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A mostrar mensagens de setembro, 2020

NEM CALDO FIADO, NEM MEL SEM SABOR!

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NEM CALDO FIADO, NEM MEL SEM SABOR! *   (Soneto em verso hendecassilábico) * Acima hei-de pôr a quem seu caldo entorne De quem mesa adorne com ranço e bolor! Sei bem que houve dor, uma dor enorme, Complexa e disforme. Se inda havia amor... *   Mas sei, sei de cor, não haver quem contorne Coisa tão conforme com formas de expor A alma da flor que em todos nós dorme; Que a dor se transforme em seja o que for! *   Falta-me propor que esse caldo entornado Seja transformado em mancha incolor, Não vá o odor denunciá-lo estragado... *   Está posto de lado. Se sobrar vigor, Renova-se a flor sobre um caule inventado; Nem caldo fiado, nem mel sem sabor! *     Maria João Brito de Sousa - 27.09.2020 - 13.22h     Imagem retirada  daqui   Soneto inspirado numa ladainha rimada da  Janita    

O BANDO

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O BANDO * Às negras asas, deixou-as pender, Nem mesmo a queda agora a apoquentava; Sabia que este vôo era a perder, Pra quê lutar se desistir bastava? *   No princípio teimara em não descer, Mas entendeu que o fim se aproximava, Que as asas se negavam a bater E que a queda final pouco tardava. *   Agora que sabia não poder Escapar ao negro abismo que a chamava, De que lhe valeria o verbo querer *   Ou a férrea vontade que gabava? Cerrou os olhos para não mais ver O bando que a voar continuava. *   Maria João Brito de Sousa - 27.09.2020 - 10.45h   À Clara, minha irmã.  

UM PÃO QUE NÃO TEM PREÇO

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UM PÃO QUE NÃO TEM PREÇO * A grandeza do poeta não se mede; Em metros não se conta. Em peso, pesa Exactamente quanto a natureza De mãos dadas c`oa sorte lhe concede. * Se a verso usado um novo se sucede, De espantos se lhe mede essa grandeza Pois se o não satisfaz certa certeza, Procura a que lhe dê mais que o que pede. *   Cavalga-me o poema os dias mornos Sem esporas e sem sela, nem adornos, Perdendo-se em lonjuras que não meço... *   Logo um segundo acode. Os seus contornos Começo a vislumbrar. Acendo os fornos Em que cozinho um pão que não tem preço. *   Maria João Brito de Sousa - 26.09.2020 - 12.11h   Imagem - Os Comedores de Batatas - Vincent Van Gogh, 1885  

PODE UM VERSO ALBERGAR RAZÕES QUE NEM SONHEI

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PODE UM VERSO ALBERGAR RAZÕES QUE NEM SONHEI * (Soneto em verso alexandrino) * De negro pintarei a esplêndida verdade De um verso que me agrade. Depois o cantarei E aos outros deixarei voar em liberdade Que essa necessidade impõe-se ao que criei. * Se algum sonhar ser rei, faça-se-lhe a vontade E embora a realidade arrase o que engendrei, Nunca aprisionarei um verso que se evade, Nem mesmo se a saudade entender que eu errei, *   Que mais quis que o que dei, que ousei contrariar A órbita lunar, os homens e a lei... Não, não me calarei. Se posso argumentar *   Devo justificar aquilo por que optei Em nome do que sei não dever desdenhar; Pode um verso albergar razões que eu nem sonhei! *     Maria João Brito de Sousa - 25.09.2020 - 10.00h     Desenho de JÚLIO

TODO O SONETO É SÍNTESE (IM)PERFEITA

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  TODO O SONETO É SÍNTESE (IM)PERFEITA *   Todo o soneto é síntese (im)perfeita Da chama que em nós arde à flor da pele; Se tudo o que sentirmos couber nele, É dele que há-de nascer-nos a colheita. *   Fraca colheita quando, por receita, Nasce um poema que se nos revele Silenciando quanto ao sangue apele, Curvando-se, medroso, ao que o rejeita. *   Fraca colheita, a que se não rebele, Fraco o soneto quando se sujeita A submeter-se àquilo que repele. *   Fraca estarei, por obra de maleita, Mas não hei-de partir sem que cinzele Um que me deixe plena e satisfeita! *     Maria João Brito de Sousa - 24.09.2020 - 12.15h     NOTA - E claro está que este soneto não é um daqueles que me fazem sentir que "ganhei o ar que respirei". É apenas mais um soneto/síntese (im)perfeita...   IMAGEM - Tela de Álvaro Cunhal    

QUE CASTIGO!

