobre o opressor, Creio na utopia que se avista No horizonte seja de quem for *   Creio no sonho de cada alquimista Desde que tenha mãos de produtor E creio em cada humano que resista A ser comprado por qualquer valor. *   Creio nos ventos que espalham sementes, Creio nos crentes, creio nos não crentes E creio, sobretudo, nos que entendem *   Que tem de haver justiça para as gentes Que erguem os punhos, que cerram os dentes, Mas não desistem e nunca se rendem. *   Maria João Brito de Sousa - 27.06.2020 - 10.50h

CREIO II

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CREIO II * Creio nas ervas bravas, quando amargas, Creio nas águas doces e salgadas, Creio nas belas aves de asas largas, Creio em florestas verdes de mãos dadas, * Creio nas grandes e pequenas cargas Das nossas vidas sendo levantadas Por nossas próprias mãos quando às ilhargas Transportamos as crias ensonadas. * Creio nos gestos de boa vontade, Na transitoriedade da verdade, Nas lágrimas de dor ou de alegria, * E nas ondas que o mar desfaz em espuma Pra tecer brancas rendas que, uma a uma, Se tornam espelho e voz da poesia. *   Maria João Brito de Sousa - 25.06.2020 - 13.20h

CREIO NO PÃO

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CREIO NO PÃO * Pode o diabo ter-me até estendido O pão amanhecido que mordeu Mas, quanto ao resto, ter-vos-á mentido Pois quem o amassou fui eu, só eu! * Se o diabo ficar aborrecido Por ver-se despojado de um troféu, Viro-lhe as costas, vou noutro sentido E amasso um pão que seja mesmo meu. * A massa deste pão, quão mais cozia Mais dourava, crescia e rescendia Às ervas bravas da planura mansa. * Nenhum demo este pão cobiçaria Porque leveda nele a poesia De alguém que em tempos idos foi criança. *     Maria João Brito de Sousa - 25.06.2020 - 21.00h

ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE

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SINA DE SIBILANTE

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*** SINA DE SIBILANTE * (a António Giacomo Stradivari) * A sílaba sustém-se (as)silabada, Silente ou simplesmente sussurrante, Ciente da ciência soluçante, Suavíssima, secreta, (en)simesmada. * Submete-se à sessão silenciada; Subtil solfejo de aço, sibilante, Subverte a situação, insinuante, Supinamente só, sobressaltada; * Solta silvos, (a)ssusta, serpenteia, (A)ssume a suave essência da sereia, Semeia, sábia, a sã sabedoria, * Suprime ou sobrestima a suspensão, Sofre os silêncios, sofre a submissão... Subitamente explode em sinfonia! *   Maria João Brito de Sousa - 24.06.2020 - 10.30h

ESPIRAL

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BARCA, A BELA

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ACORDEI

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ACORDEI * "Tive pena, muita pena por ser dia" E saber irreal quanto sonhara Naquele instante-quase-alegoria Dum ideal que sempre me guiara. *   Acordei tarde e cedo entenderia As razões da tristeza em que acordara Num mundo que eu pintara de alegria E que em tragédias mil se me depara. *   Em sonhos o criara e já perdia Esse ideal de mundo, essência rara Que em sonho e só em sonho existiria Já que a realidade é sempre avara *   E não nos dá sequer a garantia De a madrugada vir a nascer clara Depois da tempestade e da avaria Ou dos ventos que varrem a antepara *   Da barca deste mundo. Que ousadia Sonhar o que sonhei! Isto não pára, Que os loucos de um poder que eu mal sabia Vão reabrindo a f`rida que não sara! *   Maria João Brito de Sousa - 21.06.2020 - 14.20h * Poema inspirado no último verso do poema "SONHEI..." de Joaquim Sustelo

EM TONS DE BOLERO

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BOM DIA/BOA NOITE

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BOM DIA/BOA NOITE ** (soneto em verso alexandrino) *   Bom dia! Hoje inauguro um dia por nascer E enquanto dia houver, as horas não descuro; Se achar no que procuro o que mais ninguém quer, Farei quanto puder! Depois, à noite, o escuro * Embala-me inseguro até me adormecer E um novo amanhecer ressurge urgente e puro Do céu cinzento, obscuro, em que o vou receber Enquanto em mim bater um coração perjuro. * Boa noite, que agora o sono vai chegando E a luz vai começando a desenhar lá fora Uma aura tentadora à sonolência em que ando. * A visão escasseando algo perturbadora Passa a dominadora e acena em gesto brando; Boa noite, até quando acontecer a aurora! *     Maria João Brito de Sousa - 18.06.2020 - 20.26h

A QUEM SOUBER OUVIR O (EN)CANTO DOS PARDAIS

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A QUEM SOUBER OUVIR O (EN)CANTO DOS PARDAIS * (Em verso alexandrino) * Aos mortos nos covais e aos que estão por vir, Aos que estão a dormir, aos que nem dormem mais, Aos troncos verticais dos cravos a florir E a quem souber ouvir o (en)canto dos pardais, * Aos rios nos seus caudais, aos montes por subir, Às pedras por esculpir, aos mestres geniais, Às infracções verbais, aos versos por escandir E à morte que há-de vir porque somos mortais; *   O poema é uma aventura incerta e fascinante Que ninguém nos garante, infinda descoberta, Quase uma frincha aberta ao gesto vacilante *   Do que ainda hesitante abre quanto o liberta Porque a frincha desperta o que o levara avante Naquele exacto instante em que ele a dá por certa. *   Maria João Brito de Sousa - 17.06.2020 - 12.31h  

