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A mostrar mensagens de janeiro, 2019

DA GRALHA - A Bainha Descosida

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DA GRALHA (A Bainha Descosida) * Das gralhas que passam vestindo sorrisos, Dos gestos precisos que, acaso, as refaçam, Das névoas que embaçam contornos concisos Dos passos nos pisos que nos ameaçam * Se súbito passam a lisos, tão lisos Que aos próprios sorrisos ali despedaçam Sem que outros renasçam. Sisuda e sem siso, Compõe longo friso, a gralha, se a caçam. * Letrinha a letrinha me força a escrever, Só para a não ver a tornar-se rainha Da escrita que é minha, enquanto eu puder. * Mas se eu a esquecer e escrever mais asinha, A maldosa gralhinha vai sem se deter Esgaçar, descoser, do vestido, a bainha. *   Maria João Brito de Sousa – 28.01.2019 – 11.05h

ORA PAPOILA, ORA FRAGA II

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ORA PAPOILA, ORA FRAGA II * Não me levem as asas. Pouco ou nada Me vai restando do que em tempos tive E nem a rocha bruta sobrevive Caso em cascalho seja transformada * Se progressivamente triturada Até que recidive e recidive Na total frustração que a prenda e prive De ser flor, sendo rocha assoreada. * Devo-me à vida até que a morte chegue E, antes que soe a hora da partida, À vida entrego o que me foi entregue * Multiplicada, se diminuída, Entre o que me esclareça, o que me cegue E aquilo que colhi, sendo colhida. * Maria João Brito de Sousa – 26.01.2019 – 12.33h       Imagem retirada  daqui

SONETO ESCRITO PARA UM DESAFIO PROPOSTO NO "HORIZONTES DA POESIA"

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REFLEXÃO EM QUEDA LIVRE * Reboa qual aço e desfaz-se em brancura, Caindo sem cura do alto do espaço E mal me refaço de vê-la tão pura Entro na aventura, descrevo-a num traço, * Como se, em abraço, lhe ousasse a candura E na partitura soltasse esse laço... Sei bem que o não faço, que o sonho não dura, Mas sonho é procura e sem sonhos não passo. * Se eterna, se breve, depressa, depressa Sei que recomeça, que faz o que deve, Qual branca de neve que não desfaleça * E bem reconheça que tudo prescreve; Tão grande e tão leve... apenas promessa, Ou firme confessa de a quanto se atreve? * Maria João Brito de Sousa – 20.01.2019 – 12.18h

RISCOS E QUEDAS

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RISCOS E QUEDAS * Homem e mulher a galgar seus caminhos Juntos mas sozinhos, que tal se requer A quem se atrever a dar alguns passinhos Pra fora dos ninhos, depois de nascer. * Se os não conhecer e nem mesmo os vizinhos Souberem dos linhos que podem tecer Dos mais comezinhos fiozinhos que houver No quanto nascer de seus gestos asinhos, * Talvez vão passando, passando invisíveis Ou mal discerníveis no meio do bando Que vai aumentando e traçando impossíveis * Nos velhos desníveis que vão confrontando No como e no quando que os tornam passíveis Das quedas temíveis que alguns irão dando. * Maria João Brito de Sousa – 25.01.2019 – 10.56h   Imagem retirada  daqui

TEMPO HUMANIZADO

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TEMPO HUMANIZADO * Dois velhos, tão velhos que o Tempo os media Por noite e por dia, pedindo conselhos Que espelhos e espelhos, tão só espelhos via Se os surpreendia, doridos de artelhos, * Cobrindo os joelhos na tarde mais fria, Que o frio que sentia era o frio desses velhos E os mesmos joelhos cansados trazia O Tempo que ouvia, dos homens, conselhos. * Ah, Tempo irmanado com quem te resiste, Ser velho é tão triste... ou estarás errado Ao ver-te espelhado em quem nunca viste? * Aquilo que existe de certo e provado No texto inventado em que a Musa me assiste, É que me sorriste, Tempo humanizado. * Maria João Brito de Sousa – 24.01.2019 – 07.00h Imagem retirada  daqui

