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A mostrar mensagens de outubro, 2018

DE NAVEGANTE PARA NAVEGANTE

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  DE NAVEGANTE PARA NAVEGANTE * Solidária me encolho se te acolho não tendo senão chão sob os meus pés e presa à inclemência das marés só sei que enfrento a morte a cada escolho, * Mas posso dar-te o pouco que recolho nesta barca sem templos, nem convés, onde sempre escrevi quanto em mim lês, o sal que me preserva e nunca molho. * Não sei que mais te ofereça, de momento; Pousei os remos. Rói-me, a cada traço, Éolo, adormecido a sotavento * Dest` ilha que navego em pleno espaço e abordar-te não sei. Só sei que tento dizer-te que lamento. E que te abraço. *   Maria João Brito de Sousa – 31.10.2018 – 14.17h     Imagem retirada  daqui  

HOJE, EXCEPCIONALMENTE...

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  FRATERNA IGUALDADE * A hora de Inverno chegou fria e escura pintando a candura com laivos de inferno, mas nada é eterno, nada tanto dura, nem cabe a tortura no tempo moderno * E, no meu caderno, na minha moldura, não há ditadura vestida de terno, que eu cá me governo! Poeta e madura, decreto a ternura de um mundo fraterno! * Viva a liberdade... mas a verdadeira, que não tem fronteira, que nunca se evade pois traz a vontade como companheira * Sempre à dianteira, beijando a verdade! Que beije à vontade e que seja a primeira a ser, toda inteira, fraterna igualdade! * Maria João Brito de Sousa - 29.10.2018 – 11.30h    

SONETO CONTRA-RELÓGIO

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  SONETO CONTRA-RELÓGIO * Contra o relógio escrevo e, respirando, aspiro à tal certeza que só tenho porque nenhuma esperança tem tamanho, nem morre enquanto a vida for pulsando * E faço frente ao medo, acreditando no espanto em que me meço e redesenho ódios sofridos nos tempos de antanho, que os justos sempre foram derrotando. * Que vista, a esperança, almas de toda a cor, que a lucidez desperte finalmente e acenda em vós quanto haja de melhor * Porque, mais do que nunca é , hoje, urgente saber que o mundo aspira a mais amor e cresce em esperança para toda a gente. * Maria João Brito de Sousa – 28.10.2018 – 11.52h A todos os irmãos brasileiros      Imagem retirada  daqui  

DA REALIDADE DE UM PESADELO

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    DA REALIDADE DE UM PESADELO * Brandam-se espadas, (des)dobrando a esquina do tempo dos relógios sem minutos e morra o papagaio que se empina e partam-se os pincéis, já devolutos! * Queimem-se os óleos com terebentina, troque-se a ordem dos demais produtos pois, no final, há sempre alguém que ensina que a morte e que a tortura colhem frutos. * Não sei que história narro. Se a repito como um disco riscado, ou como um grito, é porque a vejo vir, mesmo não crendo * Que possa repetir-se o pesadelo desse Brasil, tão verde e amarelo, esquecido do que em tempos foi sofrendo. * Maria João Brito de Sousa – 27.08.2018 – 14.10h       Imagem retirada  daqui    

COM TODOS OS CRAVOS DO MEU JARDIM À BEIRA MAR PLANTADO

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  COM TODOS OS CRAVOS DO MEU JARDIM À BEIRA MAR PLANTADO * Não será populismo mas, provado, tem do fascismo o pútrido sabor e a mesma virulência de um passado coberto de torturas e de horror. * É fascismo!Fascismo descarado alardeado em gritos de furor, tomando as ruas como um tresloucado, calando o samba pra se ouvir melhor. * Ah, quando um cego toma a dianteira para impor por decreto essa cegueira, faz cegar pela força e destrói tudo, * E não há factos, nem há argumentos que possam sobrepor-se-lhe se, atentos, fizerem frente à besta a que hoje aludo. *   Maria João Brito de Sousa – 26.10.2018 – 08.10h *   Vídeo retirado  daqui  

PREENCHENDO TEMPO(S) DE ESPERA II

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  PREENCHENDO TEMPO(S) DE ESPERA II * Podia ter vestido a seda antiga que guardo no baú da minha infância, mas vesti-me de chita que, à arrogância, nunca a tive por musa, ou por amiga. * Podia estar cantando outra cantiga, mas não dou à aparência essa importância e escrevo enquanto aguardo uma ambulância, sentada num degrau, qual rapariga, * E não qual velha dama atormentada por vértebra dorida ou herniada, pois mais pode um poema do que a dor. * Assim, sobre mim mesma enrodilhada, componho versos ao som da toada da minha melodia interior. * Maria João Brito de Sousa – 23.10.2018 – 18.15h * No HSFX, aguardando a chegada do veículo de transporte de doentes não urgentes.  

