Mensagens

A mostrar mensagens de agosto, 2018

JANGADA

Imagem
   JANGADA * Olhei-te em tempo incerto, à hora errada; Inda o dia tardava a despontar, Já eu te olhava como se esse olhar Pudesse dar-te tudo, sem ter nada. *   Olhei-te nesse alvor de madrugada, De manhã, à tardinha e, ao deitar, Já esquecera que havia todo um mar Ao qual eu prometera uma jangada. *   Para te olhar, desconstruí-me inteira E esqueci-me do mar, que nem ribeira Cheguei a ser, sem vagas, nem marés... * Nessa jangada nunca mais pensei, Se não quando de olhar-te me cansei E vi que a tinha inteira sob os pés. *   Maria João Brito de Sousa – 11.08.2018 – 12.19h          

FUNDADO EM PENAS - Empenas

Imagem
  FUNDADO EM PENAS (Empenas) * Ó bela e crudelíssima Natura, Na ausência dos conceitos MAL e BEM, Cada espécie se espraia e se te apura Segundo o que funciona e que a mantém * E quando, dura, a vida te conjura A seres tudo o que à VIDA mais convém, Não hesitas e sonhas, criatura Que nem sequer a morte te detém... * Sim, venho-te dizer não ser viável Singrar perfeita, a vida, e que é expectável Que nem sequer percebas que a condenas * Se lhe auspicias toda a perfeição Que trazes, sei-o bem, num coração Esquecido de dever fundar-lhe empenas. * Maria João Brito de Sousa – 26.08.2018 – 18.07h

SEGUNDA CARTA ABERTA A UMA MUSA INEXISTENTE

Imagem
  SEGUNDA CARTA ABERTA A UMA MUSA INEXISTENTE * O que é feito de ti? Por que partiste? Nunca a ti te falhei; mesmo doente Dei-te toda a atenção que me pediste E se uma vez ou outra te fiz frente * Foi porque demasiado me exigiste E, às tantas, te tornaste prepotente... Repara que o poema em mim persiste, Embora a tua voz lhe esteja ausente, * O verso seja fraco e lasso e triste E apenas pra mostrar que não desiste Teime em dizer-se, assim, penosamente, * Como quem perde a força, mas resiste, E admite que, afinal, a musa existe, Mesmo quando lhe chama inexistente. * Maria João Brito de Sousa – 26.08.2018 – 11.31h    

NAUTILUS E A BARCA

Imagem
  NAUTILUS E A BARCA * Vós que credes num demo em que não creio E que tremeis de infernos e castigos Pois receais quanto eu já não receio. (concretos, bem reais, sobejam perigos) * Vós que espreitais por frestas e postigos E que implorais, do horrendo, o menos feio, Mas sonhais com fortunas por sorteio Sem parar pra pensar. Vós, meus amigos, *   Vós que me sois iguais, diferentes sendo À conta do que a alguns nos foi movendo E, por outros, passou sem deixar marca, *   Que temeis desse demo que eu não temo? (e evoco ainda o Nautilus de Nemo enquanto solto a amarra à minha Barca) * Maria João Brito de Sousa – 17.07.2018 -14.22h Às minhas infantis memórias de leitura de Júlio Verne  

AS QUATRO TORRES DA ALAMEDA

Imagem
AS QUATRO TORRES DA ALAMEDA * Adeus, minha alameda sem palmeiras Onde tanto edifício vi nascer... Adeus, adeus, que o tempo é de beber As ondas do meu Tejo sem fronteiras. *     Assombrando o meu prédio, sobranceiras, Erguem-se quatro torres. Que fazer Se desde a prima-pedra as vi crescer Até se me tornarem companheiras? *   Adeus, pedras pisadas, repisadas, E mais que desgastadas por meus pés. Agora estais-me vós a ser pesadas, *     Porque já vos não piso e estou rés-vés Com a terra onde fostes calcetadas Em chão roubado à concha das marés. * Maria João Brito de Sousa -17.07.2018 -20.53h * Na sequência da leitura do soneto “Adeus à Rua Castilho” de Ribeiro Couto (1898-1963)    

"S" de SONETO

Imagem
  “S” de SONETO * Sublime silvo, sopro sussurrado, Suave solfejo seco ou sibilante; Sorvo-te o simbolismo segredado, Sofro-te a sedução simbolizante. * Subliminar, sopraste-me o sondado, Secreto e só, sem som sintonizante, Supino, singular e separado, Sumindo-te, sereno e sublimante. * Soberano soneto, suavemente Segredas sempre (a)ssim, sociavelmente, Suavíssimos, soberbos sons sentidos. * Sei-te sempre sincero e silencioso Secundando-me o sonho, são, sedoso, Secular  sob os sons subentendidos. * Maria João Brito de Sousa – 24.08.2018 – 14.30h