A METÁFORA DO LIMOEIRO

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A METÁFORA DO LIMOEIRO * Repara que a doce acidez dos limões Não teve intenções de fosse o que fosse E, sendo precoce, releva as razões Das repercussões de quem dela troce. * Mal tomara posse, florira em botões Sem provocações. E conquanto remoce, Mais acre, ou mais doce, mantém os padrões Sem mais ambições que, nestes, sagrou-se. * Verdes e viçosos serão os pomares Se tu os regares quando sequiosos; Tais serão teus gozos, assim que os provares * E se o não negares, mais e mais gostosos Frutos bem cheirosos perfumando os ares, Serão, do que ousares, filhos extremosos. * Maria João Brito de Sousa – 23.01.2019 – 14.43h  

EI-LA A SER CASA E FOCO E FORTALEZA

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EI-LA A SER CASA E FOCO E FORTALEZA * Ei-la a ser casa e foco e fortaleza, Erguendo-se dos braços da cidade, Demarcando-lhe as veias com firmeza, Nutrindo-a de calor, de intimidade, * Desse supremo bem que hoje despreza Tudo quanto a viola, castra, invade, Tudo o que, vindo pôr-lhe pão na mesa, Lhe cobra o preço da privacidade. * Ei-la a ser casa, ainda que invadida Por olhos que a verão comprometida Por faltas que não são nem foram suas. * Ei-la a ser fortaleza porque o sabe E agradece sorrindo, inda que acabe Desfeita em mil estilhaços pelas ruas. * Maria João Brito de Sousa – 22.01.2019 -11.34h Imagem retirada  daqui

AQUELE TEU VERSO PERDIDO

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AQUELE TEU VERSO PERDIDO *     Àquele verso que se te escapou Enquanto passeavas na cidade, Julgo ter sido eu quem o achou No chão caído e morto de saudade * Desse poema que nem começou Por culpa sua, ainda que a vontade Lhe pedisse uma urgência que calou Porque perdera a oportunidade. * Quis devolver-to mas, fragilizado, Dissolveu-se inteirinho ao ser tocado Embora eu lhe tocasse tão de leve, * Que simulavam seda, estes meus dedos; Versos perdidos, tal como os segredos, Estão condenados a ter vida breve. * Maria João Brito de Sousa  21.01.2019 – 14.12h * Ao soneto “Aquele Verso”, de Joaquim Sustelo.

MERA ILUSÃO

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MERA ILUSÃO * Um vinco suspeito no cetim da frase, Destrói pela base aquilo que aceito Sobre tal defeito. Passo à nova fase; Que nada me atrase, pois nada é perfeito * E eu fico sujeito a que mais me arrase Se tão só vir gaze num modelo eleito Tecido a preceito por mão kamikaze Que se revoltasse de o ver tão escorreito. * Uma imperfeição assim, tão pequena, Não vale uma pena da minha atenção Sem hesitação, permaneço serena * Olhando essa amena, pequena infracção Com que a má visão desconcerta e me acena; Que espanto, ou que pena! Era mera ilusão! * Maria João Brito de Sousa – 19.01.2019 – 12.25h Soneto em verso hendecassilábico com rima interior encadeada   Imagem retirada  daqui

DEZASSETE DE JANEIRO

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DEZASSETE DE JANEIRO * Irei desintegrar-me em dez segundos Após a conclusão do que decreto Aqui, preto-no-branco, a branco e preto, Em caracteres enormes e rotundos * Quais vermes a soltar viscos imundos Sobre o que já foi sonho e foi projecto E agora pode ser o mais abjecto Dos saldos sujos e nauseabundos. * Nada de novo aqui, neste poema; Bem melhor abordou o mesmo tema, Henriques Britto, o bom soneticida * Que no seu Dezanove de Janeiro Fuzilou um soneto passageiro, Meteu-se no seu carro e fez-se à vida. * Maria João Brito de Sousa – 17.01.2019 – 14.09h Ao soneto “19 de Janeiro”, de Paulo Fernando Henriques Britto, Brasil.   Imagem retirada  daqui