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QUE CASTIGO! * Se me desdizes, não te contradigo... Cada qual tem a sua opinião Mas se eu entendo que tenho razão, Não deixa essa razão de estar comigo... *   Vês segurança onde destrinço perigo? Avisar-te é a minha obrigação, Mas se onde digo sim, tu dizes não, Respeito e não discuto mais contigo. *   Não me assistem vaidade e presunção, Só me assiste a amizade e não te obrigo A partilhar da minha convicção. *   Não me imponhas a tua. Não consigo Mentir para evitar a discussão, Nem fingir que concordo. Que castigo! *       Maria João Brito de Sousa - 23.09.2020 - 13.39h    

FRAGILIDADES

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FRAGILIDADES Ou Pequenas Grandes Fraquezas Que se Confessam a Brincar *   Hoje de manhãzinha ia matando O quase nada que de mim sobrou; Dez quilos de gravilha levantando, Senti que o coração quase parou, *   Que as vértebras rangeram protestando E que a força nas pernas me faltou... De a tão pouco saber-me estar vergando Toda a minh`alma se me rebelou *   E o corpo inteiro, embora vacilando, Na tarefa impossível se centrou; Assim a terminei resfolegando, *   Tonta do esforço (mais do que já sou...), Os "bofes pela boca" arremessando... Tão pouco fiz... e tanto me custou! *     Maria João Brito de Sousa - 22.02.2020 - 13.05h        

A ESCOLHA

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A ESCOLHA *   Esquerda ou direita? Qual de vós se atreve A decidir-se nesta encruzilhada? Quantos de vós nunca decidem nada, Quantos irão por onde a sorte os leve? *   A escolha nunca é fácil, nem é breve, Mas eu não hesitei e fiz-me à estrada; Não me arrependo! A escolha era a acertada E à esquerda é que o poema se me escreve, *   Que o coração me bate como deve, Que se faz leve a dura caminhada, Que nem sequer a morte me deteve *   Sempre que tive a vida ameaçada; Foi essa a direcção que se manteve, Que a minha decisão não estava errada! *     Maria João Brito de Sousa - 20.09.2020 - 15.04h

NÓ-CEGO

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NÓ-CEGO * Tudo quanto é matéria se dissolve, Se espalha por aí desfeito em pó E enreda-se o fio e surge o nó Da saudade maior que nos envolve. *   Nó decisivo que ninguém resolve, Definitivamente agreste e só, Nascido pra magoar, pra criar dó, Nó-cego desta dor que nos revolve... *   Nódoa caída no mais puro pano, Inamovível falha a causar dano Na manta já tecida, fio por fio, *   Dia após dia, um ano após outro ano; Por cada fio, um nó acorre insano Sem ter escolhido o pano em que caiu... *     Maria João Brito de Sousa - 20.09.2020 - 11.36h     Imagem retirada  daqui  

NO POEMA ACABO POR RESSUSCITAR

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NO POEMA ACABO POR RESSUSCITAR *   Setembro de doença e de amargura, De tempestade atrás de tempestade... Quem disse que Setembro era ternura Se, para mim, Setembro é só saudade? *   Mas se o mês de Setembro me esconjura E me ensombra a noção de liberdade, Faço-lhe frente. Um pouco de loucura E invento um sol que muda a realidade! *   De mortos me enches? De versos te cubro Até que morras nos braços de Outubro E se também Outubro me magoar, *   Mais versos tecerei. Sempre os descubro E assim que a vida me derruba a murro, No poema acabo por ressuscitar! *   Maria João Brito de Sousa - 19.09.2020 - 11.15h    

SILÊNCIO!