PREENCHENDO TEMPO(S) DE ESPERA

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  PREENCHENDO TEMPO(S) DE ESPERA * Eu gosto das cidades que adormecem e se espreguiçam quando, ao sol nascente, libertas dos cansaços que entorpecem transformam as manhãs num mar de gente, * Gente pulsante em ruas que se oferecem aos passos de quem chega, aos residentes e às lendas urbanas que alguns tecem no tear das questões mais transcendentes... * Mas não sou de cidade, nem de aldeia, brotei à beira-mar, berço de areia de sábios e de ignaros, por igual. * Aqui, onde me sei, não sou sereia, mas guia-me a maré quando bem cheia e quase inteira sou de água com sal. * Maria João Brito de Sousa – 23.10.2018 – 15.35h * No HSFX, aguardando a consulta de Ortopedia/Trauma  

DORES E FASCÍNIOS

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  DORES E FASCÍNIOS *     Olha a vida que nasce e nos alegra, repara na que parte e faz sofrer... Observa a maravilha que congrega cada pequena vida por nascer *     Que sabiamente em células se agrega para dar alma à forma em que couber, a que a todos nos cabe e nos integra e a tudo desintegra por morrer! *     Creio ser certo ser a morte tida por cruel, prepotente e pervertida, sendo, afinal, apenas condição *     Para a renovação da própria vida... Dói-nos a perspectiva da partida, mas bem mais nos fascina a gestação! *         Maria João Brito de Sousa – 22.10.2018 – 13.22h  

COM UM COPO DE CÓLERA E DE ESPANTO

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  COM UM COPO DE CÓLERA E DE ESPANTO * Com um copo de cólera e de espanto, te saudarei, irmão que inda acreditas e que cantas mais alto do que eu canto nas horas de euforia ou de desditas. * É nesse mesmo copo, que levanto por tudo o que relembras e creditas, que verto, em simultâneo, raiva e pranto e contigo partilho o que tu citas. * Se o copo for partido, não se cala; Há sempre alguém que ergue outro e volta à fala, que há sempre alguém que abraça o gesto justo * E ainda que a barbárie abra caminho, não poderá roubar-nos todo o vinho há muito conquistado a grande custo. * Maria João Brito de Sousa – 21.10.2018 – 12.51h A Raduan Nassar  

SINOPSE II

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  SINOPSE II *     Desfazemos os nós, pintamos pombas, Acudimos ao fogo, aos temporais, Fatiamos o pão com facas rombas Desgastadas ao fio... e somos mais! *   Outros, sem pena, vão lançando bombas, Engendram belicosos rituais, Roubam-nos luz e movem-se nas sombras Das chagas que em nós abrem seus punhais. *   Assim se perspectiva a história humana E quem assim a vê, pouco se engana, Que a isto a nossa vida se resume. *   Mas do lado de cá da barricada, Do lado que escolhi, não estando errada, Reinventa-se o mundo, aceso o lume. *     Maria João Brito de Sousa – 19.10.2018 -13.28h       Desenho - "Trabalhador", Vincent Van Gogh  

NARRATIVA DE UMA DESPEDIDA

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  NARRATIVA DE UMA DESPEDIDA *     Nos teus olhos encontro vida, ainda, E uma espécie de encanto, indecifrável, Discreto, porque a vida se te finda Mas, como tu, directo, franco, afável, *   Pronto pra confirmar que a vida é linda, Ainda que tão curta e sempre instável, Apesar do pesar com que nos brinda, Sendo-te, embora, a morte inevitável. *   E adormeces comigo à tua beira Deixando uma mensagem derradeira Que criou vida própria e que perdura *   Até hoje e até sempre, enquanto eu viva. (trinta e sete anos conta, a narrativa, e eu não vos sei dizer se estou madura) *       Maria João Brito de Sousa – 18.10.2018 – 14.54h *       Soneto inspirado na leitura do poema “A Vida em Teu Olhar”, de Joaquim Sustelo. Neste soneto, narro a partida do meu avô poeta, António de Sousa, trazendo-a para o momento presente.  

OUTRAS NUVENS , OUTRAS TEMPESTADES

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  OUTRAS NUVENS, OUTRAS TEMPESTADES *   Dobro a esquina de um lapso temporário. O espanto errava então pela cidade E não havia bruto ou visionário Que não previsse aquela tempestade. * Temeram-na o boémio, o solitário E mesmo o aspirante à santidade Se confessou às contas de um rosário, Rogando abrigo, em vez de eternidade. * Com que cimento o medo os reunia Na mera suspeição da ventania, Quando uma brisa sempre os separara? *   Cimentem-se vontade e lucidez Sobre razões de idêntico jaez Ou, desta, a tempestade sai-nos cara. *   Maria João Brito de Sousa – 17.10.2018 – 16.53h  

APENAS MAIS UM SONETO

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  APENAS MAIS UM SONETO * Era um poema limpo, franco, honesto, Expurgado de acessórios, quase nu, Empunhando a bandeira do protesto Que improvisara sobre pano cru * E, mais do que poema, é sempre o gesto, E para além do gesto, serás tu Quem subscreve as ideias que eu lhe empresto, Ou quem vai rejeitá-las, por tabu. *     Raramente o poema se previne, Que quanto mais se expõe, melhor define A força da razão que o fez nascer * E, ainda que armado, é pacifista, Pois mesmo que apoucado inda conquista E mesmo sem poder, diz quanto quer. *   Maria João Brito de Sousa – 16.10.2018 -12.25h  

A CHEGADA DO FRIO

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  A CHEGADA DO FRIO * Arrepiado, o frio sentou-se à mesa Enrolado na manta dos sentidos. Sentaram-se a seu lado os precavidos Alheados do choque e da surpresa, * Que a frio que venha assim, da natureza, Há que entendê-lo e, desde tempos idos, Temendo, o Homem, silvos e bramidos, Fez frente à sua trágica grandeza. * Pelas geladas ruas da cidade, A vida continua a fervilhar, Como se, ao desmentir a realidade, * Pretendessem, os homens, afirmar A sua inconformada identidade, Ou a firme intenção de a não negar. * Maria João Brito de Sousa – 15.10.2018 – 15.00h  

"POLE POSITION"

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        “POLE POSITION” *   Aguardando o disparo da pistola (cada partida implica um tiro certo), Ao tomar posição, sinto-me tola E deixo a retaguarda a descoberto. *   Tudo me impele e nada me consola; Não sei se a meta fica longe ou perto E nessa ansiedade que me assola Me esgoto, como gelo no deserto. *   Em vez de uma corrida, haverá duas; Só depende de como as desconstruas E do medo que eu possa, ou não, sentir *   Frustrada por jamais saber se chego, Ou se sucumbo a meio e vos delego Fraquezas que farei por omitir. *     Maria João Brito de Sousa – 13.10.2018 – 10.27h  

FOGO(S)

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  FOGO(S) * Saiu de sua casa às seis e meia Levando o despontar de uma ambição No fundo da carteira meio cheia De sonhos e moedas de tostão. *     Pelo caminho, teve a triste ideia De olhar pra trás e teve, então, noção De quão longe ficara a sua aldeia, De si, depois daquela decisão. *   Que futuro a esperava? A mente humana Tem pulsões destas mas também se engana, Sobretudo se corre atrás do sonho. *     Se narro este prelúdio que me ocorre, Falo um pouco de um fogo que não morre, Mas em fogo que mate, as mãos não ponho. *     Maria João Brito de Sousa – 12.10.2018 – 09.30h  

PREVISÃO DE TEMPORAL

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    PREVISÃO DE TEMPORAL * Voam pelo espaço raminhos de flores De todas as cores. De tabaco, um maço Que em fumo desfaço, ou cinza e vapores, Minorando as dores do dente e do braço. * Enxoto o cansaço, que há dias piores E, outros, melhores. Depende... Se os caço E os prendo no laço, mais aos seus sabores Quentes, sedutores... são sopa e melaço! * Que grande embaraço promete, senhores, Um dia sem cores num céu fusco e baço Que vem, passo a passo, escondendo rubores, * Lançar-se em furores sobre este meu espaço... Já tremo - e sou de aço -, já suo suores Que casa sem estores sofre um bom pedaço. *     Maria João Brito de Sousa – 10.10.2018 – 18.10h * (Soneto em verso hendecassilábico com rima encadeada)  

CAVALOS-DE-TRÓIA

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  CAVALOS DE TRÓIA *   Retiram-se ufanos os beijos deixados nos lábios dos fados por deuses humanos... Um ano, dois anos, serão já passados e ainda lembrados seu espanto - ou seus danos - *   Que, a todos os planos, ficaram guardados, já que a beijos dados não se acham enganos pois foram humanos, pois foram de fados, não de disfarçados cavalos troianos... *   Ah, se eram presentes, dádivas perfeitas de bocas eleitas por deuses e crentes de gestos decentes, sem mal, sem maleitas, *   De quem tudo aceitas... Mostrar-lhes os dentes? Pobres inocentes! Fazer-lhes desfeitas? (são curtas ou estreitas as vistas das gentes!) *   Maria João Brito de Sousa – 08.10.2018 – 12.43h *     Soneto em verso hendecassilábico com rima encadeada