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NATAIS DOS TEMPOS IDOS...

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  Montei o meu presépio em tempos idos, Em tempos idos ergui meu pinheiro, Pois tudo tem seu tempo. Os diferidos Sempre serão sequelas do primeiro, Desses originais que estão perdidos; Nenhum tem o sabor do verdadeiro, Nunca o mesmo alvoroço dos sentidos Se faz sentir depois, no corpo inteiro... Não é hábito meu falar de mim, Ou, falando de mim, fazê-lo assim, Como se eu fora o centro deste mundo, Mas... se digo a verdade, o que fazer? Chegue, ou não, ao Natal que puder ter, Nenhum será igual aos do Dafundo...(*) Maria João Brito de Sousa – 01.12.2017 – 11.21h (*) Cruz-Quebrada, Dafundo – Antiga Freguesia do Concelho de Oeiras, extinta pela reorganização administrativa de 2012/2013, sendo o seu território integrado na União de Freguesias de Algés, Linda-a-Velha e Cruz-Quebrada/Dafundo.  

CONVERSAS DE MÃE PARA FILHO

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  Correste encosta abaixo e não paraste Senão quando chegaste à beira mar; Decerto te esqueceste de abrandar E na espuma das ondas mergulhaste… Ainda me recordo que choraste Quando sentiste a rocha a penetrar Tua fronte molhada, a gotejar Da mesma espuma em que te aventuraste… Recordo um outro dia, há tantos anos, Em que sofrendo muito poucos danos Me vieste, a correr, pedir miminhos Mostrando uma equimose que ficou E, a seguir, - a dor logo passou! - Cobri-te o rosto inteiro de beijinhos…         Maria João Brito de Sousa           Li estas palavras de alguém que não consigo evocar com exactidão. Penso que terá sido Jorge de Sena;   "Um dia aprenderemos a libertar-nos da morte, morrendo contudo..."  

PALAVRAS DAS MINHAS MÃOS

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  Vieste tu, sarcástico e soturno, Com essas mãos terrenas, maculadas, Impor-me o teu amor de horas marcadas, Claramente insolúvel e nocturno.   Não sei que madrugadas me chamavam, Que, embora alvoroçada, desprezei As tuas mãos terrenas e sem lei, Mas sei que as minhas mãos se interrogavam;   Que lonjuras, que estradas lá virão? Que abrigos, que caminhos, que desnortes Te esperam nessas mãos que te procuram?   Eu escutei-as a elas, mas tu não… E que me importa a mim que tu te importes Se as palavras das mãos em mim perduram?           NA FOTO - Os meus cinco anos, na varanda da avó Maria Augusta, com a Nice.

A GRUTA DAS TREZENTAS CINQUENTA E SEIS PALAVRAS E UMA MEMÓRIA

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    Era uma vez uma gruta pequenina, escavada nas rochas da praia, quase coberta pelo mar na maré-cheia. Diz a lenda que, há muitos anos atrás, essa gruta foi uma mulher igualzinha a mim, igualzinha a nós todas… consta que tinha longos cabelos negros, daí as longas algas que, há uns anos, inevitavelmente assinalavam a entrada da pequena reentrância rochosa. Talvez vocês nunca tenham reparado nela, mas eu conheci-a pessoalmente há quase cinquenta anos, quando eu e o meu pai brincávamos aos espeleólogos em plena costa do Sol… “Diz a lenda…”, digo eu, que era diferente das outras grutas. Não porque fosse maior, mais profunda ou muito diferente de todas as outras… mas era uma gruta tão especial que nunca a consegui esquecer. “Diz a lenda…”, digo eu, que era uma gruta fêmea. Mulher, sem dúvida, e indubitavelmente solitária por opção. De forma aparente, claro está, pois recordo-me muito bem de, tanto eu como o meu pai, sabermos, com s...

AO LONGO DE MIM...

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      Nesse “ao longo de mim” que te ofereci No breve-imenso instante em que fui tua, Eu, mulher de ninguém, irmã da lua, Despojei-me de mim p`ra estar em ti.   Foi ao longo de mim que recebi O que de ti nasceu em mim que, nua, Calava a solidão absurda e crua Das horas de cantar que então perdi.   Tu, que ao longo de mim nunca encontraste Aquilo que “era” em mim pr`além de mim E que assim te perdeste do meu eu,   Vê que, ao longo de mim, também mudaste E se não me encontraste até ao fim Foi decerto por quereres um fim só teu…    Imagem - "Les Racines du 20éme Siécle"                         Maria joão Brito de Sousa  

DESERTOS

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Tu falas-me das horas que eu perdi E eu não sei se as perdi ou se as ganhei... Penso que fui vivendo e que me dei Aos caminhos que sempre percorri...   Tu falas-me das horas que eu vivi, Eu falo-te das coisas que não sei. E, mesmo não as vendo, caminhei, E, mesmo não sabendo, pressenti...   Tu falas-me das glórias prometidas. Eu falo-te das coisas preteridas Por outras que ficavam bem mais perto,   Por coisas que pareciam dispensáveis, Mas que sendo pequenas, vulneráveis, Poderiam perder-se no deserto...     Agradeço a vossa presença no http://free-stile.blogs.sapo.pt/   Uma palavra de conforto será sempre bem-vinda.      

