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MEMÓRIA(S) DO NÁUFRAGO-PERFEITO

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MEMÓRIAS DE UM NÁUFRAGO PERFEITO *   Do vento que sopra, da proa que afunda, Do mastro partido, do leme encravado, De ouvir os gemidos do velho costado Da barca que oscila, bojuda, rotunda, *   Na crista da onda, no mar em que abunda Escolho traiçoeiro que espreita, aguçado, Escondido na espuma, submerso, acoitado Em água que a Barca julgava profunda... *   De tudo me lembro, se bem que já esteja, No tempo passado, submerso também E seja esta imagem longínqua o que eu veja * Da Barca que afunda nos sonhos de alguém, Apenas a sombra que passa e festeja Não ser verdadeira, nem ser de ninguém. *   Maria João Brito de Sousa 11.01.2017 - 10.52h *** (Soneto em verso hendecassilábico)   Ao meu avô poeta, António de Sousa  

MEMÓRIA(S) DO NÁUFRAGO-PERFEITO

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MEMÓRIAS DE UM NÁUFRAGO PERFEITO *   Do vento que sopra, da proa que afunda, Do mastro partido, do leme encravado, De ouvir os gemidos do velho costado Da barca que oscila, bojuda, rotunda, *   Na crista da onda, no mar em que abunda Escolho traiçoeiro que espreita, aguçado, Escondido na espuma, submerso, acoitado Em zona que a Barca julgava profunda... *   De tudo me lembro, se bem que já esteja, No tempo passado, submerso também E seja esta imagem longínqua o que eu veja *   Da Barca que afunda nos sonhos de alguém, Apenas a sombra que passa e festeja Não ser verdadeira, nem ser de ninguém. *     Maria João Brito de Sousa - 11.01.2017 - 10.52h     Ao meu avô poeta, António de Sousa * (Soneto em verso hendecassilábico)  

GLOSANDO ANTÓNIO DE SOUSA III

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NUVEM Lá longe, aonde a vida me começa - sorria por engano um sol de Inverno - Não sei que deus me fez sua promessa E fui outro menino, ávido e terno. Mas a infância passou, nua e depressa - subira o Sol como um clarão de inferno - E fiquei-me neste ar de quem ingressa; Grotesco, trivial, falso e moderno. - Número sete, um passo em frente! - Pronto! (A voz que me chamava, certa e calma, Não viu que eu avançava cego e tonto...) Achou-me assim, o tal que me perdeu! - Ó nuvem! - tarde triste da minh`alma, Quem por seus sonhos sofre como eu? António de Sousa In "Livro de Bordo" (2ª edição) Editorial Inquérito PÓDIO "Lá longe, aonde a vida me começa", O Tempo é bem mais lento do que eu sou; Corro, passo-lhe à frente a toda a pressa, Sou quem ao próprio Tempo ultrapassou! "Mas a infância passou, nua e depressa" E a vida, quando os passos me travou, Provou-me que, vivendo, se tropeça Onde jamais o Tempo tropeçou... "- Número sete, um passo em frente! - Pront...

GLOSANDO ANTÓNIO DE SOUSA

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EXÍLIO Cobriu-me de desprezo o dia pardo, a flor azul do riso das donzelas, o lento rio de águas amarelas e o frio, que pesava como um fardo... Meu sonho - vôo tonto de moscardo a tentear vidraças de janelas - zoava de horas túmidas e belas; morria, seco e duro como um cardo. Sempre de mim a mim, nos meus caminhos, pedindo em vão a esmola de vizinhos e lume certo a um lar que não tem brasas. (Menino triste que já é demais, sou de filhos, irmãos, mulher e pais para esconder do Céu uns cotos de asas.) António de Sousa In "Livro de Bordo" (1ª edição),  Editorial Inquérito O CAIS   "Cobriu-me de desprezo o dia pardo" que violava as frestas das janelas como a nortada enfuna as rotas velas da minha barca de pirata... ou bardo... "Meu sonho - vôo tonto de moscardo" somando à própria fuga, outras procelas... - perdidos mastro e leme, embate nelas e cai pesadamente, como um fardo. "Sempre de mim a mim, nos meus caminhos", tecendo, para as velas, novos lin...