FÁBRICAS DE DEUSES

Imagem
  FÁBRICAS DE DEUSES * Nas fábricas de deuses passam lentas As minuciosas horas das rotinas Desdobrando-se infindas em sebentas De dogmas, penitências e doutrinas, * Ora pregando amor, ora agoirentas, Induzindo a posturas assassinas Muitas vezes terríveis e sangrentas, Que alguns nos dizem ser acções divinas. *   Raramente o produto fabricado É mais que um pensamento alienado, Embora muitos, muitos nunca entendam *   Que o verdadeiro amor é bem diferente Dessoutro que é vendido a tanta gente Nas lojas que alguns doutos recomendam. * Maria João Brito de Sousa - 24.08.2018 – 11.36h     Imagem retirada da net, via Google  

CHARADA POÉTICA

Imagem
  CHARADA POÉTICA (soneto sem as vogais A, I e U) * Este pobre soneto de colete Sente-se preso, torpe, tolo, lento; Conhecedor do jogo, só promete Escrevê-lo se o tempero for fermento. * Retomo o jogo, como me compete, E se o som mo concede, logo o tento... Porém nesse momento se derrete, Como se gelo sob o sol sedento. * Revejo o Tejo. Doce Tejo nosso... Norte? Nordeste? Onde me perco, posso Esconder-me desse Tejo sofredor? * E prevendo esse Tejo neste jogo, Se o vejo só rochedo e ferro e fogo, Como crer nele e tê-lo por senhor? * Maria João Brito de Sousa – 04.08.2018 – 09.24h  

UMA TARDE NO JARDIM

Imagem
  UMA TARDE NO JARDIM – Sem a letra “E” * Logo após as crianças saltitando Virão os pais formando casalinhos. Tudo junto, à distância, forma um bando Pousando pouco a pouco nos banquinhos   * À sombra do carvalho ou do arando. Arrulham pombas, cantam passarinhos No jardim, junto ao lago volitando, Quais magnólias traçando altos caminhos.   * Um pai, junto do filho já com sono, Toca um braço tombado ao abandono. A hora do jardim acaba agora.   * Vai nos braços do pai, vai a dormir, Mas inda brinca aos sonhos a sorrir, Ainda rindo, inda ao sabor da hora...   * Maria João Brito de Sousa – 05.08.2018 -19.04h

CONFRONTOS

Imagem
  CONFRONTOS * Nascem versos a torto e a direito; Aonde o dedo pouse, o verso emerge, Inexplicado, urgente e com defeito, Ou sem defeito, quando em som converge. *   De carne, sangue e nervos sendo feito, De nervos, sangue e carne não diverge E pulsa-me nas veias que são leito Do mesmo sangue que este corpo asperge. *   Nascem-nos versos sem pedir licença; Virámos costas, demos-lhes dispensa E, de repente, sem nos darmos conta, *   Nasceu mais um... mais um que, em rebeldia, Se impõe, nos contradiz, nos contraria, Nos conquista a vontade e nos confronta. *   Maria João Brito de Sousa – 21.08.2018 – 18.50h Na sequência da leitura do soneto NASCEM VERSOS, de MEA (escrito à pressa. Pode conter erros ortográficos, sintáticos, métricos ou tipográficos)

FORMA... E CONTEÚDO

Imagem
  FORMA... E CONTEÚDO * Imputo à minha própria estupidez Alguma culpa; a que morrer solteira! Não fiz asneira, tendo feito a asneira De não prever a eterna cupidez. *   Pra tudo o mais me sobra a lucidez Mas, neste ponto, não vejo maneira De detectar a abjecta ladroeira Se mascarada, como dessa vez. *   Não vejo poesia no que digo, Nem vejo poesia no que escrevo... Só no compasso de um formato antigo *   Reconheço o poema a que me elevo E a forma em que me encontro, em que me abrigo, Pra falar do que devo e que não devo... *   Maria João Brito de Sousa – 18.08.2018 – 15.23h

O SONETO E EU

Imagem
  O SONETO E EU * Desde a mais tenra tenra idade o conheci, Que meu avô paterno era escritor E os tecia, ainda com fervor, Nesse tempo já gasto em que nasci. * Se bem o conhecia, mais temi Sua complexidade e seu teor... Chamavam-me poeta, mas, valor Nunca eu vira nos textos que escrevi. * Só aos cinquenta e cinco me atrevi A dedilhar-lhe o verso e a compor Um soneto qualquer, que já esqueci... * Não sei se era melhor, se era pior, Do que este que vos deixo agora, aqui, Mas sei que o preenchi de infindo amor! * Maria João Brito de Sousa – 13.07.2018- 17.19h    

OUTROS "TEATROS"

Imagem
  OUTROS “TEATROS” * Assim que deixo uma palavra amável Ou tento relevar algumas falhas, Estarei à espera do que é mais provável Vir-me de um mundo fértil em canalhas, * Ricos no que haja de mais condenável, Pródigos em roubar sopa e migalhas A qualquer pobre que se mostre afável, Sem proteger-se atrás de altas muralhas. *   Insultos? Não me bastam! Pra que os quero, Se de tão suja gente nada espero? Passam serenamente, as caravanas *   E engendram-se umas peças mais furtivas, Por vezes bem reais, quase efusivas, No palco dos velhacos e sacanas. *   Maria João Brito de Sousa – 17.08.2018 – 16.40h    

A MÃO QUE O VERSO CRIA II

Imagem
A MÃO QUE O VERSO CRIA II * Nunca a Ciência se cala, quando a mente É lúcida, saudável, curiosa... Não sabe ouvi-la, a mente preguiçosa, Nem a lançada à força, na corrente. *   Não pode ouvi-la a mente que, indolente, Aceite o dogma, ou fique, presunçosa, Convicta de que a rosa se fez rosa Por obra de um processo transcendente. *   Não cala a Ciência a nossa incompletude, Que a Ciência invade a própria poesia, Sem roubar-lhe, nem sonho, nem virtude, *   Já que a acrescenta nessa apostasia, Enquanto a mão que a escreve não se ilude E será sempre e ainda, a mão que a cria. * Maria João Brito de Sousa – 16.08.2018 – 15.53h     Imagem - Julgamento de Galileo Galilei    

"I" de ISOPOR

Imagem
“I” de ISOPOR *   Íntimo idílio, íntima intrusão. Identifico ideias isoladas, Indico as intenções, imaculadas, Inspiro. Inalo. Infirmo introspecção. * Isco iminente. Íncubo. Inflação. Ira. Iracundo. Insinuações iradas. Ígneo. Interdito. Íris impregnadas. Íleo. Inflado. Intruso. Infestação. *   Idóneo. Isolda. Ísis. Insurrecto. Ignaro. Intermitente. Isolador. Insolente. Insolúvel. Inconcreto. *   Impropério. Indigente. Interruptor. Imóvel. Inclusão. Incêndio. Insecto. Insustentável istmo de Isopor! * Maria João Brito de Sousa – Julho, 2018 ***   "[I]novar é sempre relativo e tanto se pode inovar com o novo como inovar com o antigo, porque a invenção é uma forma de reinvenção, toda a leitura é releitura e toda a releitura transforma. Esta é uma verdade de todos os tempos que nos nossos dias se tornou perfeitamente nítida." Ana Hatherly via escalanarede.com  

A SEU TEMPO

Imagem
  A SEU TEMPO * Hoje não escrevo, não, que, se escrevesse Decerto solitária ficaria E já basta da dor que não se esquece, E já sobra de um espinho o que eu não queria. * Hoje não escrevo porque, se o fizesse, Nem a palavra exacta encontraria Por muito que a buscasse, ou recorresse Ao truque de a grafar de alma vazia. *   Mas... agora reparo que aqui deixo Palavras que concebo sobre um eixo Melódico e ritmado quanto baste. *   Grafei-as quase, quase sem notar, Assim que as vi maduras a tombar, A seu tempo, uma a uma, haste por haste. * Maria João Brito de Sousa – 15.08.2018 – 17.46h  

DIANTE DUM POEMA INACABADO

Imagem
  DIANTE DE UM POEMA INACABADO *   Não sei se chego a tempo de acudir-te, Se o pulso da palavra ainda pulsa Ou se parou num frémito, convulsa, Sem tempo pr`avisar-te e prevenir-te. *   Despediu-se de ti? Viste-a sorrir-te Antes de sucumbir qual coisa avulsa Que caiu em desuso e que se expulsa Sem ver que portas sempre soube abrir-te? *   E quem te acode quando te morrer Essa que tu admites nada ser Se não um mito abstracto e reciclado? *   Musas... são tantas quantos formos nós, Mas ao partir irão deixar-nos sós Diante de um poema inacabado. *   Maria João Brito de Sousa – 14.08.2018 – 11.44h  

CAMINHOS

Imagem
  CAMINHOS * Eis o mundo a teus pés, quase sem vida... E culpa foi só tua, quando, honesto Foste cumprindo à risca e gesto a gesto A directiva que te foi vendida? *   Crê nisso, humanidade, e estás perdida. Perdido está teu rumo e seu contexto Se vieres a esquecer que o teu protesto Será a tua única saída. *   Quem te destrói se não o consumismo? Quem te impôs este atroz capitalismo Que quanto mais se impõe mais te subverte? *     Não há estradas perfeitas, nem caminhos Que a si mesmo se tracem, que sozinhos Se te cubram de rosas, só de ver-te. *   Maria João Brito de Sousa -13.08.2018 – 11.51h

NÃO TENDO EXISTÊNCIA, É PARTE DE MIM

Imagem
  NÃO TENDO EXISTÊNCIA, É PARTE DE MIM... *   Muito suavemente me sopra aos ouvidos Bemóis, sustenidos de um verso emergente... Sempre coerente, me inunda os sentidos Tão desprevenidos quanto a minha mente *   Impõe-se-me urgente, não quer desmentidos, Veste os meus vestidos e, então, faz-me frente, Assim, de repente, sem subentendidos, Nem sangues vertidos por mão prepotente * É parte de mim, não tendo existência Mas traz-me a cadência de versos sem fim, Pois é sempre assim, sem pudor, nem paciência, *   Que na sua ausência me murcha o jardim E, nesse interim, vou ficando em latência: NÃO TENDO EXISTÊNCIA, É PARTE DE MIM. * Maria João Brito de Sousa – 12.08.2018 – 11.36h