ARPÉU

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ARPÉU * Por tudo, por nada e por coisa nenhuma, A voz se me esfuma, dolente, abafada, Morrendo arrastada na franja da espuma Que uma onda costuma bordar, se espraiada * Na areia molhada em que a voz se presuma O véu de uma bruma jamais desvendada, Tão espessa e velada que nada ressuma Da alvura que assuma quando desfraldada. * Mas do espesso véu que aqui vos descrevo Se a tanto me atrevo, sou vítima e réu, Pois não sendo meu, sempre a todos o levo * E dói-me o que escrevo, mas lanço o arpéu, Pois não posso eu pagar quanto devo Senão neste enlevo convulso de ilhéu. * Maria João Brito de Sousa – 17.01.2019 - 11.33h   Soneto hendecassilábico com rima interior encadeada     Imagem retirada  daqui

"ERTO A OYIDDNIO E UENTGLAN"

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“ERTO A OYIDDNIO E UENTGLAN”* (Soneto a esta sms, por mim enviada) * Não sei por que decifro a voz das horas No infindo rumorejo dos instantes, Nem a razão de ser de umas demoras Que entre uns e outros sejam demarcantes * No propagar de frases detentoras De conteúdos bem ou mal soantes, Conforme ecoem óbvias e canoras Ou, bem pelo contrário, tão distantes * Que se nos mostrem muito inacessíveis Mostrengos colossais, armas temíveis Concebidas tão só pra confundir... * Contudo, oiço-as a todas; intangíveis Podem vir a tornar-se bem legíveis Pra quem queira aprender a traduzir. * Maria João Brito de Sousa – 16.01.2019 – 12.24h *”Erto a oyddnio e Uentglan” - Estou a oxigénio e Ventilan

TEMPO

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QUEM CANTA A VIDA NÃO SABENDO AMÁ-LA?

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QUEM CANTA A VIDA, NÃO SABENDO AMÁ-LA? * Quem canta a vida, não sabendo amá-la E quem modula um verso que não ama, Se em espanto se lhe acende como chama E se, à chama, não há como apagá-la? * Se mal começa o poema a chama estala E sobre tudo e nada se derrama, Como não entender que se proclama Amor, onde a palavra se não cala? * Ah, se o reduzo à literalidade, Como hei-de conceder-lhe a liberdade De ainda o ser, depois de traduzido? * Se o prendo entre erotismo e sedução, Como livrá-lo, então, da sensação De haver usado, amado e destruído? * Maria João Brito de Sousa – 13.01.2019 – 13.00h

A FONTE DOENTE

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A FONTE DOENTE *   Qual “Fontana Malata” vou tossindo E que Aldo Palazzeschi me perdoe Por “fontana” e “malata” me ir sentindo, Ainda que diversa a voz me ecoe *   Do “clof, clop, cloch”, resumindo O som que a fonte faça, o som que entoe Enquanto assim o vai reproduzindo Ouvido que o transcreva e não destoe. *   Tanto a fonte se engasga e regurgita Que, ao poeta, um poema então suscita, Piedoso, solidário e fraternal   * Quanto a mim, que me espelho nessa tosse, Antes quisera que só dela fosse Um som que, ao igualar-nos, nos faz mal. *     Maria João Brito de Sousa – 13.01.2019 – 13.43h       Inspirado no poema “La Fontana Malata” de Aldo Palazzeschi, Itália, 1885-1974

