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A mostrar mensagens de março, 2024

CREIO NO PÃO - Reedição

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Fotografia de António Pedro Brito de Sousa * CREIO NO PÃO * Pode o diabo ter-me até estendido O pão amanhecido que mordeu Mas, quanto ao resto, ter-vos-á mentido Pois quem o amassou fui eu, só eu! * Se o diabo ficar aborrecido Por ver-se despojado de um troféu, Viro-lhe as costas, vou noutro sentido E amasso um pão que seja mesmo meu. *   A massa deste pão, quão mais cozia Mais dourava, crescia e rescendia Às ervas bravas da planura mansa *   E demo algum tal pão cobiçaria Porque leveda nele a poesia De quem é velho mas já foi criança. *     Maria João Brito de Sousa  25.06.2020 - 21.00h ***

VISLUMBRES DE UMA DISTOPIA - Reedição

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Tela de Hieronymus Bosch * VISLUMBRES DE UMA DISTOPIA * Silenciosos nos seus corpos de aço, Dormindo estranhos sonos vigilantes E usufruindo, ou não, de um espanto escasso, Estão os que já não são o que eram dantes * Guardam os torreões do novo Paço E, escolhidos a dedo, são gigantes Que correm dez mil milhas sem cansaço E abatem de um só sopro astros errantes * As montanhas, rolando sobre esferas, Desviam-se dos rios e das ribeiras Que agora desaguam nas crateras * Cavadas pelas balas não certeiras: Não há dias nem noites, só há esperas, Frágeis conspirações, pulsões grosseiras... *   Mª João Brito de Sousa 28.03.2022 - 14.00h ***  

O NOJO

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Imagem retirada da Wikipédia *  NOJO * Enquanto os vermes sobem ao poder E a podridão se infiltra nas ranhuras, Os grandes são tão só caricaturas Da grandeza ideal que dizem ter! * O nojo aumenta e há náusea a renascer Em todas as humanas criaturas Que honraram outro Abril com partituras Que só quem queria a paz podia ver * Bem mais forte que o medo é esta injúria, Esta infâmia de ver a coisa espúria Que a vermina transporta enquanto o nojo * Em nós sobe de tom, passa a agonia E dói-nos tanto que a democracia Não mais é sonho e cai como um despojo! *   Mª João Brito de Sousa 28.03.2024 - 15.00h ***  

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII

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Imagem Pinterest *   DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII *   COMO QUANDO DO MAR TEMPESTUOSO * Como quando do mar tempestuoso O marinheiro todo trabalhado, De hum naufragio cruel sahindo a nado, Só de ouvir fallar nelle está medroso: * Firme jura que o vê-lo bonançoso Do seu lar o não tire socegado; Mas esquecido ja do horror passado, Delle a fiar se torna cobiçoso: * Assi, Senhora, eu que da tormenta De vossa vista fujo, por salvar-me, Jurando de não mais em outra ver-me; * Com a alma que de vós nunca se ausenta, Me tórno, por cobiça de ganhar-me, Onde estive tão perto de perder-me. * Luíz de Camões ***   Se vos haveis ganhado onde perdido Estivestes quase, quase, em fúria tanta, Cuidai de vos cuidar que se alevanta Tormenta bem maior que a que heis sentido * Imensa em força, doble em arruído E capaz de vergar mesmo Atalanta, Esta a todas as outras as suplanta Pois mais de mil borrascas há vencido * Fugi então de ouvir novas de mim: Se da fúria primeira vos sal...

AMAR-TE, POESIA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

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Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia in LIVRO DE BORDO de António de Sousa *   COROA DE SONETOS * AMAR-TE, POESIA * Amar-te em cada ano em dia certo E ter que estar à espera todo o ano Dizer uma só vez: eu não te engano Apenas venho aqui hoje liberto * Eu ando no trabalho aqui por perto Mas meu patrão é velho e tão insano Que só me deixa vir, por inumano, Um dia sem saber ao quê decerto * Pois, se soubesse, amor, que eu aqui vinha Não me deixava vir. Se ele adivinha Ou se alguém lhe contar que nesse dia * Venho comemorar e dar-te um beijo Proíbe-me de vir, não mais te vejo Mesmo uma vez por ano, poesia! * Custódio Montes 22.3.2024 (e só no dia seguinte….) *** "Mesmo uma vez por ano, poesia", Que pra ti corra e enlace fascinada Sabe-me sempre a pouco, ou quase nada, Quanto em ti por segundos me extasia * Pudera eu ter mais tempo e ficaria A ver-te espanto a espanto acrescentada Até adormecer sobre a almofada Onde, por fim, Morfeu te renderia * É atrasada que te rendo preito.....