GLOSANDO ANTÓNIO DE SOUSA (meu avô paterno)

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BANCARROTA Esperei por mim em vão, suando rezas, pragas, versos subtis, ruivas saudades, Arrastei minhas horas indefesas entre chusmas e fundas soledades. Tive palácios de imortais certezas com seus jardins de passear vaidades; virtudes compassadas e burguesas e dor sem nome, como o preso às grades. Fui o fiel-conviva-de-banquetes, o pálido-com-alma-pra-vender nos mercados dos filhos de seus pais... Subi-me ao céu nas canas dos foguetes, fiz-me ladrão de sonhos, pra vencer, e sei apenas que não posso mais! António de Sousa in "Livro de Bordo" (segunda edição) Editorial Inquérito CRÉDITO (tardio...) "Esperei por mim em vão, suando rezas," quando era o verbo quem por mim esperava e descobri-me cega e de mãos presas a todas essas rezas que rezava... "Tive palácios de imortais certezas" feitos de um barro que ninguém moldava, povoados por monstros e princesas, dos quais fui, noite e dia, sendo escrava. "Fui (o)a fiel-conviva-de-banquetes" Estrangulad...

POETA, 2013

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  (Lembrando o poema Poeta, 1951, de António de Sousa - in "Linha de Terra", Editorial Inquérito, 1951- seguido de transcrição da parte final do texto "Esboço Impressionista do Perfil do Poeta", de Natália Correia, in "A Ilha de Sam Nunca")   (Em decassílabo heróico) Deixai-o lá, glosando ao seu destino Os motes de quem foi, de quem não foi, Que a ferrugem salina que o corrói Como a todo o punhal  de gume fino Oxida-se a si mesma e nem lhe dói Estocada que alguém esgrima em desatino No espólio em que se traça homem-menino Num espanto que o desmente e que o constrói... Deixai-o desfolhar-se à beira-pranto Onde a mãe-lua, um dia, há-de ir buscá-lo Pr`ó guardar em discreto e suave encanto Não vá um deus avulso ousar tocá-lo Jurando, a todos vós, que ele era um santo Pr`a, depois, sem remorso, atraiçoá-lo... Maria João Brito de Sousa -  11.02.2013 - 11, 35h   ----*---- "Impressionante identidade do homem e do seu discurso poético....

O REGRESSO DE "O ENCANTADO"

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  De ti, chegou-me o eco de um lamento… E se eu, Desencantado, te encontrasse E amorosamente em ti gravasse A fórmula de um estranho encantamento?   Se, depois, diluído o sofrimento Como a água de um rio que ao mar chegasse, Um único feitiço te bastasse Pr`a poderes retomar um novo alento?   Regressa o Encantado à sua obra Em órbitas que o mundo desconhece Porque só para ele fazem sentido…   A todos falta o tempo que lhe sobra Porque o tempo só sobra a quem merece E a quem tamanho encanto é concedido.       Maria João Brito de Sousa      Ao L.F., porque os encantamentos se tecem, indubitavelmente, em estranhíssimas coincidências. – Soneto nascido às 20.00h de segunda-feira, 03.05.2010.                      

UM POETA QUE (SE) PARTIU...

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  Era um estranho torpor feito de nada Que lhe invadia o ser ao sol-poente E ali ficava, amorfo, alheio, ausente, Da alma quase doente, de alquebrada...   Depois nascia a Lua. À hora errada Brotava-lhe a palavra, o verbo urgente E punha-se a plantar (verso ou semente?) No suporte irreal da madrugada...   Vestia uma "casaca de cometas" E percorria a casa, qual fantasma, C`o olhar apontado ao infinito...   No seu mundo de ideias inconcretas, Ele era omnipotente. Ó mundo, pasma! Partiu-se (e não partiu!), esse proscrito...   Ao Poeta António de Sousa Imagem - Fotografia do Poeta aos 16 anos.  

