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A mostrar mensagens de janeiro, 2010

UM SINAL COR-DE-BURRO-QUANDO-FOGE

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Atravessou com o sinal vermelho. Tinha adquirido aquele perigoso hábito nos tempos em que, ainda jovem, alguém se lembrara de trocar o polícia sinaleiro por aquele mastro inestético, insensível. Era um tempo em que cada segundo era precioso e picar o ponto antes do ponteiro dos segundos cruzar a linha vertical era bem mais imperativo do que obedecer a um sinal. Fosse de que cor fosse. Mil vezes o haviam alertado. Mil vezes prometera tentar habituar-se. Primeiro com alguma convicção, depois com o automático: - Sim,sim… , de quem tem pressa em livrar-se de um assunto a que não dá a menor importância. Naquele dia, em nada diferente dos anteriores, o sinal manteve-se invisível, se não aos seus olhos, pelo menos ao cérebro que tão refractário se mostrava em automatizar uma ordem dada por um poste cor-de-burro-quando-foge que, incomodativo, se erguia na perpendicular do plano da calçada…   Foi exactamente por isso que nesse dia, em coisa nenhuma diferente de todos os outros, qua...

NÓS, O TALENTO E A ARTE

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  O que é que, a nós, nos torna originais? Que fizemos… ou não? Como irá ser? Pretéritos de nós, a acontecer Em recorrentes ecos pontuais…   Nós, lógicos, falantes animais, Perguntando-nos sempre e sem saber O muito qu`inda está por entender E querendo saber mais. Cada vez mais.   Talento? Pode haver, pode exprimir-se Num mundo com fronteiras demarcadas Por dogmas, venham lá de onde vierem…   A Arte apenas pode pressentir-se Quando as muralhas forem derrubadas, Quando as algemas d`alma se romperem!     IMAGEM RETIRADA DA INTERNET (Pormenor de tela de Pablo Picasso na sua fase de "Cubismo Analítico")

O SAL À FLOR DA PELE II

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                                                                                                                                                  Depois, no céu azul de um qualquer dia, Congelado o momento de um sentir Na tela imaculada do porvir, Que resto de mim mesma sobraria?   Que sonho marcaria o rumo, o passo, Deste ser como sou – não como devo… – Em que assim me analiso e me descrevo Na serena amplitude do meu traço?   E, se assim me é real tanta ilusão, Realmente iludida, eu sou quem sou E o mundo é comigo e eu sou nele…   Não quero prescindir da decisão! Se nem sequer souber por onde vou, Restar-me-á o sal à flor da pele!       IMAGEM RETIRADA DA INTERNET

O SAL À FLOR DA PELE

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O SAL À FLOR DA PELE * Canto, na praia, o sal à flor da pele, O vento encruzilhado em descaminhos, O salto de acrobáticos golfinhos   E tudo o que esse sal em mim revele.  *   Canto o tal por de sol com que sonhei, Abrangente, ideal, tingindo tudo Da sua cor, do seu lamento mudo, Dessoutra luz com que o então verei *   Canto só por cantar, como outros tantos, Honro o sal do meu mar tecendo mantos Sobre a noite da vida ao por-de-mim, *   Mas só o sal tempera a minha voz Embora enxergue ainda esse albatroz Que há-de voar comigo até ao fim. *    Maria joão Brito de Sousa - 26.01.2010

O PREÇO DA FRAGILIDADE

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          Não sei o que se passa e já não escrevo Como `inda ontem escrevia, sem notar, Como se me bastasse respirar E nada perturbasse o meu sossego...   Começo a não saber se posso e devo Escrever como escrevia; a viajar Por dentro de mim mesma e, se calhar, Sem as coordenadas desse enlevo...   Não mais me basta cama e mesa farta, Palavras - das que usamos numa carta... -, O sustento do corpo e pouco mais,   Pois se morrer mais cedo for o preço Da minha identidade... eu mais não peço! Menos terei morrido que os demais...     Maria João Brito de Sousa - 25.01.2010 - 11.16h     IMAGEM RETIRADA DA INTERNET

ÀS SEGUNDAS FEIRAS

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      Lembras-te ainda? Era às segundas feiras Que este mundo girava em teu redor, Que uma nova semana, abrindo em flor, Prometia alegrias e canseiras…   Eram novos degraus de horas primeiras, Era o recomeçar de um corredor… Ao longe outros degraus ganhando a cor Indistinta das coisas derradeiras…   Só à segunda feira esse começo Era real, sensível, pertinente, Invariavelmente desejado…   Ainda hoje assumo e reconheço Que é difícil esquecer, ser-lhe indiferente, Vivê-la e, sem notar, passar-lhe ao lado…     Escrito para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/   IMAGEM RETIRADA - com um enorme sorriso - DA INTERNET...