PENDE DE CADA ANZOL UM PEIXE VIRTUAL

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PENDE DE CADA ANZOL UM PEIXE VIRTUAL * (Em verso alexandrino) * Amo o azul do mar, o verde da planura E quanto da lonjura alcança o meu olhar... Serei escrava de um lar que no mar se procura Enquanto esta loucura assim me subjugar *   E, sem me rebelar, nem fraca, nem perjura, Ainda que imatura aceito este invulgar Destino de varar um mar que só me augura Os ventos da ventura em que hei-de naufragar. *   Ao longe, pedra e cal, brilha um velho farol, Branco como um lençol todo tecido em sal E se me saio mal porque um raio de sol *   Derrete e faz num fole esta rota ideal, Há colisão real dos estros sem controle; Pende, de cada anzol, um peixe virtual. *   Maria João Brito de Sousa - 15.06.2020 - 16.09h   Gravura de Pieter Bruegel retirada  daqui  

O IMORTAL SONETO

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O IMORTAL SONETO * (Em verso alexandrino) *   Abre-se em leque extenso, amplia-se e seduz Como raio de luz em nevoeiro denso... Por vezes surge tenso e em fogo se traduz, Mas é um ai-Jesus que queima como incenso. *   Nunca haverá consenso entre quem lhe faz jus, Mas ninguém o reduz pois faz jus ao bom senso E quando um ódio intenso o quer levar à cruz, Levanta-se e reluz, mostra-se infindo, imenso! *   Ou suscita paixões ou raivas e desprezo, Mas lá renasce ileso imune às agressões E prenhe de ilusões, ainda vivo, aceso! *   Tem forma e não está preso às velhas convenções, Resiste às tentações, sustenta-lhes o peso; Sabe bem quanto o prezo e, a mim, dá-me lições... *     Maria João Brito de Sousa - 15.06.2020 - 15.23h        

SE ME FOR DADO CRER

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SE ME FOR DADO CRER * (Soneto em verso alexandrino) * Se me for dado crer, que seja assim que creia; Que a dor que me cerceia esta ânsia de viver Me não deite a perder o fio de cada ideia, Que me não falte à ceia o pão para comer, * E que enquanto viver, embora gasta e feia, Castelos sobre a areia alcance ainda erguer Onde me recolher a cada maré cheia Do mar quando se alteia em vagas, a crescer. * Caso assim possa ser, que quanto me rodeia Me seduz e me enleia enquanto eu cá estiver, Não pare de acender a luz que me norteia * E que não seque a veia, a tal que ousou tecer No tear do dever, a rubra, imensa teia Que no meu estro ondeia enquanto escolha houver. * Maria João Brito de Sousa - 14.06.2020 - 19.42h   Imagem - A Jovem Tecelã - Marina Colaseti retirada  daqui  

GARANTO QUE CRESCI

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GARANTO QUE CRESCI   (Soneto em verso alexandrino) *   Perdidamente amei, perdidamente cri Naquilo que perdi do tanto que encontrei E evoco o que não sei se vi ou se não vi Até que encontre aqui quanto aqui procurei. *   Tentando honrar a lei que não reconheci, Jamais lhe resisti, jamais a confrontei, Mas se pouco lhe dei, bem menos lhe pedi E se acaso menti, a mim me castiguei. * Amo o chão que pisei, a terra onde nasci, A chama em que aqueci os sonhos que engendrei E as cerdas que entrancei nas cordas que teci. * Dos versos que escandi às telas que pintei, Do quanto gargalhei às mágoas que engoli, Garanto que cresci... e juro que gostei! *   Maria João Brito de Sousa – 13.06.2020 – 17.39h    

ESTRANHAS VOLTAS DA VIDA

ESTRANHAS VOLTAS DA VIDA *   (Soneto em verso alexandrino) * "E entardeço na luz que me vem do carinho" Desmaio sob o sol erguendo-me a seguir, Cubro os passos que dei de mel e rosmaninho E expando-me depois, mas sem de mim sair. * Sempre que um passo dou, desconstruo o caminho Mas dou um passo atrás para o reconstruir Que isto de ser-se só, de se escrever sozinho Ganha pernas pr`andar se se souber fruir. * Entre uma volta e outra há passos não perdidos Enquanto os dias são contados ou medidos Até que finde o tempo o espaço a caminhada. * Vai sendo muito longa a minha curta estrada Por três vezes cortada em todos os sentidos; Pra retomá-la dei três passos revertidos. *   Maria João Brito de Sousa - 12.06.2020 - 11.59h   NOTA - Soneto criado a partir de um verso alexandrino de MEA (Maria da Encarnação Alexandre)   Foi-me impossível fazer download de imagem

DIÁLOGO EM CATORZE SONETOS ALEXANDRINOS - 2ª parte

    7   “Que nunca digam “não!” a tudo o que é diferente”;   Há coisas que nem eu sobre mim sei explicar,   Mas tento e tentarei fazê-lo lentamente   Já que assim, a correr, não posso lá chegar. *   Se não adormecer, estarei sempre à tangente   De um sono insano, intenso a  fazer-me pesar   As pálpebras que abri muito esforçadamente   E que não deixarei que Morfeu vá cerrar!   *   Já vos menti, porém; Morfeu sempre venceu   Sem se esforçar sequer, nos sonhos me prendeu   À revelia desta inútil força minha... *   E só quando assim quis e bem o entendeu   Me soltou, desprendeu... venceste-me, Morfeu...   Sei que não foste meu, mas vê; não estou sozinha! *   Maria João Brito de Sousa – 08.06.2020 – 21.07 h *   ** 8     "Sei que não foste meu; mas vê! não estou sozinha!" É sempre assim. Não estranhes o que digo: pensei que era aventura, que à alma se avizinha, quando perco o sentido para aquilo que prossigo. *   Tu e eu. Teu e meu. Pequeno e grande mundo de palavras cruzadas a es...