A BARCA DE CARONTE (Ao Poeta António de Sousa)

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  Sou, por tua vontade, ó mar ingrato, Da Barca de Caronte o timoneiro; Nela percorro o Universo inteiro Em busca do pecado ou do recato.   E, nela, o meu destino, esse insensato, Me condena ao inferno derradeiro De eterno comandante e prisioneiro Da barca a que me prendo, onde me mato...   Aqui, neste vai-vem, eu nasço e morro Mil vezes por segundo em cada dia Das mil eternidades por chegar   E, pr`a mim não há esp`rança de socorro, Nem porto para a barca da agonia A que me condenaste, ingrato mar...   Maria João Brito de Sousa - 27.02.2008 - 12.54h   Na foto, Miguel Torga e António de Sousa em Coimbra, 1937. Fotografia retirada do JL de 16.03.1981   NOTA - O soneto é de minha autoria e quem, como eu, tivesse vivido junto dele durante tantos anos, saberia que o "vestiu" na perfeição das suas horas mais amargas...  

NAUFRÁGIO... OU TALVEZ NÃO...

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  P`ra onde me encaminho, nunca o sei... Perdi a minha bússola no mar! Talvez um dia a volte a encontrar... Qu`importa o que perdi, se o não paguei? . É transparente, o mar onde encontrei A bússola que não quisera achar... P`ra que quero um ponteiro de apontar Um mar que tantas vezes naveguei? . A Jangada-de-Acasos não tem rumo, É ela o meu destino, o meu caminho, Flutua porque é feita de ilusões... . De terra alguém me faz sinais de fumo... Fecho os olhos! Não vejo! Sou ceguinho! Amparai-me, ó sereias e tritões!   Maria João Brito de Sousa -25.02.2008 . Para o Poeta António de Sousa, por ser uma perfeita metáfora da sua vida nos últimos anos... e porque, na sua colossal ironia, o poderia ter escrito. Oeiras, 25 de Fevereiro de 2008 - 16.53h

O PERFEITO NAUFRÁGIO

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O PERFEITO NAUFRÁGIO *   Decidi naufragar num mar de escolhos; Fui ao fundo do mar, vi os tritões, E tornando à jangada-de-ilusões Novas verdades trouxe nos meus olhos. * Viver a vida em terra entre restolhos Ou mergulhar no mar todo em canções? Foi-me a alma cedendo às tentações De naufragar nas ondas, todas folhos.  * Coberto dessa espuma e dessa renda, Eu sou pr`além de mim; sou Terra-ao-Mar E náufrago em perfeita comunhão  * Que em terra não encontra quem entenda A estranha decisão de se afogar Tendo a Linha de Terra ali à mão.. *   Maria João Brito de Sousa - 15.02.2016       Memorando António de Sousa e as suas obras "O Náufrago Perfeito" e "Linha de Terra" na véspera do 27º aniversário da sua morte física.   15.02.08 . 13.00h . Vide - http://antoniodesousa.blogs.sapo.pt/

CARTA ABERTA - António de Sousa

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  Diante de ti, que tens fome ou tremes de cansaço, perdoa, irmão, que eu tenha de sofrer um drama que parece de palavras!         Semeio versos, tu moirejas nas cavas, regando a terra com o suor do rosto e requeimas a carne à boca das fornalhas e gastas a paciência, vivendo ao ritmo inumano das máquinas (eu, é da alma que suo...)         Não é vida este sonho a que me espelho? Não me dou como tu? Irmão, perdoa! Não fui eu quem talhou o meu destino e a sede de me ser também é inferno!         Irmão, perdoa! Não feches o teu punho a esta mão sem calos... Outros, mas também tenho os meus trabalhos: é com o cerne dos meus nervos que acendo este luzeiro do meu canto.         Se me não vês assim, se te pareço, ao rumo dos teus passos, o passo inútil duma lua inquieta num céu fechado, ou apenas um mocho (agoirento e romântico), não me fuzile a tua voz de pragas!         Não me chames Poeta como quem cospe um exorcismo! Sou teu longínquo irmão, irmão! Como tu deserdado e à espera do mesmo: se...