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A mostrar mensagens de outubro, 2021

SONETO DO TODO-PODEROSO MERCADO

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SONETO DO TODO-PODEROSO MERCADO * Venho roubar-te, ó Arte, a eternidade! Tudo o que ousaste ser te cobro agora, Excepto, talvez, o que de ti se evade E depressa se evola e se evapora... * Deixo-te uma ilusão de liberdade, Que só essa ilusão por cá vigora; Levo-te o leito, a casa e a cidade E até o tempo roubo, hora por hora. * Vesti a tua pele inacabada, Qual terrorista, não te deixo nada Senão o que do nada fores criando * Na condição de te fazer saber Que tudo o que concebas vai morrer Às mãos do Tempo que o vai devorando. *   Maria João Brito de Sousa - 30.10.2021 - 11.00h *** Sonetos da Matrix

SONETO DA IMATERIALIDADE

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"O Campo de Marte" - Marc Chagall   SONETO DA IMATERIALIDADE * Trago a realidade pela trela Enquanto ela se escapa e se dissolve Em tudo o que apareça à frente dela: Quando se for, quem é que ma devolve? * Não sei se ela me habita, se estou nela, Ou se ela é tudo, tudo o que me envolve; Há sempre, debruçada na janela, Uma equação que nunca se resolve. *   Tudo flutua agora em meu redor Na ausência do melhor e do pior, Na dispersão dos pontos cardeais... * Trago comigo um grão de realidade Dissolvido num mar que se me evade Sempre que tento içar-me até ao cais. *   Maria João Brito de Sousa - 29.10.2021 - 11.30h * Sonetos da Matrix

SONETO DA EFEMERIDADE

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SONETO DA EFEMERIDADE * Prometo ser-te fiel por dez segundos E dar-te amor num frasco de compota; Prometo-me inteirinha numa gota De um simulacro de órbitas e mundos * Prometo um brilho de astros moribundos Numa galáxia próxima ou remota, Mas não te juro não fazer batota Nem te prometo afectos mais profundos. * Queria dar-te uma década de luz Mas não me lembro, amor, onde é que a pus... Que nome me disseste que era o teu? * Não te oiço. Continuo de passagem... Vou fazer outro "upgrade" à minha imagem E já desconectei o velho Eu. *   Maria João Brito de Sousa -29.10.2021 - 07.30h *** SONETOS DA MATRIX  

CORAÇÃO LÍQUIDO

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CORAÇÃO LÍQUIDO * Num segundo se morre, ou ressuscita; Neste segundo, meço a pulsação Serena/inquieta do meu coração, Brasa que naufragada inda crepita. * Quando uma pulsação demais se agita Num segundo nos mata. A remissão Nem sempre nos concede o seu perdão E a sorte quase nunca nos visita. * Num segundo se chega ao tal lampejo Que em nós acende a chama do desejo E se apaga a seguir, noutro segundo, * E tudo, água e rochedo, é movimento Que flui no mar imenso e turbulento Em que nasce e naufraga o nosso mundo. *   Maria João Brito de Sousa - 28.10.2021 - 10.50h *** Sonetos da Matrix

DIA - Coroa de Sonetos - Custódio Montes, MJBS e Lourdes Mourinho Henriques

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DIA * Coroa de Sonetos * Custódio Montes, Maria João Brito de Sousa e Lourdes Mourinho Henriques *** 1. * A noite foi passando e chega o dia Pois já se vê a luz da alvorada Do dia vem a luz iluminada E luz que cada vez mais alumia * Os olhos se distendem e a magia Invade-nos a alma encantada Que a este céu aberto, irmanado, Se junta, refulgente de alegria * O dia pinta o monte, mostra a serra E também a beleza que ela encerra E vai beijar a flor que envaidece * E tudo isto eu vejo da janela Encanto desta luz que é tão bela Enquanto o dia vem e amanhece * Custódio Montes 23.10.2021 *** 2 * "Enquanto o dia vem e amanhece" Procura a noite um espaço recatado Para dormir o sono descansado Que traz consigo e tanto lhe apetece. * A noite, ao dia em nada desmerece E até foi dela que nasceu o fado, O que se vive e o outro que é cantado Como quem rasga a alma numa prece... * A noite traz lampejos cor de prata, Cantigas de embalar e uma cascata De carícias que o dia amordaçou * E traz-m...

ALQUIMIA

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Imagem retirada  daqui   ALQUIMIA * Eu que procuro Facto e Evidência Enquanto ajusto o Verbo à Melodia, Que vivo apaixonada pela Ciência Com a qual sempre estive em sintonia, * Que pouco valorizo uma aparência Se a descobrir infértil e vazia, Acabo de dar conta, em consciência, De que isto que pratico é Alquimia; *   No almofariz de Pedra da Vontade Vou misturando o Sonho e a Verdade Com dois ou três punhados de Talento * Depois, trituro tudo. Por tempero Junto, de Espanto, tanto quanto quero E aguardo que apure em Fogo lento. *   Maria João Brito de Sousa - 25.10.2021 - 10.00h ***

