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A mostrar mensagens de outubro, 2011

O LEITO DE UM RIO POR DENTRO DAS HORAS

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É por dentro das horas que desfio O rosário das queixas que não faço Que esta fome de sol, que por cá passo, Me mina de incerteza. E faz-me frio.   O abismo que se cava em cada rio Que rompe a terra mãe no seu abraço, Traz no seu leito fundo o puro traço De quem, deixando-se ir, não desistiu.   Cada vez mais se entranha pelas horas Que voam renegando as mil demoras Que um ciclo natural sempre despreza   E se esse rio souber que o sonho existe, Conquista o seu direito a morrer triste, Desvenda outra insuspeita natureza.         Maria João Brito de Sousa – 26.10.2011 - 15.20h   Reformulado a 2.11.2015

O FRUTO DE UM MAR OUTRORA PROÍBIDO

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 (Soneto em verso eneassilábico)   Quis lembrar-me do mar que trazias A pender-te da ponta dos dedos, Prometendo, acenando aos mil dias Que eu roubava à avareza dos medos   E colhi, desse mar que escondias, No remoto pomar dos segredos, O mel doce, que em fruto of`recias D´entre mil, extemporâneos, azedos…   Houve um tempo redondo e magoado Em que o fruto minguava escondido, Definhando de tão resguardado   Na redoma do que é proibido, E se eu nunca o tivesse encontrado, Talvez nunca o tivesse perdido...         Maria João Brito de Sousa – 23.10.2011 – 15.00h

O ABRAÇO DA LUZ DO MEU POENTE

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Dei-te um mar inocente e virginal, Mas telúrico e quase incandescente, A brotar desse anseio universal De ser muito mais mar do que era gente   E nesse mar selvagem, sensual, Da onda mais revolta e mais urgente, Não soubeste deixar-me outro sinal Pr`além do gene instável da semente…   De quanto mergulhaste, vertical, Assim que o sol, a pino, se fez quente, Perdeu-se-te a mensagem, no final,   E, enquanto o sol se põe, mesmo à tangente, Eu crio, noutro mar mais ficcional, Cada raio de luz do meu poente...         Maria João Brito de Sousa – 22.10.2011 – 15.00h     

A TODOS OS RESISTENTES QUE PASSARAM PELAS PRISÕES DO FASCISMO

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Foi num muro em que, sem liberdade, Acoitado entre as lajes, tão frias, Tu escreveste a palavra VONTADE Conquistada ao granito dos dias!   Foi a tua resposta à maldade, À traição e às demais vilanias De quem queria apagar a VERDADE Desse muro em que, ousado, a escrevias!   Foram tantas palavras negadas Que a garganta guardou da denúncia Dos que a queriam gritada entre os muros,   Quanto as dores, como pedras, caladas Na nobreza da tua renúncia, Semeando os teus sonhos mais puros!       Maria João Brito de Sousa - 21.10.2011 - 13.48h     Imagem retirada da página que a Wikipédia criou para o 25 de Abril de 1974     NOTA - Soneto de nove sílabas métricas

UM TUMULTO A SUBIR DAS PROFUNDEZAS

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    Hoje, nem bem, nem mal, nem coisa alguma… Nem o silêncio impôs a reflexão, Nem um murmúrio só, dizendo "não" Às minhas mãos cerradas como bruma   E dispersa-me a onda nesta espuma Como se, ao ser negada uma razão, Tudo se reduzisse à dimensão Das lutas que se perdem, uma a uma…   Hoje… nem bem, nem mal! Ninguém diria Que ontem saiu à rua a rebeldia Vestida com as cores de mil certezas,   Porque hoje, ao acordar, nada se ouvia (... mas, quem estivesse atento, sentiria um tumulto a subir das profundezas…)       Maria João Brito de Sousa – 16.10.2011 – 16.32h    

SONETO A UM VERSO QUE FICOU POR ESCREVER

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    Usado e gasto ou novo e displicente, Tenho-te aqui, neste onde que nem sei, No poema em que te prendo, esse imprudente Que te irá dar bem mais do que eu te dei,   Mas perco-te depois, num gesto urgente Em que abro mão daquilo que engendrei, E vendo-te voar – quem me desmente? – Descubro que não mais te encontrarei...   Quem és, quem és, se nem mesmo eu souber Prender-te nos meus braços de mulher Dando uma voz à voz que tu não tens?   Serás verso que teima em se perder, Ou talvez sejas tudo o que eu quiser Por mais que eu nunca saiba de onde vens...         Maria João Brito de Sousa – 10.10.2011 – 21.11h       Imagem retirada da Internet, via Google

VIDA A VIDA

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Enquanto a vida passa pela vida Muitos, na luta eterna, reconhecem Que as teias desta vida se nos tecem Conforme a voz que temos seja erguida...   Tantos de nós, descendo uma avenida, Procuramos dar voz aos que a merecem E damos voz à voz dos que se oferecem Pr`a dar voz à verdade indesmentida   Que vida a vida se ergue na cidade Reconstruindo a solidariedade Essa  que já mil vezes nos uniu   E é contra a voz que abafa a nossa voz Que, erguidos desse chão, não estamos sós Contra quem, pr`a roubar-nos, nos mentiu!         Maria João Brito de Sousa – 07.10.2011 – 18.37h     NOTA - Desde esta madrugada, impossibilitada de aceder ao meu mural do Facebook e à maioria dos sites da net, desejo, do fundo do coração, uma GRANDE concentração a todos os amigos da ANIMAL e de todos os grupos e associações que hoje se lhes juntem, no Rossio, para dar voz  a todos os animais. TODOS DIFERENTES, TODOS ANIMAIS!    

CIDADE SEM SENTIDO(S) - Soneto de nove sílabas métricas

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  Se a Cidade contasse os segredos Das janelas fechadas dos dias Quantos rostos e mãos não verias Nas cortinas já gastas dos medos,   Quantos corpos em estranhos folguedos, Quantas camas desfeitas, já frias, Quantas mesas de pinho vazias De uns pedaços de pão, mesmo azêdos?   Se a Cidade pudesse falar E se erguida do chão, a gritar, Rebentasse em protesto incontido   Levantando o seu punho no ar... (ah, Cidade que eu tento inventar, nem eu própria sei dar-te um sentido!)         Maria João Brito de Sousa - 05.10.2011 - 15.03h         Imagem retirada da Internet, via Google    

COM A VOZ QUE TRAZEMOS NAS MÃOS

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Nestes punhos magoados que se cerram Por causas bem mais fortes do que a dor, Eu trago estas palavras que se elevam Como as de outro qualquer trabalhador   E, se morrer sem voz porque me enterram Tentando refrear o meu ardor, Jamais terei traído os que delegam A voz na voz de quem lhes dá valor!   Ah, nunca mais o medo a meias-vozes! Nunca mais submissão aos tais algozes Que estão escavando abismos financeiros   Entre um punhado de bem “recheados”, E os restantes milhões de injustiçados Que o capital transforma em prisioneiros!           Maria João Brito de Sousa – 04.10.2011 – 02.18h     IMAGEM DA MANIFESTAÇÃO DA CGTP DE 1 DE OUTUBRO DE 2011, retirada da net, via Google