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A mostrar mensagens de abril, 2020

VERDADE(S) III

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VERDADE(S)III EM (genuíno) SONETO ALEXANDRINO (a da genuinidade) * Tudo pondo em questão, duvido sem parar Da placidez lunar até à suspeição Com que encaro a fissão de teor nuclear, Não vá ela levar o mundo à perdição... * Sou fiel como um cão, mas sou gato a sondar Tudo quanto encontrar espalhado pelo chão; Ignoro a frustração e afasto-a se chegar A mim sem me enlevar, nem me pedir perdão. * Duvido por sistema e não deixo de crer Num versito qualquer que aspire a ser poema Seja qual for o tema a  que se propuser, * Portanto, mal puder, desfaço o tal dilema E não há voz suprema ou espada de aluguer Que me force a ceder se o verso em mim já rema. *     Maria João Brito de Sousa - 29.04.2020 - 13.00h

VERDADE(S) II

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VERDADE(S) II (a da singularidade) *   Creio na insustentável lucidez Do verso acabadinho de eclodir Que noutros se replica, achando vez Pr`acrescentar-se até se despedir. *   Creio no homem que consegue rir E no que chora ao fim de cada mês A fome que está farto de sentir E a raiva que lhe impõe novos porquês. *   Creio na irreverência dos felinos, Na clara transcendência de alguns hinos, Nos amanhãs que um dia cantarão, *   Nas doutas obras e nas comezinhas Coisas do dia-a-dia. Até nas minhas Óbvias fraquezas, que tão fortes são... *     Maria João Brito de Sousa - 28.04.2020 - 16.30h   Imagem retirada  daqui

VERDADE(S)

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VERDADE(S) (a da evolução) * Na verdade guardada a sete-chaves No cofre de uns arcanos poderosos, Não creio, não, que anseio como as aves Por simples vôos livres, silenciosos. *   Na verdade que embarca em grandes naves Movida por segredos tenebrosos, Também não creio, não, que ponho entraves A testemunhos pouco rigorosos. *   Não creio, não, numa única verdade Mas creio em cada espanto que a vontade Desperta em cada homem quando, atento, *   Se permite aceitá-la inda inconclusa, E, assim, creio na fome que, profusa, Do próprio fruto retira alimento. *     Maria João Brito de Sousa - 27.04.2020 - 15.58h  

A DATA-TERMO DAS NOSSAS FACTURAS

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A DATA-TERMO DAS NOSSAS FACTURAS * Não sei se pelos meses vou passando, Se pelo fim do prazo das facturas Que, mês a mês, me impõem ir pagando, Tal qual fazem as outras criaturas * Humanas como eu, que vão gastando Água, energia e gás. E que aventuras, Que ginásticas vamos engendrando, Que milagres pedimos, que figuras * Fazemos quando o prazo está findando E os euros já se foram nas verduras, No arroz e no pão, nada sobrando... * Segunda conta-aviso... e mais tremuras! É iminente o corte, aniquilando De vez, sonhos e nervos. Vidas duras... * Maria João Brito de Sousa - 27.04.2020 - 10.39h      

SONETO SEM TÍTULO

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SONETO SEM TÍTULO ou NAUFRAGANDO, SEM MAREAR * Por que fomes passaste, companheiro Feito de pó de estrelas como eu? Que sede insaciável te bebeu Sonho, sangue e suor do corpo inteiro? * Por que alto mastro ou por que chão rasteiro Passaste a vida que te anoiteceu Enquanto um velho sonho te prendeu À pulsão de ir ao mar sem ter veleiro? * Assim te vejo. Assim me aconteceu, Velho ou menino, casado ou solteiro, Lembrar-te ou inventar-te enquanto réu * De imaginário tribunal costeiro, Entre barcas com velas azul-céu E ondas moldadas em rodas de oleiro. *     Maria João Brito de Sousa - 26.04.2020 - 14.25h     Imagem retirada  daqui