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SILÊNCIO! * Silêncio, que um poema vai ser escrito Ainda que a palavra esteja gasta, Esvaziada, esmagada como pasta, Sangue pisado de um verbo proscrito, * Mescla magoada que em versos debito, Mosto de um vinho sem nome nem casta... Calai-vos por favor, que isto me basta E em nome deste nada me credito, * Pois se de alma dorida, atormentada, Peço silêncio em troca deste nada, Ouvi-me, que este nada é quanto tenho... * Silêncio, que a palavra, amargurada, Só em silêncio pode ser gestada; Dela renasço e nela me despenho! *   Maria João Brito de Sousa - 18.09.2020 - 11.25h

MARIA CLARA BRITO DE SOUSA - 24.11.1962/13.09.2020

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Minha única irmã. Tão diferentes e tão iguais, tão distantes e tão próximas... Ambas dotadas de um sentido de humor algo mordaz, cada uma com sua doença crónica em estado avançado, contactávamo-nos por telefone quase diariamente e encontravamos forma de nos rirmos um pouco tentando adivinhar qual de nós partiria primeiro. Chegámos a fazer apostas... e rimo-nos  com isso e rimo-nos por isso. Desta vez, Clara, foste tu quem ganhou a derradeira aposta... e eu perdi o riso. Levaste contigo mais um pouco do pouco que me restava. O vazio é maior, muito maior do que o que poderias ter imaginado. Dorme em paz, minha irmã.   Maria João Brito de Sousa   14.09.2020

SONETO PARA TODA A GENTE E NINGUÉM

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SONETO PARA TODA A GENTE E NINGUÉM * Quando eu me for, irmão que irás ficar No mundo em que o poema te engendrou, Lembra-te desta que este mundo amou Bem mais do que pudeste imaginar. * Que te não faltem sonhos pra sonhar, Nem dúvidas, que a dúvida bastou Pra conduzir-me ao verso... e não parou Se não para, entre versos, respirar. * Que se te some a dúvida em procuras Ainda que por estradas não seguras Te conduzam as buscas que encetares. * Que te não travem, nunca, as amarguras E que em chamas te acendas se, às escuras, Perdido em tua busca te encontrares. *   Maria João Brito de Sousa - 12.09.2020 - 12.24h    

NOTÍCIAS - 11.09.2020

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NOTÍCIAS - 11.09.2020 Queridos amigos e camaradas, continuo menos bem, razão pela qual me mantenho ainda distanciada de vós. Esta infecção, bem como todo o quadro de mal-estar generalizado, não é nada fácil de combater e pode prolongar-se por muitas semanas. A vermelhidão nas pernas já quase desapareceu, mas as dores mantêm-se, tal como a indisposição. Grande parte do meu tempo tem sido passado na cama, com as pernas elevadas, ou vendo velhas séries televisivas no computador, também com as pernas tão elevadas quanto possível. De quando em quando, vou até ao cafezinho, mas a marcha é-me difícil e bastante dolorosa... ainda que o disfarce. Peço a vossa compreensão e deixo o maior e mais grato dos meus abraços a todos os que me vieram demonstrar a sua simpatia e solidariedade. Maria João  

NOTÍCIAS

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NOTÍCIAS Queridos amigos e camaradas, seguem as notícias possíveis; Estou, há vários dias, com uma Celulite infecciosa/bacteriana dos membros inferiores provocada por uma bactéria que se tem mostrado resistente aos vários antibióticos que me foram e continuam a ser administrados. Continuo com muitas dores, edema (inchaço), mal-estar intenso e dificuldade de concentração. É uma infecção grave, dolorosa e que pode levar muitas semanas a ser curada, não sabendo, portanto, quando estarei capaz de retomar a escrita e a relativa normalidade da minha vida. Para todos vós um abraço muito grato e forte! Maria João  

ATÉ SEMPRE II

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ATÉ SEMPRE II Queridos amigos e camaradas, o meu quadro infeccioso continua a progredir muito dolorosamente, apesar da antibioterapia, e não me encontro capaz de escrever mais do que estas poucas linhas para, do fundo do coração, vos agradecer colectivamente. Devido às dores, somadas à progressiva diminuição da acuidade visual e ao baixo nível de sódio no sangue, não me tem sido possível ler ou comentar seja quem for, nos blogs, no HP e no FB. Peço a vossa compreensão e deixo-vos outro abraço do tamanho do mundo! Maria João