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A mostrar mensagens de junho, 2011

MARIONETA - sonetilho

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Trago, nos restos de vida Que a Morte não quis levar, A memória interrompida De um sonho complementar   Que ousou esgueirar-se à saída Só para poder tentar Banhar-se, de alma despida, Na lucidez de outro mar…   Daqui vos ouço e vos leio Na solidão protectora Do que conquisto ao destino,   Sem timidez nem receio, Agora, dona e senhora Dos cordéis com que me animo…         Maria João Brito de Sousa – 29.06.2011 – 18.23h

POEMA À PRIMEIRA DAS ÚLTIMAS MULHERES

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  Imaculada, escrevo o que não devo E inundo a absurda cova do meu fim Com húmus inventado num jardim Inexistente e, também ele, primevo…   Imaculada… e sei que me descrevo Com o que de melhor existe em mim Pois, se não fosse a cova ser assim, Tão funda, tão escavada em seu relevo,   Talvez eu conseguisse enchê-la toda Destes versos que enlaçam, numa roda, O desmentir da minha identidade…   É, porém, tão mais funda e mais real Do que é, do mar imenso, amargo o sal… (mas nunca afirmarei que isto é verdade!)       Maria João Brito de Sousa

OBRIGADA II

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DOR

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Não me doas assim, tão cruamente, Roubando-me a noção de tudo o mais, Deixando-me irascível, descontente, Exausta do suplício em que me esvais…   Deixa-me em paz o corpo onde sou cais, Sozinha, eu sei, mas orgulhosamente! Devolve-me o meu "eu"  de aonde sais Pr´a que o poema nasça urgentemente...   Quem pode assim escrever, desfeita em dor, Abafando os gemidos da lamúria, Sem descanso ou momento de conforto?   Quem poderá provar-te sem temor, Sem que a voz lhe rebente numa fúria, Ou preferir-te à paz de um cais já morto?       Maria João Brito de Sousa 

É DAQUI QUE TE ESCREVO

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É daqui que te escrevo, desta vontade que me veste de Abril, de poemas e de farrapos também,   Daqui, de onde me reconheço em ti espelhada embora o perfil simples do meu cravo sem nome, sem espinhos e tão menos glorioso, pareça negar cada verso que nasce…   Mas é daqui, deste lado aguerrido de mim onde vestida de um Abril em farrapos, não dispo Abril apesar dos farrapos de uma resistência que te não sei explicar mas, presumo, ninguém imaginaria que florescesse ainda…   Daqui, de onde também eu aprendi a amar a solidão e a recriar o mundo na sombra das ausências, nos anos – tantos… -  do verde caule de um mesmo sonho de pétalas ao rubro,   Daqui e porque o poema me apeteceu, insurrecto e vermelho, este escrever-te sem rima, nem medo, com as armas florindo num canto menor.         Maria João Brito de Sousa – 19.06.2011 – 16.31h

RAPIDEZ CRIATIVA ou POR MAIS QUE...

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Por mais que o sol se ponha, devagar, Por mais que a estrela-d’alva me sorria, Por mais que a lua venha iluminar Aquilo que sobrou de mais um dia,   Por mais noite que sobre e o inundar Da conturbada luz que me alumia Me inspire ou mesmo tente interpelar… Por mais que isso aconteça, eu quereria   A mesma rapidez do dedilhar Que a mão, descontrolada, me assumia E aquele embriagante não parar,   Para nem duvidar do que sentia, Na galvânica pressa de acabar O que nem começado `inda estaria…       Maria João Brito de Sousa – 16.06.2011 – 20.04h

QUE CULPA?