POETAS COMO ÁRVORES

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  Poetas são como árvores de fruto Que trazem seiva-sangue em suas veias E crescem num pomar onde as ideias Entoam mil canções de sonho... ou luto   E são também palavras por nascer No prenúncio do verbo aberto em flor Que sobressai no tronco ao dar-lhe a cor E acaba por estender-se a todo o ser...   Poetas com raízes verticais, Com ramos de vontade e persistência Reforçando a versão de obra imprevista,   Brotam por toda parte, ornamentais, E criam, sem parar, numa impudência Que, às vezes, nos fascina e nos conquista…     Maria João Brito de Sousa - 21.01.2010 - 14.12h        IMAGEM RETIRADA DA INTERNET  

O ARTIGO DE PRIMEIRA PÁGINA

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    Eu hoje trago imensas novidades! Notícias bem fresquinhas, a saltar, Coisas de que ninguém vai duvidar, Sobre as limitações das liberdades!   Trago coisas secretas, que não sabes, Mas das quais tu vais querer ouvir falar E se eu, agora mesmo, as publicar, Não farei mais do que falar verdades…   Mas… pensando melhor, antes me calo! Pode alguém não gostar do que aqui falo, Pode alguém ofender-se e contestar…   Afinal… eram só opiniões! Nada de escandaleiras ou traições Nem tragédias, sequer, pr`a vos contar…       IMAGEM RETIRADA DA INTERNET  - Ardina de Lisboa      

SÁBADO, DOMINGO E... TERÇA-FEIRA

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  A EMANCIPAÇÃO DA NARRATIVA     Que estranhas provações eu já provei… Um qualquer astro que se chegue a mim Perguntará se já fui feita assim Ou se acaso aprendi, me transformei…   Aquela que vos conta o que passei Não é, como pensais, capaz de um “sim” Sem ant` estrebuchar até ao fim Nessas muralhas de aço que eu lhe dei…   Se um narrador diz “eu”, nem sempre o “eu” Se refere, afinal, ao narrador… Como vós bem sabeis, sempre assim foi!   Por isso Ela é, tão só, quem concebeu A minha própria essência, esse valor Que tanto nos faz rir como nos dói…    O PAPEL PRINCIPAL       Amou desse amor louco, inexplicável, Sem fundamento, sem sentido até… Perdeu-se do seu rumo – a sua fé –, Tornou-se muito pouco razoável.   Fez questão de partir sem ter chegado; Fez questão de encontrar-se antes de si… Estava nesse ir e vir quando eu o vi, Correndo entre futuros… no passado.   O “Louco...

O RESTO DO POEMA...

O VERSO FINAL * Não recorda o que fez. O que não fez Foi escrito noutras horas de outros dias E perdeu-se nas vãs filosofias De um tempo em que vivia de porquês... * De mais nada se lembra... Só, talvez, Das desoras remotas e tardias, Em que o moviam estranhas ousadias E, em vez de um dia, projectava um mês   Partirá sem saber. Esse é, decerto, O fruto que plantou no tal deserto Em que o seu dia a dia se tornou * Na perspectiva holística do ser, Decerto se lembrou de o não esquecer, Mas do verso final... não se lembrou. * Mª João Brito de Sousa Janeiro 2010 ***    

UM RELÓGIO QUE GRITA EM PORT AU PRINCE

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  Ontem sorri, mas hoje não consigo… Tanta gente sem tecto ou alimento, Tão grande, tão enorme o sofrimento De quem vive em terror, sem ter abrigo…   Ontem sorri, ainda descuidada Dos que sofriam num terror sem fim… Hoje, só de o tentar, descubro em mim O medo dessa gente soterrada.   Hoje nem sei chorar. Que inútil sou! Num corpo de que a vida se apartou, Um relógio, marcando ainda as horas,   Mostra as vidas perdidas num relance… Um relógio que grita, em Port au Prince: - É preciso actuar sem mais demoras!     IMAGEM DE TELA DE SALVADOR DALI RETIRADA DA INTERNET