SONETO quase TRANSESTÉTICO

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SONETO (quase) TRANSESTÉTICO * Na poética asséptica isométrica, Fluída consumida e assumida Cosmética patética ou hermética, Re-re-re-repetida, ainda, a vida *   Cinética diegética anoréctica Comida, remoída e digerida; Frenética imagética epiléptica Fruída se incontida e esteticida. * É de aço inoxidável e lítio e cromo Ou átomo ofuscante e ofuscado Que não tem tempo e nunca teve dono * Nem ousa ser senão assimilado Pla liquidez do sono/mono-promo Que mal nasceu passou a ser passado. *   Maria João Brito de Sousa - 24.10.2021 - 19.15h ***   Sonetos da Matrix

MEU DOM/TEU DOM

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MEU DOM/TEU DOM * Que a minha sede seja a tua sede E a minha fome seja a tua fome E não haverá força que então dome A força que nos move e se não mede! * Ainda que encostados à parede Confrontando carrasco que nos sove, Havemos de encontrar razão que prove Toda a razão que o coração nos pede. * E mesmo que tu subas quando eu desça, Se te couber minguar enquanto eu cresça, Que não vejas dif`rença onde a dif`rença * É bem mais ténue do que a semelhança Imensa que nos coube por herança; O dom de nos sonharmos. De nascença. *   Maria João Brito de Sousa - 24.10.2021 -10.00h  

UM GALOPE ACIDENTADO

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Imagem surripiada  daqui   UM GALOPE ACIDENTADO * A Musa assoma e eu caio do cavalo Que sem freio galopa até ao fim Do fôlego que tem. Aqui me calo Ainda que o cavalo habite em mim... * Não cortámos a meta? Não me ralo! Este meu cravo rubro de carmim Há-de amparar-me até ao intervalo Que deve conceder-se a queda assim. * A Musa que entretanto prosseguiu No dorso do cavalo, que não viu, Nem deu conta da queda aparatosa, * Ao sentir um ligeiro estremeção, Mais quis que galopasse o alazão E eu perdi-lhes o rasto. O resto é prosa. *   Maria João Brito de Sousa - 19.10.2021 - 14.20h

MEU MAR/TEU MAR

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MEU MAR/TEU MAR * Encantamento * O meu mar será sempre o mesmo mar Que te assoma à janela, noite e dia, E que por mero acaso ou ironia Teve o condão de a ambos encantar. *   Abro-lhe a porta, assim, de par em par, Para sentir-lhe o cheiro a maresia; Fica-me a Musa cheia, se vazia Estivesse enquanto farta de o esperar. * Quando no Equinóceo se agiganta O mar que a gente - tanta gente... - canta, Esse que em tempos tanto foi chorado * Enche de espuma a velha Marginal E traz consigo o sal do mesmo sal Com que este encantamento foi temperado. *   Maria João Brito de Sousa - 19.10.2021 - 18.00h

SONHOS & FILHÓS

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SONHOS & FILHÓS * Memórias E Singularidades Da Casa do Dafundo * Quão pálida era a lua e longínqua era a voz Que chamava por nós na esquina dessa rua Em que o som desagua em rio sem mar, nem foz... Junto de seus avós cresceu ardente e crua *   Quem hoje os perpetua em sonhos e filhós; Tudo passa veloz, tudo em paixões se estua Mas nada desvirtua os que morreram sós, Fechados como a noz sobre a memória sua. * O tempo não recua assim tão facilmente, Nem se rende a semente à mão que à terra a lança, Que a Vida, como a dança, acaba de repente * E quem bailar não tente ou rejeite a mudança, Enverga a desconfiança, amua descontente E invariavelmente a esgota enquanto avança. *   Maria João Brito de Sousa - 20.10.2021 - 14.30 h * Soneto em verso alexandrino com rima (interna) encadeada  

"GOSTO DE TE VER ASSIM!"

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POBREZA - Essoutro Vírus Pandémico

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POBREZA * Essoutro Vírus Pandémico Que Urge Erradicar * Conheço essa pobreza envergonhada Que vai sobrevivendo a cada mês A suspirar pelo tal dia dez Em que chega a pensão tão desejada * E também a pobreza revoltada (guardando, ou não, perfeita lucidez) Que se associa, que estuda os porquês E que, em consciência, luta organizada. * Até conheço quem, tendo nascido Em berço de ouro, tenha preferido Viver tão só de quanto produzia * Mas isto sinto e disto estou segura; Acredito que o mundo inda tem cura, Que existe "arranjo" pra tanta avaria! * Maria João Brito de Sousa - 19.10.2021 -09.30h *   Respondendo ao soneto POBREZA ENVERGONHADA de José Manuel Cabrita Neves  

SONETO DE "CAVALO-CANSADO"

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SONETO DE "CAVALO-CANSADO" *   Abre, homem, tuas portas e janelas (é sempre à esquerda que o Sol vai nascer) Prá luz entrar quando a manhã vier E o teu portão ranger nas aduelas. * O cavalo descansa nas tigelas Que o fado preservou. Há que o comer Porque o cultivo, doa a quem doer, Requer-te força e braços sem mazelas. * Vá, repousa uma hora. Talvez menos Que se não mede o tempo dos pequenos Por bitola que agrade ao abastado * E a lavra espera. Ou rói-te a incerteza De ter ou não ter pão pra pôr na mesa Em que o teu filho o clama esfomeado? *   Maria João Brito de Sousa - 16.10.2021 - 22.00h   Tela de Pablo Picasso (fase azul)