SONETO DO MAL MENOR - Reedição

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SONETO DO MAL MENOR * Dá-me o ramo das rosas perdulárias comprado na florista já esquecida armado no “bouquet” morto e sem vida das condenadas almas solitárias... * Dá-me uma – mais serão desnecessárias...- na haste em que a chorei, porque, à partida, lhe condeno a razão de ser colhida, deixando, na raiz, funções tão várias * Juro que não protesto... e mais não digo! Hoje perco a raiz, enfrento o p`rigo e estou pronta a render-me sem chorar * Se o derradeiro golpe, esse castigo que me arranca do mundo em que me abrigo, me degolar, de vez, sem me magoar *.   Maria João Brito de Sousa 26.03.2015- 15.08h

GLOSANDO O ÚLTIMO VERSO DE UM SONETO DE CUSTÓDIO MONTES

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Imagem Pinterest * AMAR-TE, POESIA * Amar-te em cada ano em dia certo E ter que estar à espera todo o ano Dizer uma só vez: eu não te engano Apenas venho aqui hoje liberto * Eu ando no trabalho aqui por perto Mas meu patrão é velho e tão insano Que só me deixa vir, por inumano, Um dia sem saber ao quê decerto * Pois, se soubesse, amor, que eu aqui vinha Não me deixava vir. Se ele adivinha Ou se alguém lhe contar que nesse dia * Venho comemorar e dar-te um beijo Proíbe-me de vir, não mais te vejo Mesmo uma vez por ano, poesia! * Custódio Montes 22.3.2024 (e só no dia seguinte….) *** "Mesmo uma vez por ano, poesia", Que pra ti corra e enlace fascinada Sabe-me sempre a pouco, ou quase nada, Quanto em ti por segundos me extasia * Pudera eu ter mais tempo e ficaria A ver-te espanto a espanto acrescentada Até adormecer sobre a almofada Onde, por fim, Morfeu te renderia * É atrasada que te rendo preito... Espero que me perdoes tê-lo feito Passados já três dias. Reconheço * Que me pe...

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXII

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Imagem Pinterest * DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXII *   CANTANDO ESTAVA UM DIA BEM SEGURO *   Cantando estava um dia bem seguro, Quando passava Silvio, e me dizia: (Silvio, pastor antiguo que sabia Por o canto das aves o futuro) * "Méries, quando quizer o Fado escuro, A oprimir-te virão em um só dia Dois lobos; logo a voz e a melodia Te fugirão, e o som suave e puro." * Bem foi assi; porque hum me degolou Quanto gado vacum pastava e tinha, De que grandes soldadas esperava. * E, por mais dano, o outro me matou A cordeira gentil, que eu tanto amava, Perpétua saudade da alma minha! * Luíz de Camões *** Se dura foi de Sílvio a profecia, Imaginai quão mais dura será A isenta narrativa de quem está Hoje a quinhentos anos desse dia... * Plo nome que escolheis vos chamaria E assim vos chamarei se tal vos dá Prazer... Ah, que prazer inda haverá Pra quem, morto, não chore nem se ria? * Sílvio não sou. Tampouco sou profeta, Mas sei que na miséria haveis morrid...

SEM MÃO QUE A CONDUZA E SEM MUSA QUE A HABITE

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  SEM MÃO QUE A CONDUZA E SEM MUSA QUE A HABITE *   "Do luar grisalho que há nos meus cabelos" Fiz uma bandeira que elevei aos céus Qual imensa pomba de traços singelos Mas prenhe de anseios tão meus quanto seus *   Um vento mais forte levou tais anelos Pra longe, tão longe que estes olhos meus Não mais a reviram... Que sonhos tão belos Partiram sem rumo e sem dizer adeus... *   Do Sol que hoje queima os meus olhos cansados Colho agora um raio que os mais são escusados E aponto ás alturas a luz que ele emite * Mas sinais não vejo da pomba/bandeira Que o vento de um sopro levou toda inteira Sem mão que a conduza e sem musa que a habite. * Mª João Brito de Sousa 23.03.2024 - 12.39h *** Soneto criado a parir do verso final do soneto "Sol e Vida" da autoria de MEA  

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXI

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Imagem retirada do blog "As Palavras São Armas" de Cid Simões *   CÁ NESTA BABILÓNIA DONDE MANA * Cá nesta Babilónia donde mana Matéria a quanto mal o mundo cria; Cá donde o puro Amor não tem valia; Que a Mãe, que manda mais, tudo profana; * Cá donde o mal se afina, o bem se dana, E pode mais que a honra a tirania; Cá donde a errada e cega Monarquia Cuida que um nome vão a Deus engana; * Cá neste labirintho onde a Nobreza, O Valor e o Saber pedindo vão Ás portas da Cobiça e da Vileza; * Cá neste escuro caos de confusão Cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião! * Luíz de Camões *** Novas, Senhor, vos trago de Sião Onde quem pode mais mais vai matando E de onde os mísseis manam sibilando Para cumprirem - diz-se - uma missão * Mas desta minha humana auscultação, Dif`rentes novas vos quisera ir dando E, em vez mísseis, ver por lá sobrando Medicamentos, plasma e água e pão... * Ah, "donde o puro amor não tem valia" "Às portas da cobiça e ...

SEM TÍTULO V

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A Persistência da Memória - Salvador Dali *   SEM TÍTULO V * Persiste uma memória de futuro A erguer-se sobre a purga dos mais fracos Dos vulneráveis já feitos em cacos E dos qu`inda agonizam no chão duro... * Certeza ou intuição? Não sei, nem juro Que este futuro se encha de buracos Dos quais as horas pendam como sacos A derramar um visco em "chiaroscuro"... * Há porém quem desista e quem se esforce, Quem algoritmos troque pelo Morse E quem coma do chão quanto o chão der * Somos (ainda) bichos imperfeitos E racistas, também, que aos preconceitos Até o mais racista os nega ter. *   Mª João Brito de Sousa 21.03.2024 - 20.50h ***