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A mostrar mensagens de setembro, 2010

CANTO DE UMA ANTIQUÍSSIMA MEMÓRIA

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    Lembras-te dos caboclos, já cansados, Enchendo a escadaria de queixumes? Dos carregos dos móveis, mal atados, De arestas afiadas como gumes?     E lembras-te de mim que, aos castigados, Enchia de perdões, dando perfumes? A pena que eu senti dos desgraçados A quem tu foste impondo os teus costumes…     Lembras-te do escritório, dos teus quadros, Da enorme cozinha onde as mulatas Preparavam segredos culinários     E cantavam baixinho aos seus amados? Lembras-te do brilhar das velhas pratas Por cima da janela e dos armários?         Maria João Brito de Sousa     Imagem retirada da internet     "Le philosophe, lorsqu`il n`a pas de motif pour juger, sait rester indeterminé"   DIDEROT

A CADA FARINHA, SUA SACA

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    “Não tentes comandar-me. Eu vou sozinha!” Entendo-te a surpresa; não conheces O exacto teor das minhas preces Nem aceitas que a escolha seja minha… Põe sempre em cada saca uma farinha Senão, mais valeria que as perdesses Ou que as não cozinhasses nem comesses Porque a mistura é sempre uma adivinha; Quase nunca uma espiga dá um grão Que seja exactamente igual a outro, Pois mesmo sendo grãos de um mesmo trigo, Pode um servir pr`a bolo, outro pr`a pão… Não queiras misturar pois, se és tão douto, Decerto o teu estará bem dividido…     Maria João Brito de Sousa       "Materialisme et spiritualisme sont les deux pôles de cette même absurdité qui consiste à croire que nos pouvons savoir ce que c`est la matière ou que l`esprit."   Huxley

O NASCIMENTO DA NORMA

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  Escreve-me uma cartinha pessoal - meia dúzia de linhas bastarão - E eu talvez te escreva uma outra igual, Ou talvez, afinal, nem escreva, não.     Possivelmente irás levar-me a mal, Mas, quase nunca tenho um só tostão E  a essa situação, por ser,  normal Não lhe presto, sequer, muita atenção,     Mas quero que, no fim, te identifiques E, sabendo que eu sou muito esquecida, Te tornes mais preciso e que me indiques     Referências de espaço, tempo e forma, Ou nem respoderei, por estar perdida E porque a recorrência gera a norma...       Maria João Brito de Sousa- 28.09.2010

SÁBADO, DOMINGO E SEGUNDA FEIRA XIX

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    FICCIONANDO     Eu amo a Poesia e a Verdade E o meu pior pecado é não mentir… Ficcionar? Tudo bem, se permitir Que a ficção venha a ser realidade.     Se ficcionando  alcanço a liberdade - tanto quanto eu a posso pressentir... – Já dela não me quero redimir, Nem dela me afastar pela vontade.     Veloz, a poesia, me precede E seguindo atrás dela nunca hesito Em chegar onde alcança um simples verso;     Uma mesma vontade nos concede Tentar ir `inda além do infinito E vir a conhecer outro universo…       Maria João Brito de Sousa – 26.09.2010 – 15.32h       "I`M EVERY WOMAN..."     Eu sou cada mulher que vai morrendo C`o filho adormecido nas entranhas, Cada gesto do grito em que me acendo E em que ensanguento os cumes das montanhas.     Por cada uma delas me apedrejam, Por cada uma delas ressuscito, Por cada uma exijo que me vejam E reafirmo aquilo em que acredito.     Eu sou cada mulher. Ela também. Sou filha, companheira, amante e mãe De cada pulsação desse teu peito.     ...