PERCURSO II e III

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I   Meu amor de água e sal, quanto eu sonhei Ter-te só para mim, ter-te só meu! Sonho de uma menina que cresceu Assim que a luz chegou e eu acordei...   As asas que cortaste (ou que eu cortei?) Quando enfim descobri que se perdeu Essa estranha promessa de Romeu À Julieta que em mim encontrei...   E o mundo, a vida, as noites acordadas Usufruindo absurdas madrugadas Em que te quis e nunca pude achar-te.   Tanta fome de mundo e eu... só sonho! O cansaço, a rotina, o Mal (medonho!) Erguendo-se entre nós, sempre a afastar-te...   III (O CAIS)   Há tanto céu em busca de ninguém! Tanto mar para olhar e ninguém viu O verdadeiro "Ser" nesse vazio Do corpo que a nós todos nos contém...   Tanto raio de luz que esse sol tem! E nem um, de entre vós a descobriu Nos dias em que tendo fome e frio Negando a própria luz, disse estar bem...   Mas são memórias, coisas que passaram, Cicatrizes (mais umas...) que ficaram Na sede de viver-se e fazer mais.   Já não olha pr`a trás. Em frente há vida...

O POETA DE LISBOA

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O POETA DE LISBOA *   Falou-vos de canoas e varinas, De marchas, manjericos e pregões. Falou-vos do seu mar, das orações, De velhas conversando nas esquinas *   Contou-vos das tabernas e cantinas, Do fado, das guitarras, das canções, Das palavras acesas, dos jargões Na voz mal afinada dos ardinas *   Falou-vos de Lisboa, das colinas, Das vielas, da Sé, das procissões, Das causas e razões mais pequeninas *   Que irão ultrapassando as previsões, Dos bares e das noitadas com "meninas", Dos homens, das mulheres e das paixões! *   Mª João Brito de Sousa  07.11.2008 - 12.45h     "O Velho Guitarrista" - Pablo Picasso Imagem retirada da internet

(DES)SINCRONIZAÇÃO

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Peço-te mil perdões por ter-te amado, Porque te amei demais... Eu, a Poeta, Pintei-te de outra cor, quis-te paleta, Quis-te só para mim, quis-te encantado...   Amar-te tanto assim foi sempre errado. Tornei-te meio-ser, alma incompleta, Tentando ir caminhando em linha recta Num círculo perfeito e pré- traçado...   Amei-te em cada gota do meu sangue, Amei-te até morrer, caindo exangue; Amei-te além de mim. Tão mais além...   Gravei na dimensão dos meus sentidos Um ideal de humanos desmentidos Que nos foi condenando. A nós, também...   Maria João Brito de Sousa - 2008       Imagem retirada da internet

UM POETA QUE (SE) PARTIU...

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  Era um estranho torpor feito de nada Que lhe invadia o ser ao sol-poente E ali ficava, amorfo, alheio, ausente, Da alma quase doente, de alquebrada...   Depois nascia a Lua. À hora errada Brotava-lhe a palavra, o verbo urgente E punha-se a plantar (verso ou semente?) No suporte irreal da madrugada...   Vestia uma "casaca de cometas" E percorria a casa, qual fantasma, C`o olhar apontado ao infinito...   No seu mundo de ideias inconcretas, Ele era omnipotente. Ó mundo, pasma! Partiu-se (e não partiu!), esse proscrito...   Ao Poeta António de Sousa Imagem - Fotografia do Poeta aos 16 anos.  

CÁ DENTRO E TÃO PERDIDO...

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      Sei de um mundo de luz onde os poetas, Despidos dos humanos preconceitos, Viajam pelo espaço entre os eleitos Como estrelas do céu, como cometas.   É por aí que a alma, essa inquieta, Etérea como a luz, esquece os defeitos E rodopia em círculos perfeitos De fórmula geométrica e secreta.   Eu sei de um mundo mágico e seguro Onde cada presente é um futuro, Onde a terrena dor não faz sentido.   Sei desse mundo porque já lá estive E a imagem del ´inda em mim vive Dentro de mim. Cá dentro e tão perdido.       Maria João Brito de Sousa - 27.06.2008 - 22.32h   Imagem retirada da internet      

TUDO O QUE EU QUERIA...

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  Ainda a minha fome era criança, Ainda olhos perdidos nas lonjuras, Ainda não na espera, que as procuras Se sobrepunham sempre à própria esp`rança.   Inda a vida girava numa dança, Inda o corpo pedia outras doçuras, Inda as formas instáveis, inseguras, Inda os cabelos presos numa trança,   Já as mãos, incansáveis, me guiavam, Entreteciam estrofes, desenhavam, Perdidas na missão que lhes cabia   E, à noite, já meus olhos se cansavam Sobre as palavras que os desafiavam Como se fossem tudo o que eu pedia...       Maria João Brito de Sousa - 16.06.2008 -22.38h