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A mostrar mensagens de abril, 2018

UM POEMA QUE NÃO É UM SONETO

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  MOAXAHA Eis o meu fruto. Foi este e só este O que te alimentou enquanto o leste. Poderá ser-te doce ao paladar Ou, ao contrário, pode-te amargar, Mas certa estou que te há-de alimentar Ainda que a acidez o torne agreste. Alimentou-te, e bem, quando o mordeste! Outros não posso dar-te, que os não tenho; Só estes brotam deste velho lenho Que embora frágil, tortuoso e estranho, Te fará recordar o que esqueceste, Se acaso te esqueceres de que os comeste. "Pelos seus frutos os conhecereis" *Citando a Bíblia – Novo Testamento - Mateus 12:33 Maria João Brito de Sousa – 29.04.2018 - 23.28h     Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia

MÃO(S) II

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  MÃO(S) II A mão que molda o barro, ao barro torna Pra que não falte barro às mãos por vir, Pra que haja novas mãos a ressurgir, Pra que varie o barro, ao tomar forma. Abençoada a mão que foge à norma E se recusa ao gesto de oprimir; Abençoada a mão que resistir Moldando o mesmo barro a que retorna. Olho esta minha mão. A tua. A nossa. Sei que há-de fazer tudo quanto possa Pra que outras sobrevenham depois dela. À minha mão velhinha, em tempos moça, Já o tempo a descarna e a desossa Sobre um barro que a fez menina e bela. Maria João Brito de Sousa – 26.04.2018 – 15.02h  

QUASE, QUASE, QUASE...

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QUASE, QUASE, QUASE... *  Quase, quase, quase... que ninguém se atrase Na primeira fase desta caminhada, Porque é longa a estrada, fica longe a base E, caso se arrase, não serve pra nada * Quase na chegada, quase, quase, quase, No perfeito envase da planta regada, Força nessa enxada, ninguém se desfase Que está mesmo quase, a nossa empreitada *   E, neste momento, está quase cumprida Esta nova vida que se solta ao vento Se inda sobra alento, depois da corrida * Porque repartida, tentas como eu tento E para o mais lento tem de haver saída: Amem quanto é vida, cumpram-se em talento! * Maria João Brito de Sousa – 22.04.2018 – 10.28h * À MEA e a todos os poetas. Aos sonetistas. A Abril. À VIDA. Escrito a correr porque estou de saída. Peço desculpa pelos eventuais erros métricos, sintáticos e/ou morfológicos.  

A TODOS OS CRAVOS DE ABRIL QUE ESTÃO POR VIR

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  Quase a vinte e dois, espero o vinte e cinco. Espero com afinco que venha depois. Quanto mais me dóis, menos rio, mas brinco; A porta, no trinco, a canga sobre os bois, Sejamos heróis! Eu já pouco trinco E caibo num vinco de quanto constróis, Tu, que o trigo móis e que suas a pingo. Eu, sei que não vingo. Tu, ages por dois. Estou velha e doente. Tu trabalhador, Jovem produtor, seguirás sempre em frente, Que ele há muita gente dando o seu melhor. Também o pior hás-de ver. Sê prudente, Que ao mundo, demente, sobra engano e dor E eu já sei de cor que nada é transparente. Maria João Brito de Sousa – 21.04.2018 – 12.57h  

O FEITIÇO DA ÁGUA

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    O FEITIÇO DA ÁGUA     Cobriste-me de dogmas e de ideias, Ingénuas, umas, outras, consistentes. Conheces as razões por que as semeias E a ti te contradizes, se as desmentes.   À luz, porque a procuras com candeias? Às trevas, se as houver, por que as consentes? Nas malhas que teceste, por que enleias Fios que eu desenredei usando pentes?   Vens cobrir-me de um pó viscoso e espesso, Mas a minha vontade não tem preço E bem me basta o pó de cada dia.   Leva contigo o visco que te sobra, Que eu não sirvo de pau pra toda a obra. Antes serei maré. Mesmo vazia.           Maria João Brito de Sousa – 19.04.2018 – 14.07h       Imagem retirada da net, via Google      

"IMAGINE"

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 IMAGINE * Imagine-se a dor da companheira, Da mãe que o concebeu, da sua irmã, A angústia da família, toda inteira, Que foi vê-lo partir nessa manhã, * Imagine-se a bela cigarreira De que Pessoa fala, intacta e vã, Caída mesmo ali, à sua beira, Como um grito de paz na terra chã. * Imagine-se o todo, em pormenor; A surpresa, a revolta, o espanto, a dor E o buraco negro que os sucede * Imagine medir, se capaz for, A grandeza, o tamanho desse horror Que eu tenho para mim que se não mede...  *   Maria João Brito de Sousa – 16.04.2018 – 13.11h *  NOTA - Na sequência da leitura de um poema homónimo de António Manuel Esteves Henriques

SOB ATAQUE (14.04.2014)