25 DE ABRIL, SEMPRE!

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25 DE ABRIL, SEMPRE! *   Chegou enchendo as ruas da cidade, Pintando cada casa de vermelho, Deixando que um do outro fosse o espelho Que em cada um espelhava a liberdade. * Semeou as sementes de igualdade Nas já cansadas mãos de cada velho E do jovem também, sem um conselho, Que tempo nunca teve, ou mesmo idade. * A todos pertencia e, por igual, De todos foi repasto e comensal Na grande mesa da libertação. * Fomos nós, povo, quem o conquistou E a nós cabe lembrar que, se murchou, Reavivá-lo está na nossa mão! *   Maria João Brito de Sousa -24.04.2020 - 10.30h   Imagem carinhosamente roubada do blog  Relógio de Pêndulo

TERRA

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TERRA *   Era uma rocha bruta, hostil à vida, Soturna de aparência e fervilhante De explosões e da lava borbulhante Que toda a recobria, como ferida. *   Milhões de anos passaram de corrida Pela árida rocha inda expectante, Ainda de estar viva tão distante Quanto de pela vida ser traída.   *   Depois, foi tanto o tempo que passou Bebendo a luz do sol, que germinou Em moléculas simples, toda inteira. *   A evolução foi sábia no que fez Quando aos poucos cobriu, de lés a lés, De vida o que antes foi fogo e poeira.  *   Maria João Brito de Sousa – 22.04.2020 – 17.49h *   Imagem retirada  daqui  

ESTATUETA ANTIGA DE PEQUENO PORTE

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ESTATUETA ANTIGA DE PEQUENO PORTE *   Já fui menina. Tonta de impossíveis, Bebi marés de sal, movi montanhas, Moldei filhos e versos nas entranhas, Fui-me ajustando ao nível dos desníveis. *   Se contada, contei-me entre os passíveis De estranhos serem entre almas estranhas, Se não contada, ousei, como as aranhas, Ir fabricando  teias invisíveis. *   Já fui a voz de todas as crianças. Inspirei belas telas e faianças. Fui de aguarela e de tinta-da-China. *   Cresci, envelheci, fiz frente à morte; Estatueta antiga de pequeno porte, Eis o retrato desta velha ruína. *   Maria João Brito de Sousa – 21.04.2020 – 11.30h  

ENTRE PILHAS DE LOIÇA SUJA

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Leia  aqui  se faz favor

SEDE(S)

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SEDE(S) *     Bem mais depressa morro se desisto De analisar o mundo, o sonho, a vida... E analiso aquilo e, depois, isto Perspectivando a coisa então escolhida. *   É imenso, esse nada que conquisto Através desta sede desmedida Que posso descrever-vos como um misto De espanto e de humildade. Se traída, *   Não sabe como nem por que viver, Murcha, entristece e deixa-se colher Pela grande gadanha, sem protestos. *   Enquanto viva e sempre que puder Tudo analisa, quer é aprender, Mesmo que lhe não sobrem senão restos.   *   Maria João Brito de Sousa – 17.04.2020 – 12.50h   Imagem - "Duas Mulheres Correndo na Praia" - Pablo Picasso

METROS QUADRADOS

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METROS QUADRADOS *     Metros quadrados, poucos, que palmilho No limiar da minha (im)paciência, Formam o palco da minha existência E o berço destes versos que partilho. *   Metros, uns tantos, que amo e que perfilho Como se impostos pela consciência Dessoutra voz sem cor nem consistência Que sussurra e ressoa qual estribilho. *   Nestes metros quadrados me enraízo, Observo o mundo e teço o meu juízo Que sempre deixo aberto a novos dados. *   De pouco, muito pouco mais preciso, Pra vos não dar excessivo prejuízo, Pr`além de uns tantos metros (en)quadrados.   *   Maria João Brito de Sousa – 18.04.2020 – 09.50h

LINDA!!!

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LINDA! *   Linda! Que bem vestida e bem calçada Passava uma menina ali defronte... Um pouco além, na linha de horizonte, Outra passava suja e desgrenhada.   * Coubera-lhe outra sorte e não ter nada, