GLOSANDO JOÃO MOUTINHO II
SONHO SOLTO Sento-me, só, no colo das ideias Do verso branco que não sei parar… Sinto o dilatar de todas as veias Que pulsam em mim, sem me sossegar Todos os elos, todas as cadeias, Todas as ondas me vão navegar E desaguar nas mesmas areias Do mesmo sol-pôr, do mesmo luar Cavalgo as marés da tua ternura Nas dunas de pele que quero sorver… Saciando a sede na tua candura O sonho só solto ao anoitecer No amanhecer da minha loucura No verso de amor que não vou escrever João Moutinho POR ELA “Sento-me, só, no colo das ideias”, Enlaço-me nos braços da Razão E, apagada a chama das candeias, Confronto a minha humana condição; “Todos os elos, todas as cadeias”, Todas as formas de escravização, São coisas que não sabes, mas premeias, Não por palavras, mas por omissão. “Cavalgo as marés da tua ternura” Quando descanso e sempre que puder, Mas assim que a Razão sonda e perfura “O sonho só solto ao anoitecer”, É por ela que aceito esta ruptura E, por ela, só dela passo a ser. Maria Joã...