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A mostrar mensagens de julho, 2017

GLOSANDO ALBERTINO GALVÃO II (?)

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  TEMPO INSENSÍVEL Soneto em versos de 11 sílabas (os meus preferidos)   A noite caíra encobrindo a cidade E as poças que a chuva da tarde fizera! Da minha janela soprava-me a espera Enquanto embalava, no colo, a saudade   Inspirei, absorto, a fria humidade Soltei o soluço que em mim retivera Pensando que bom, oh meu Deus quem me dera Ter hoje e agora quinze anos de idade   Mas sendo insensível o tempo não trava A louca corrida que o relógio grava E segue somando minutos e anos   Indif’rente a sonhos desejos e planos Lá vai me lembrando que ele ao ir passando De mim vai também minha vida levando.   Abgalvão (in Palavras com Alma) BAIXOS-RELEVOS (em versos de onze sílabas métricas) “A noite caíra encobrindo a cidade” Que em sombras desvenda seus becos, vielas, Seus prédios mais altos e suas capelas Que, de alvas, brilhavam sob a claridade. “Inspirei absorta a fria humidade”, Chorei sob um céu sem lua, nem estrelas, Onde nada brilha... nem um rasto delas No intenso negrume que agora me i...

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE (cinquenta e nem sei quantos...)

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  COLHI CACHOS DE SOL   Colhi cachos de sol já à tardinha E juntei-lhe uma fruta bem madura Com água, gelo e gim. Fiz caipirinha Que fui bebendo em copos de ternura   No olhar ficou em jeito de adivinha O fulgor que o sol pôs nesta mistura Senti-me ao fim da tarde uma rainha Dourada como a mais bela escultura   Já a lua vestia de cambraia Descalça entrei nas ondas duma praia E apanhei nelas véus de renda fina   Cobri o rosto e andei sem rumo exacto Pensamento vazio olhar abstracto Nos pés descalços asas de menina   MEA 22/07/2017 ***********     FAMILIAR(IDADES)... “Colhi cachos de sol já à tardinha”, Gomos de lua cheia e reluzentes Bagos, desses que brotam duma vinha De que outros se embebedam, desistentes... “No olhar ficou um jeito de adivinha”; Sabes, de saber feito, ou só pressentes, De mim, quanto era meu? Que me mantinha Assim, perseverante, entre indif`rentes? “Já a lua vestia de cambraia” Quando, no horizonte, o sol desmaia E, fascinada, então, pelo poente, “Cobri o rosto e an...

AINDA GLOSANDO FLORBELA ESPANCA III

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  RENÚNCIA A minha mocidade há muito pus No tranquilo convento da tristeza; Lá passa dias, noites, sempre presa, Olhos fechados, magras mãos em cruz... Lá fora, a Noite, Satanás, seduz! Desdobra-se em requintes de Beleza... E como um beijo ardente a Natureza... A minha cela é como um rio de luz... Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada! Empalidece mais! E, resignada, Prende os teus braços a uma cruz maior! Gela ainda a mortalha que te encerra! Enche a boca de cinzas e de terra Ó minha mocidade toda em flor! Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"     AFIRMAÇÃO   “A minha mocidade há muito pus” No cantinho das coisas já passadas Que guardo, dia a dia acumuladas, Porque só a memória as reproduz...   “Lá fora, a noite, Satanás seduz!” Mas eu que, renegando almas penadas, Observo as gentes tristes e cansadas, Deduzo cada medo que as traduz;   “Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!” - Só fecho os olhos quando, atordoada, Possa o sono nublar-me a lucidez!   “Gela ainda a ...

EXPLICAR-VOS TUDO, NÃO SABENDO COMO...

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  Quero explicar-vos tudo e não consigo, Pois falha-me a palavra, o verso manca E quanto mais tentando ser-vos franca, Mais sinto que as razões morrem comigo, Pois se vislumbro o estro, esse estro antigo, Logo a seguir bloqueio numa “branca” E o poema que nasce, oscila e estanca Como se fosse um estranho, um inimigo... Sei estar precocemente envelhecida, Falha de vista, pobre e tão dorida Que nem vou tendo forças pr`a teclar, Mas como hei-de afirmar que sou poeta, Não sendo mais do que uma sinesteta Que por tudo se deixa atrapalhar? Maria João Brito de Sousa – 08.07.2017 -12.19h      

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE XLVII (?)

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  FANTASIA DE NUVEM   Sou irmã dessa nuvem que chovia Na tarde entristecida dum poeta Escura e negra sem alma nem poesia Escorrendo pelo bico da caneta   E quando o dia é escuro a noite fria O luar é um fogo que inquieta Fere-me os olhos, tira a fantasia Eu viajo na cauda dum cometa   Pelas crateras negras desta vida Em jeito duma névoa atrevida Que tapa até a luz da lua cheia   E pela madrugada escorrem versos Nos chuviscos que caem bem dispersos Por entre velhas casas duma aldeia   MEA 5/07/2017 --------------------------------------- HÁ-DE PASSAR... “Sou irmã dessa nuvem que chovia” Sobre um chão sequioso e tão crestado Que nem uma só planta ali nascia Porque cada raiz tinha murchado “E quando o dia é escuro, a noite fria” E mesmo o céu parece ter secado, Nem uma só semente brotaria Se não fosse esse chão dessedentado... “Pelas crateras negras desta vida”, Tarde ou cedo, uma nuvem, comovida, Há-de passar chorando, há-de passar, “E pela madrugada escorrem versos” Sobre os torrões inf...