O POEMA QUE O CORPO ME RECUSAVA

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  Se um poema dependesse só de mim E não desses milhares de variáveis Que se não sabe quando têm fim E que jamais se tornam dispensáveis,   Ou se escrevê-lo fosse sempre assim, Tão certo quanto os meus inevitáveis... Mas não! Erva que cresça num jardim Expr`imenta mil destinos improváveis...   Agora, neste alívio de proscrita Que aqui vai renegando o seu castigo, A tactear, como se se espantasse,   Deixo, enfim, um poema que acredita E que agora mostrou ser meu amigo Por muito que o meu corpo o recusasse...       Maria João Brito de Sousa

SEI LÁ II

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  Sei lá se posso, ou não, continuar, Se devo ou nem sequer devo escrever, Se vale, ou não, a pena `inda teimar Quando a vontade teima em não nascer...   Não sei! Nem sei se posso acreditar Que amanhã ou depois me vá esquecer E que a vontade volte a conquistar Um dom que lhe parece não caber...   Perdi-me e não me encontro sem escrever-me Mas escrever-me não sei sem me encontrar, Por isso nada sei! Não me perguntem   Que estranha coisa está a acontecer-me, Porquê este soneto a gaguejar Nas palavras que ainda repercutem...     Maria João Brito de Sousa - agora, só porque seria perigoso para a minha permanência física não me nascer, sequer, um péssimo soneto.

NÃO FALES DO QUE NÃO SABES

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  Não me venhas dizer que é este o preço Que tenho de pagar mais uma vez! Não me venhas falar do que não vês Pois posso valer mais que o que pareço…     Nada tenho pr`a dar-te e nada peço. Só quero a minha paz porque talvez Eu tenha um bem maior que os teus porquês Na estranha lucidez em que me meço.     Não venhas de mansinho e disfarçado Com as falinhas mansas do costume; Não finjas ser um nobre protector,     Porque é possível que já tenhas dado Mais que o suficiente desse estrume Com que tentas cobrir tudo em redor.         Maria João Brito de Sousa – 20.09.2010 – 22.02h     IMAGEM RETIRADA DA INTERNET

AINDA BEM QUE HÁ LOBOS SOLITÁRIOS II

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    Ainda bem que há lobos solitários E que os falsos profetas, se existirem, Serão sempre execráveis mercenários Capazes de exultar quando mentirem. Ainda bem que alguns são solidários Que, ao dar-se, não será para pedirem, Em troca, mil favores para os cenários Que muitos têm medo que lhes tirem. Ainda bem que que existe um lobo assim, Capaz de dar-se inteiro e sem esperar Mais do que essa alegria do momento. Depois, o solitário lobo em mim Range os dentes, nauseado, ao constatar Que alguns vão vendo nisso um fingimento.     M. João Brito de Sousa

QUINTA E SEXTA FEIRA

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    CONVERSAS DE MÃE PARA FILHO II     Vens magoado e esculpido pela sorte Que em nada bafejou a tua vida, Revoltado, sem pouso e já sem norte, Sondar a felicidade prometida… E não, não era este o teu transporte. Esta aproximação mal conduzida, Vai deixando, em nós dois, o travo forte Da situação que está comprometida. De nada me serviu tanto poema, Tanta verdade e tanta confissão; Ninguém entendeu nada do que eu disse! Também ninguém entende que o problema Só se exacerba na contradição De quem, querendo ajudar , faz mais tolice…     Maria João Brito de Sousa   “Il ne faut pas s`affliger de n`être pas connu des hommes, mais s`affliger de ne pas connaître les hommes." Confucius, Entret. 1.16       SOPRA O VENTO     Vai o vento soprando em derredor Deste corpo despido de ideais E enquanto o vento sopra, mais e mais, Vão-me esses ideais ganhando cor. Se enquanto o vento sopra, faz calor Os corpos que se despem são normais Pois surgem-lhes ideias geniais E aprendem a despir tam...