A GAVETA DOS ACASOS

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      Todos deveriam ter uma, pensou ao abrir a gaveta superior da secretária. As nuvens, lá fora, não haviam meio de decidir-se. Invadiam o espaço exterior como rainhas absolutas da tarde. Ameaçavam mesmo invadir-lhe o quarto, pousar sobre ela, asfixiar a criatividade que de si emanava. E por ali pareciam estar apostadas em manter-se, tiranas, gordas, pasmas. - Antes chovesse…, murmurou enquanto retirava as primeiras folhas de papel descuidadamente arrumadas na “gaveta dos acasos”. Amontoava-as, agora, sobre uma cadeira, em gestos rápidos e mecânicos, uma parte de si concentrada na tarefa, a outra lá por fora, onde os cúmulos cinzentos se indecidiam sobre a sua vocação tempestuosa. Mas nada parecia fazer sentido naquela tarde de chumbo e a arrumação nunca fora um dos seus melhores trunfos.   Um pedacito de papel amarelecido chamou-lhe, subitamente, a atenção. Apenas o vislumbrara entre montanhas de papel mais recente, encarquilhado nas pontas, prometendo memórias que dissipariam as nu...

ESSAS PEDRAS QUE SEMPRE AMEI...

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      Eu sempre amei, nas pedras da calçada, As mil ervas-moirinhas que despontam, Que sobem para o alto e nos apontam A força de uma vida que é negada…   Pr`a mim, que sou fiel à minha estrada, Essas pequenas vidas que não contam São émulos perfeitos que remontam À génese de mim, já condenada…   As pedras que eu amei, as que aqui piso, Que me rasgam na face este sorriso, Com as quais desde já me identifico,   São coisas quase vivas, quase minhas, Das quais nascem as tais ervas-moirinhas De que eu, sendo quem sou, jamais abdico!     IMAGEM RETIRADA DA INTERNET  

NÃO DESISTIR...

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      Se agora eu, deslumbrada, me extasio E se agradeço a Deus tão estranha fé, Depois, quando subir outra maré, Quem virá preencher-me este vazio?   Que bendita alegria irá nascer? Que dor, que desespero irá, de novo, Levar-me à desistência, que reprovo, De um caminho acabado de escolher?   Só sei que há-de sobrar-me este infinito De todos os poemas por criar, De todas as palavras por sentir   E sei que tudo aquilo em que acredito Irá permanecer, irá ficar Por cá, porque eu não hei-de desistir!     IMAGEM RETIRADA DA INTERNET

SÁBADO, DOMINGO E SEGUNDA FEIRA IV

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    A FERRAMENTA   Se eu cresci a saber que duvidar É a mais produtiva ferramenta - embora dê trabalho e seja lenta… - Porque me falas tu de acreditar   Como se fosse a forma de criar Que tudo vai gerar, tudo sustenta? A dúvida é um bem que me acalenta E me ensinou as artes de voar.   Sem dúvida que a dúvida é, por vezes, O ponto de partida de uma fuga, Mas fabrica, pra nós, sabedoria.   Duvidei tanto, ao longo destes meses, Que vi acrescentada, ruga a ruga, A lavra do que eu não compreendia.       Maria João Brito de Sousa - Janeiro 2010     ONÍRICO   Sereias, verdes ilhas, longos arcos Numa paisagem onírica, tão calma Que nos vai refrescando corpo e alma Onde, antes, os modelos eram parcos.   Oníricas divisas, quais medalhas Dessoutra metafísica palpável Que, muitas vezes, pode ser viável No mundo do real, ali, “ao calhas”…   Naquelas verdes ilhas que sonhei, Que química indizível partilhei Com aquilo que existe e me rodeia?   Talvez, em vez de química, “alquimia”, Que o sonho traz-m...

O LOBO

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              Eu sou o lobo e, às vezes, não sou manso… Assim me fez o Deus que me criou E que, dentro de mim, adivinhou A estranha ambivalência em que balanço.   Sobrevivente, eu chego aonde alcanço Tentando preservar tudo o que sou Com esta força astuta que mostrou Saber permanecer sem ter descanso…   Não ouseis condenar-me! Vós, Humanos, Que destruís bem mais do que eu destruo, Que caçais por prazer, não pela Vida,   Reparai, em vez disso, os muitos danos Que fazeis neste mundo! Este recuo Em que lançais a Terra Prometida!   NOTA BREVE - Eu sei que ainda é cedo, que muitos ainda estarão a começar a aperceber-se de que estamos num novo ano de uma nova década, que todos temos tendência a protelar o que temos para fazer - somos uns tremendos procrastinadores, não é? - , mas dei comigo a pensar que o http://poesiaemrede.no.sapo.pt/ tinha poucos poemas e, o que é bem pior, estava com muito poucas visitas... vai daí, inchada e tudo, com dor de maxilar e tudo, meteu-se-me na ...