No dia da criança, venho dizer-te bom-dia, mãe, e olhar o teu sorriso na memória das sardinheiras quase murchas, mas ainda vermelhas, mãe, nas conchas de barro onde as plantavas Venho, neste dia da criança, lembrar-te, mais uma vez, que te amo, mãe, e agora, que não sei se és, nem onde és, confessar-te que sempre considerei que olhavas demasiado a superfície das coisas, que te esquecias de reparar nas raizes do tempo por detrás das janelas e nos sonhos para além da luta pelo abraço imediato Mas isso era eu, mãe, eu tão pequenina como as sardinheiras, tão abraçada às raizes do tempo, tão estranhamente além das janelas, esquecida, também eu, de não poder julgar-te porque eras tu, afinal, quem plantava as sardinheiras e sorria sem suspeitar, sequer, de que viriam a murchar… Hoje, dia da criança, dia em que não sei se és, nem onde és, mas não esqueço que foste, uma lágrima, mãe, só uma, como tu, que tanto medo tinhas da morte e te deixaste levar sem teres percebido que as sardinhei...