VER-ME ONTEM, VER-ME AGORA

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  Vês-me como me viste em tempos idos; Ingénua, incauta e até perturbadora, Rastejando nos trilhos mais escondidos… Vês tudo o que em mim viste e vês-me agora. Vês-me chorando os mais desprotegidos, Amando as plantas, tal como era outrora, Subindo enquanto desço o já subido, Descendo se só penso em ir-me embora E, se assim tu me vês, assim serei! A teus olhos me moldo e pouco importa Que eu te fale das coisas como as sinto, Que desvende o que nunca te mostrei, Te aponte o esconderijo ou te abra a porta, Pois nunca aceitarás que te não minto…     Maria João Brito de Sousa

O DESENROLAR DOS TEUS DIAS

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    Tu estavas em silêncio, os olhos postos Na imensidão do mar dentro de ti E, por fora de ti, estavam mil rostos Curiosos de te verem por ali. Teus olhos nada viam; nem desgostos, Nem medos ou razões. Dentro de si, Os outros, os que te iam sendo impostos, Tremiam, tal e qual como eu tremi. Tu estavas em silêncio, mas não estavas Ali, onde o rugir das ondas bravas Assustava os demais que as contemplavam E nesse teu silêncio me bastavas, Sem que desses por mim me conquistavas E era assim que os teus dias se passavam…     Maria João Brito de Sousa – 07.09.2010 – 11.41h

SÁBADO, DOMINGO E SEGUNDA FEIRA XVIII

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  BEM TE VI   Bem te vi, velho cuco que passavas Na mira de ocupar alheio ninho E, repleto de pão, farto de vinho, Nem por um só segundo vacilavas.     Bem te vi quando tanto procuravas Voando sobre a mata e, de mansinho, Mergulhavas a fundo, tão baixinho Que quase – temi eu… – te despenhavas.     Bem te vi, mas não disse ter-te visto Na tua insana busca. A natureza, Deste mesmo planeta em que eu existo     Te criou alheado das razões Que me vão tendo, a mim, nesta pobreza… (E não. Nenhum de nós teve ilusões.)         Maria João Brito de Sousa – 04.09.2010 – 11.29h       O LOUCO, O ENIGMA E A ESPERA       … e ria-se das coisas que não tinha Esquecido, já, das tantas que tivera Se, em noites de luar, descia à vinha Ébrio do louco amor que tinha em Hera E, a seguir, nos vinhedos, se entretinha, Tão nu como se a própria Primavera Da nudez lhe engendrasse uma adivinha Que decifrasse a dor de cada espera… Se chovia, explodia num desnorte! Escorria-lhe esse estigma encosta abaixo, Turbava-se...

REFLEXÕES DE UM ALTRUÍSTA

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    Sou subtil, metafórico e, contudo, Tenho, às vezes, certo mau feitio; Só quero aquilo com que mais me iludo, Depois, chego a pensar que é doentio… Se oiço um grito bem alto e muito agudo Sinto, no corpo inteiro, um arrepio E, a correr, vou logo ver se acudo Mas, em vez de ajudar, tremo de frio… Sou compulsivo! Nunca sei se o faço Porque devo fazê-lo ou se, ao contrário, É um puro exercício de egoísmo Que guia o lato impulso do meu braço… [será que este feitio, tão temerário, pode ter qualquer coisa de altruísmo?]       Maria João Brito de Sousa – 02.09.2010 – 22.09h       PS - O Sapo fez anos, esqueci-me de lhe dar os parabéns - não foi só a ele... - e é muito provável que, hoje, não tenha tempo para o fazer... ficam aqui os meus PARABÉNS AO SAPO. Desculpa, jovem batráquio... gosto muito de ti, mas no que toca a datas...

OS OCULTOS E OS MENOS VISÍVEIS

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      Amo as rosas, que planto, e o seu espinho Que, insurrecto, as consola e as defende; Da rosa, creio sempre no carinho, Do espinho, quanto dele se subentende. Amo, também, a flor do rosmaninho E a chã erva-moirinha que se estende, Insubmissa, rompendo o seu caminho, Pois quanto menos vista, mais me prende… Creio em mil coisas em que ninguém crê E desdenho outras mil que todos querem! Mas porque é que será que eu amo assim Mil coisas que, afinal, mais ninguém vê? [e não abdico, mesmo quando ferem, das mais humildes ervas de um jardim…]     Maria João Brito de Sousa – 01.09.2010 – 21.28h       Imagem retirada da internet

QUE LOUCO!