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Que culpa tinha ele da sua dor Sem medida, nem fundo ou amplitude? Que culpa, a dessas asas de condor Em constante mudança de atitude?   Que culpa tinha o mar da sua cor? Que culpa tinha a Culpa se a Virtude Se culpava a si própria e, nesse ardor, Mostrava quanto dela nos ilude?   Mais tarde serenou, calou bem fundo As paixões funcionais que convocara E encomendou ao Tempo a sua cura.   Sobreviveu culpando meio mundo Por cada cicatriz que lhe ficara De um tempo em que essa dor fora mais dura…         Maria João Brito de Sousa

O DIPLOMA E O PRÉMIO - V CONCURSO POESIA EM REDE

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  Nasceu-me, hoje, um soneto descuidado, Fazendo ouvidos moucos à razão, E todos vão pensar que veio em vão Pois jamais gostará do nosso Fado   Mas o que aconteceu foi que, o estouvado, Não sabendo fingir, nem dizer “não”, Mal ouve os mil acordes da canção Corre a abraçar-se a ela, alvoroçado…   Coitado do soneto… apaixonou-se Por um fado qualquer que então passava Nos lábios de um fadista, nas vielas,   E nem sabe dizer quem foi que o trouxe, Que guitarra, trinando, assim chamava, Que estranhas vibrações foram aquelas…   Maria João Brito de Sousa – 21.01.2011 – 19.01h  

DAS TOURADAS E DAS GRANDES CONVICÇÕES - Carta aberta ao meu avô poeta

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… e depois, António, eles benzer-se-ão e partirão gloriosos para a mortandade sem que os tenhamos podido desculpar e agradecerão as palmas com a consciência do ritual cumprido e haverá crianças - crianças como eu era quando, ao vê-los,  fugia do ecrã da televisão… -, haverá crianças, António, que também baterão palmas e que crescerão embaladas pela apoteótica matança, abençoadas pelo deus a que eles se confiaram e em que eu nunca acreditarei porque, perdoa-me, António, eu não posso, nem quero, acreditar nesse mesmíssimo deus cruel e estúpido, se ele for tão estúpido e tão cruel que abençoe a ritualização da tortura…       Ou fomos nós que sempre estivemos enganados? Ou fomos nós que errámos quando condenámos a raiz comum de todas as descriminações e de todas as atrocidades? Ou éramos só nós que víamos, nos olhos do touro, a mesma inocência dos dos cristãos novos, no Paço, dos dos negros, nos porões das naus, dos dos judeus, em Auschwitz, dos dos nossos amigos, nas masmorras da Pide?   ...

O FRUTO DO OVO

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  Que pássaro voou? Que lume acende, Neste terreno palco, uma vontade Que não desiste nunca e se não rende Enquanto não alcança a liberdade?   Que absurdo gesto nega e se não vende, Que lágrima a sulcar-me esta saudade Me traz quanta vontade aqui me prende? E quem me diz a mim que isto é verdade?           Foi a asa de um anjo imperativo Que, apontando este espaço onde me vivo, Me pediu para olhá-lo desde os céus,   Ou o fruto de um ovo, aceso em chamas, Trocando as tibiezas que proclamas Por quanto eu não conheço e chamo Deus?     Maria João Brito de Sousa

NO DIA DA CRIANÇA - 01.06.2011

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  No dia da criança, venho dizer-te bom-dia, mãe, e olhar o teu sorriso na memória das sardinheiras quase murchas, mas ainda vermelhas, mãe, nas conchas de barro onde as plantavas   Venho, neste dia da criança, lembrar-te, mais uma vez, que te amo, mãe, e agora, que não sei se és, nem onde és, confessar-te que sempre considerei que olhavas demasiado a superfície das coisas, que te esquecias de reparar nas raizes do tempo por detrás das janelas e nos sonhos para além da luta pelo abraço imediato   Mas isso era eu, mãe, eu tão pequenina como as sardinheiras, tão abraçada às raizes do tempo, tão estranhamente além das janelas, esquecida, também eu, de não poder julgar-te porque eras tu, afinal, quem plantava as sardinheiras e sorria sem suspeitar, sequer, de que viriam a murchar…   Hoje, dia da criança, dia em que não sei se és, nem onde és, mas não esqueço que foste, uma lágrima, mãe, só uma, como tu, que tanto medo tinhas da morte e te deixaste levar sem teres percebido que as sardinhei...