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A mostrar mensagens de junho, 2016

AUTO-RETRATO MUITÍSSIMO IRÓNICO

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    (Soneto em decassílabo heróico) *   Dez-reis de gente. A cinza dos cabelos Aponta ao mundo o estágio da velhice Que a pele ainda lisa lhe desdisse Por obra e graça dos seus desmazelos, *   Pois nem sequer cuidou de nunca tê-los, E o tempo que não pára - que chatice! - Fugir-lhe-á antes que a pieguice Se lhe adiante aos versos que achar belos. *   Dez-reis-de-gente-de-trazer-por-casa Que sem a casa nem sequer vai ter Esses restos de entulho em maré-vaza *   Que lhe couberam quando ousou nascer; Ah, quando ousar morrer, decerto arrasa, Mas, certamente, só quando morrer. *     Maria João Brito de Sousa - 24.06.2016 - 12.23h  

DER FLIEGENDE HOLLÄNDER - O Holandês Voador

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DER FLIEGENDE HOLLÄNDER * Traz âncora de fogo e velas de aço E a mão do leme o força contra o vento Negando a força ao mar, ao tempo, ao espaço, Contra todas as leis do firmamento... * Vermelha, a bujarrona - um pano lasso Que se enfuna no tope -, é seu tormento Eternizando em sangue, agora escasso, Os tantos que ganharam seu sustento * Nesse convés, em tempos tão remotos Que a memória das gentes - ou seus fitos - Um por um, foi deixando entre os ignotos, * Ou, mais precisamente, entre os malditos Que quais penedos, vagas e mar`motos, Ganharam o lugar de velhos mitos. * Maria João Brito de Sousa - 12.06.2016 - 23.10h  

PENAS...

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    (Soneto em decassílabo heróico)   Eu tenho tanta pena de ter pena Do tanto que vou vendo destruído, Que chego a deduzir que ser serena, Se despiu de razões, perdeu sentido,   Pois mais sentido faz razão pequena Que nem sequer conceba haver perdido Razões que são da pena a razão plena De nunca as ter sonhado, ou concebido,   Mas... pena de mim mesma? Coisa obscena! Que fútil, ou que inútil terei sido Durante esta jornada, nunca amena,   Pr`a tê-la de mil penas preenchido? Pergunto, olhando o Nada que hoje acena A Tudo o que me coube ao ter nascido...   Maria João Brito de Sousa - Março, 2016   In A CEIA DO POETA - (inédito)  

WHAT A WONDERFUL WORLD!

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 (Soneto em decassílabo heróico)   O mundo, Amor, será maravilhoso, Mesmo depois de mim, quando no mar, A minha velha Barca naufragar Num Inverno qualquer, mais rigoroso,   Mas... se por um momento doloroso, Eu deixasse, no Mundo, de apostar, Não teria sabido ao Mundo amar, Nem desta Vida obtido qualquer gozo...   Ah, Mundo-Vida, quanto me prendeste Pois, de quanto tiraste, mais me deste Desta riqueza a que nem vejo o fim   Quando, por dentro, a chama me acendeste E, morra embora nalgum dia agreste, Maravilhada, vi-te aceso em mim...     Maria João Brito de Sousa - 15.06.2016 - 14.22h  

SE AMOR DISSECO... IV

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    (Soneto em decassílabo heróico)   I   Ai, se um qualquer Mostrengo abocanhasse Meus frágeis ossos velhos, gastos, fracos, E, toda inteira, me deixasse em cacos, Sem que eu fugisse, ou mesmo ripostasse, Ou - ainda pior! - se eu suportasse, Uns dentes feros, grossos como tacos, Que me arrancassem três ou quatro nacos Da muita, ou pouca, carne que sobrasse... II Disseco Medos, para além de Amor E, sem dar troco a seja lá quem for Que venha, lesto, pr`a calar-me agora, Descubro ainda, sem qualquer pudor, Da(s) causa(s) "prima"(s), cada dissabor E, nas mãos de Eva, gestos de Pandora... Maria João Brito de Sousa- 11.06.2016 - 19.23h    

SE AMOR DISSECO... III

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    (Soneto em decassílabo heróico)   Se Amor disseco, encontro-lhe as fraquezas; O ciúme, a traição, as perversões E as mais que conhecidas distorções, Irmãs de Amor, aue sempre a Amor vão presas,   Unidas pelas próprias naturezas E del`nascidas, contra as convicções Que, afirmam, não de Amor, só de paixões, Nascerem, por excepção, tão vis surpresas...   Porém, se Amor disseco... ah, quanto vejo! O mesmíssimo Amor que pede um beijo Pode exigir, depois, total pertença,   E destruir o que antes foi desejo... O contrário de Amor - sem medo, ou pejo!-, Ódio não é, garanto! É Indif`rença...     Maria João Brito de Sousa - 11.06.2016 - 16.53h  

SE AMOR DISSECO... II

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Se tanto teve e, por Amor, a privas De dar-se um pouco, para além de amar, Como pudeste, sem razão, privar A quem te amou nas horas mais excessivas   De outras paixões, que teve de calar, Concretas, muito embora criativas, Mas fortes, persistentes, compulsivas... E a todas ignorou, pr`a te agradar?   Eu, quando Amor disseco sem parar E mais me encontro enquanto dissecar Amor, nos corações das coisas vivas,   Recordo, Amor, que qu`rendo-te abarcar, Não me encontrava, a mim, neste meu Mar Que, hoje, de Amor, me ergueu vagas altivas...     Maria João Brito de Sousa - 10.06.2016, 19.30h  

SE AMOR DISSECO...

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  (Soneto em decassílabo heróico)     Se Amor disseco, quanta vez me espanto Da minha mão, cirúrgica, precisa, Que, mal pressinta Humor, tudo analisa Serenamente e sem qualquer quebranto...   No mesmo suave Amor que exalto e canto, Pressinto humano Humor que a "ratio" visa E que detecto, assim que a mão desliza Pr`ó despojar desse inventado manto...   Mas, porque o faço tão naturalmente Como respiro, ou vejo, claramente, Que vão embranquecendo os meus cabelos   E os dentes me sucumbem, dente a dente... Como evitá-lo, se a razão não mente, Porquê escondê-lo, quando eu posso vê-los?     Maria João Brito de Sousa - 10.06.2016 - 15.41h     Imagem - "Anatomia do Coração",  Enrique Simonet Lombardo    

VERSO A VERSO...

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      (Soneto em decassílabo heróico)   Na tenaz destas coxas que te prendem Conduzo-te, poema imaginário, Por ondas e marés, doce corsário, Ao cais onde estas vagas se me rendem...   Rotas hábeis que engendro e que te entendem, Levar-te-ão, poema solitário, Ao cais urgente, ao porto necessário À nau que vara as ondas que a suspendem...   Afundo-te, poema, verso a verso, Firmando o leme assim que tu, disperso, Te desvias da rota e, já perdido,   Recusando, talvez, morrer submerso Na doce embriaguês deste universo, Te negas ao naufrágio prometido...     Maria João Brito de Sousa - Fevereiro, 2016     In A CEIA DO POETA (inédito)