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  Um míssil corta o ar. Como sorrir? Como saudar o sol num dia assim, Como parar para pensar em mim, Como saber se vai haver porvir? É disparada a bomba. Se eu fingir Que nem sequer a vi - mas vi-a, sim!- Talvez a minha paz não chegue ao fim... (dirão alguns, porque eu não sei mentir) Da minha grande, imensa pequenez, Assaltam-me as perguntas que talvez Também te tenhas feito neste dia. Olho através de um denso nevoeiro E, nada vendo, vejo o mundo inteiro Mergulhado na dor de outra agonia.   Maria João Brito de Sousa – 14.04.2018 – 12.44h     Imagem "emprestada" pelo blog conversaavinagrada.blogspot.com  

PERMANÊNCIAS

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  Atrás das pegadas, sigo passo a passo, Negando o cansaço, sem horas marcadas, Nem rotas pensadas, pisando o sargaço, Meu rasto e meu traço nessas caminhadas   Das tardes passadas. Do que já não faço, No tempo e no espaço, restam, recordadas, Todas as passadas de umas pernas de aço, Pedaço a pedaço, velhas, desgastadas.   Olho o mar distante. Mudou de lugar E veio morar, líquido, exuberante, No poema errante que estou a criar.   Quem o procurar, não crê que o gigante Fique um só um instante onde o instalar, Mas dou espaço ao mar se acuar em vazante.     Maria João Brito de Sousa -13.04.2018 – 20.13h       Na sequência do soneto "Ausências", de MEA

FADO CHOVIDO

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  FADO CHOVIDO   Quando a Chuva me leu, fez-se uma aberta, Deixou que o Sol sorrisse por instantes E aqui estou eu, tão seca quanto antes Do apelo ser lançado em rota incerta.   Porque um apelo foi, nunca um alerta Ao coração das águas abundantes, Foram, as nuvens, meigas e galantes Pra com uma poeta mal coberta.   Agradeço-te, ó Chuva, a gentileza; Tal cuidado revela uma grandeza Maior que a que eu podia ter esperado.   Não sei qualificar tanta nobreza, Nem poderei sentar-te à minha mesa, Mas posso aqui compor-te um novo fado!       Maria João Brito de Sousa – 12.04.2018 -17.01h   À MEA/Chuva

ASSIM QUE ME (IN)CONCLUO

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    Num segundo construo e desconstruo, noutro, revejo a coisa construída à custa de um suor que já nem suo, de mim, se por mim mesma fui seguida. Às tantas... quem sou eu, se apenas fluo? O que resta de mim se diluída nas palavras que penso, exalto, intuo, sou mais de ideias feita que de vida? Cobre-me o corpo inteiro a voz que estuo e é esta mesma voz, de que usufruo, que urge a tentar colar-me, se partida, Que, caco a caco, vem manter-me unida, que me chama criança quando amuo e me renova, assim que me (in)concluo. Maria João Brito de Sousa – 10.04.2018 – 15.30h  

NAQUELA NOITE

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  Naquela noite, toda a noite riste. Eu, mera narradora do que observo, Observava-te inteiro, nervo a nervo, Curiosa, inda que absorta, inda que triste. Naquela noite, nem sequer me viste, Não foste o meu senhor, nem o meu servo, Foste a razão de ser do que eu preservo E o pouco que de ti em mim persiste. Não sei do que falaste. Eu não falei. Olhei-te tanto quanto a mim me olhei No espelho do teu sono e do teu riso E quanto mais te olhava, mais preciso Se me tornava olhar-te como olhei, Nessa noite em que riste e eu não chorei. Maria João Brito de Sousa – 10.04.2018 – 11.11h  

UM FADO À MINHA PORTA

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    UM FADO À MINHA PORTA Quando um fado vier bater-me à porta Não lhe peço respostas prá razão Que faz da voz magoada em que se exorta Mais do que simplesmente uma canção. Se a sua silhueta se recorta Na escada onde se apoia ao corrimão E vislumbro a guitarra que transporta, Abro-lhe a porta, não lha fecho, não. Talvez, por uma tarde, conversemos De coisas que ninguém tem de saber, Talvez me contagie e então cantemos Aquilo que em poema acontecer, Ou talvez simplesmente ambos sonhemos Até Morfeu chegar pra nos render.   Maria João Brito de Sousa – 06.04.2018 – 11.10h   NOTA – Na sequência do soneto “Há Algo no Fado”, da autoria de MEA.  

SAUDAÇÃO MATINAL ÀS ÁRVORES CAÍDAS

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    SAUDAÇÃO MATINAL ÀS ÁRVORES CAÍDAS     Bom dia, ó belas árvores vencidas Pla nudez dos canteiros da alameda. Bom dia! Que a memória me conceda Saudar-vos, já que não sereis esquecidas,   Lembrar-vos, já que fostes destruídas E mais nenhuma voz vos arremeda Num protesto de linho, uns fios de seda Que em coro renovassem vossas vidas...   Bom dia, ó salas verdes e frondosas Das aves e das heras mais viçosas Que todas as manhãs saudava, dantes.   Saúdo as vossas palmas já saudosas, Os troncos e as raízes caprichosas... Adeus e até sempre, ó bons gigantes!     Maria João Brito de Sousa – 04.04.2018 – 11.01h   (Imagem retirada do Google)