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A mostrar mensagens de janeiro, 2016

GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (2)

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      Eu Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada ... a dolorida ... Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida! ... Sou aquela que passa e ninguém vê ... Sou a que chamam triste sem o ser ... Sou a que chora sem saber porquê ... Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou! Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"   EU   Eu, em contrapartida, sei quem sou; Poeta, fui-o sempre, a vida inteira, Dos versos dedicada companheira, Rocha, ou papoila, que do chão brotou   E, depressa demais, desabrochou, Tomando a sua própria dianteira Na caminhada junto à ribanceira Em que o passo apressado a colocou,   Mas vive, agora muito lentamente, Um tempo mais incerto e mais urgente Que teima em não para pr`a repousar   E que passa por ela e segue em f...

GLOSANDO FLORBELA ESPANCA

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  CONTO DE FADAS Eu trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor! E para as tuas chagas o ungüento Com que sarei a minha própria dor. Os meus gestos são ondas de Sorrento... ~ Trago no nome as letras duma flor... Foi dos meus olhos garços que um pintor Tirou a luz para pintar o vento... Dou-te o que tenho: o astro que dormita, O manto dos crepúsculos da tarde, O sol que é de oiro, a onda que palpita. Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez! – Eu sou Aquela de quem tens saudade, A Princesa do conto: “Era uma vez...” Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"   CONTO SEM FADAS "Eu trago-te nas mãos o esquecimento" Que aqui te deixo como um bem maior; Sai demasiado caro, o seu sustento, Mas raramente achei coisa melhor... "Os meus gestos são ondas de Sorrento" Perdidas no meu Tejo, irei supor, Pois só desse me brota o estranho alento Que, às vezes, me faz alga, em vez de flor... "Dou-te o que tenho; o astro que dormita", Bom-senso...

ESTRELATO(S)

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Eu ando a mendigar, literalmente, O pão de cada dia, a cada hora, Apenas por estar gasta e estar doente, Mesmo sendo poeta e produtora... Se algum dia fui estrela, fui cadente, Das muitas que dão luz indo-se embora Pr`a logo se apagarem, num repente, Negando a própria força propulsora, E como confessar-vos que o estrelato Se me afigura pouco apelativo, Que bem mais ambiciono o são recato Da pequenina casa em que (me) vivo Tendo por companheiro um velho gato Que é - como eu sou... - sensato e combativo?   Maria João Brito de Sousa - 21.01.2016 - 11.47h    

DE OLHOS BAÇOS

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(Soneto em decassílabo heróico) De mim, não esperes “mágicos cansaços”, pois não me sobra tempo prós sentir, nem me urge a languidez, nem sonho abraços e muito menos tento seduzir Algo que não palavras, gestos, traços... A quem mos tente impor sem deduzir que me nascem de dentro e, como laços, me abraçam, por si só, sem me mentir, Falarei dos poemas - nunca escassos... - dos sons, do que me leva a descobrir as melodias, quanto aos seus compassos, E de algo que não posso definir senão voando... E, mesmo de olhos baços, aguardo e fico atenta ao que surgir.   Maria João Brito de Sousa – 26.07.2015 -22.47h

... E O QUE ME RESTA?

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  Tiram-me braços, pernas, coração... Levam-me o velho espaço onde me insiro E, por arrasto, a mim me levarão, Talvez em breve, ao último suspiro, Que só eu sei da estranha condição De ser tábua do chão do meu retiro E, assim que mo negarem, negarão Até o próprio ar que nele respiro... Não gosto de queixar-me e sei ser vão Falar do estranho amor que aqui refiro, Mas nada mais me resta! É deste chão Que o verso se me eleva a quanto aspiro, Enquanto vos vou expondo a situação... (... mas quanto mais me exponho, mais me firo...)   Maria João Brito de Sousa - 06.01.2016 - 18.00h