GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (9)
AS MINHAS ILUSÕES Hora sagrada dum entardecer D’Outono, à beira-mar, cor de safira. Soa no ar uma invisível lira... O sol é um doente a enlanguescer... A vaga estende os braços a suster, Numa dor de revolta cheia de ira, A doirada cabeça que delira Num último suspiro, a estremecer! O sol morreu... e veste luto o mar... E eu vejo a urna d’oiro, a baloiçar, À flor das ondas, num lençol d’espuma. As minhas Ilusões, doce tesoiro, Também as vi levar em urna d’oiro, No mar da Vida, assim... uma por uma Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" ... E AS MINHAS... "Hora sagrada dum anoitecer" A que a nuvem se esquece que aspergira Com a bênção da chuva e que suspira Por ver o dia assim, quase a morrer... "A vaga estende os braços a suster" As mil desilusões que já sentira, Pr`a que a força dos braços lhe sugira Que, amanhã, há-de o dia amanhecer... "O sol morreu... e veste luto o mar..."... De nada serve à vaga sustentar As razões por que escreve, ou por qu...