COISAS DE NADA

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COISAS DE NADA * Notícias sobre mim, coisas de nada; Sinto uma dor no peito quando tusso E chegou-me uma tosse desalmada Que, sem pedir licença e sem rebuço, * Me deixou tão dorida e tão prostrada Que cada verso soa qual soluço, Cada estrofe me sai desafinada E só em quase-nadas me esmiuço... * No estado em que me encontro, de momento, Não tenho musa, força, nem talento Para melhor escrever seja o que for, * Tudo o que faço é tossir e espirrar, Mas sei que vos não vou contagiar E talvez amanhã esteja melhor... * Maria João Brito de Sousa – 12.01.2019 – 11.21h   Imagem retirada  daqui

SE A NAVALHA NOS FALHA, OSCILA E CAI...

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SE A NAVALHA NOS FALHA, OSCILA E CAI... * Se, no fio da navalha caminhando, A navalha nos falha, oscila e cai, Tudo estremece, tudo se nos vai E sem asas, nem chão vamos ficando... * A que nos agarramos se, cortando, Até o gume nos desmente e trai O tanto que nos nega e que subtrai Ao pouco que antes fomos avançando? * A própria musa, desasada fica, A corda, retesada, já não estica E os versos, um a um, caem também * Dessa pauta invisível que os prendia Ao fio duma navalha que os servia E que nunca mais serve a mais ninguém. *   Maria João Brito de Sousa 11.01.2019 – 12.16h ***   Imagem retirada  daqui  

TUDO BEM?

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TUDO BEM? * Tudo bem? Menos mal? Assim-assim? Vai-se escrevendo, enfim, vai-se escrevendo... Mais do que a “ir andando”, sigo crendo Que só enquanto escrevo adio o fim * E nunca guardarei só para mim A frase que aqui deixo e que defendo Como a que me traduz neste ir vivendo Ao qual todos os dias digo sim. * Dissesse, “vou andando...”, e mentiria, Porque mal empreendo uns breves passos, Mesmo que tendo apoio e companhia * E enquanto escrevo, embora de olhos baços, Ainda vou chegando aonde queria, Conquanto já semeie uns erros crassos. * Maria João Brito de Sousa – 10.01.2019 – 12.50h   Imagem retirada  daqui

SONETO ACABADO DE ESCREVER PARA UM "SONETO JÁ ANTIGO" DE ÁLVARO DE CAMPOS

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 SONETO ACABADO DE ESCREVER PARA UM “SONETO JÁ ANTIGO”, DE ÁLVARO DE CAMPOS * Raios me partam que tanto produzo Sonetos e sonetos e sonetos Uns atrás de outros, sem fazer projectos Sobre os demais projectos, que recuso. * Se pra meu uso tanto e tanto abuso De ininterruptos versos obsoletos, Decerto não acuso outros objectos Quando a simples objecto te reduzo, * Nem vou pedir a Daisy que, por esmola, Diga esconder a dor que não se evola Do seu espontâneo gesto costumeiro * E não há Cecily que em mim previsse Mais do que alguns minutos de chatice, Ou a chatice extrema, a tempo inteiro. * Maria João Brito de Sousa – 08.01.2019 – 18.13h   Imagem retirada  daqui

QUEM SOU? QUEM SOU?

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QUEM SOU, QUEM SOU? * Sou contra-sensual por natureza; Frequentemente rio quanto baste E pouco ou nada existe que me agaste Ainda que me insultem com torpeza * Ou, com habilidade e subtileza, Alguém me considere um mero traste, Mas pode acontecer que hoje me afaste De quem me julga ter presa e bem presa. * Quem sou, quem sou? Se agora perguntaste Por que razão de tudo saio ilesa, Dir-te-ei que nos dias me encontraste, * Que nas noites me achaste sempre acesa, Que sou aquela a quem nunca negaste Lugar na cama e um prato sobre a mesa. * Maria João Brito de Sousa – 08.01.2019 – 13.49h Imagem retirada  daqui