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  Q ue louco admitiria ser profeta Nos dias deste tempo em que vivemos? Dantes a ignorância mais completa Dava-lhe segurança, pelo menos… Hoje é de melhor tom não ser asceta, Falar do que comemos e bebemos, Gracejar, dizer uma ou outra “peta” E ir aspirando a dias mais amenos… Mais dia, menos dia, a bomba explode! Um descai-se e, sem querer, revela, enfim, Vocações inconfessas, silenciosas… Depois… vamos a ver se alguém lhe acode… [Deus queira me não calhe o feito a mim que, às vezes, profetizo sobre as rosas!]       Maria João Brito de Sousa – 04.09.2010 – 14.00h  

MOSTRA-ME AS TUAS MÃOS...

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  Mostra-me as tuas mãos… há mãos que falam! Há mãos que contam histórias, epopeias! Outras que dizem mais quando se calam Como pedras rasgadas por mil veias… Há mãos que criam coisas que se instalam Por dentro das pessoas, como ideias, E outras que nos tocam, nos embalam, Ou que acenam do mar, como as sereias… Há tantas, tantas mãos! Todas diferentes, Todas capazes de se completarem Nesta infinda tarefa de viver E todas essas mãos pedem, urgentes, A outras tantas mãos, para as salvarem Do que mal que algumas mãos estão a fazer…   Maria João Brito de Sousa – 07.09.2010 – 12.12h       NOTA - Desculpem-me esta "rentrée" tão em cima da hora do fecho do Centro. Na continuidade dos trabalhos de reparação do telhado, surgiram novas complicações que não estavam previstas. Temo bem que haja obras no telhado durante mais uma semana... ou mais :(

O FUTURO, SEGUNDO UM PÁSSARO QUE PASSAVA

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    Eu sei lá que futuro é o das flores, Que impérios estelares não nascerão Neste imenso universo, entre estertores E vislumbres de uma outra dimensão!     Eu sei lá quantos sonhos, quantas dores Entre agora e depois, nessoutro então, Em que os gestos dos novos criadores Rumem, talvez, numa outra direcção…     Não o posso saber! Sei lá se um dia Mais ou menos longínquo, imprevisível, O mundo inteiro inverte o seu caminho!     Sei, contudo, que eu, hoje, poderia Ter dado um pouco mais do que o possível, Ter posto um ovo a mais em cada ninho…     Maria João Brito de Sousa – 01.09.2010 -22.35h

UMA MODESTÍSSIMA TRADUÇÃO DO POST DE ONTEM

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      INVOCAÇÃO DA SABEDORIA Ó Sabedoria, a única capaz de nos guiar através da vida! Ó tu, que ensinas a virtude e que derrubas o vício, que seria de nós, que seria de todos os homens, se não fosses tu? Foste tu que povoaste as cidades, inspirando aos homens dispersos o amor pela sociedade; foste tu que os levaste a coabitar, a contrair laços sagrados, a criar uma linguagem e uma escrita comuns. Foste tu que ditaste as leis, formaste os costumes, civilizaste as pessoas. Procuro refúgio em ti; imploro o teu auxílio. Até hoje feliz por, parcialmente, seguir as lições que me davas, hoje é inteiro que me entrego a ti. Um só dia de harmonia, segundo os teus preceitos, vale mais do que uma eternidade de culpa. A que força poderíamos, portanto, recorrer, se não à tua, que nos ofereces a tranquilidade na vida e anulas o medo da morte?     Cícero, Tusc. 5.2.   A ÁRVORE E O SEU FRUTO   Investe no teu trabalho, jamais nos seus frutos. Não trabalhes visando o fruto que ele te virá a dar, pois o ...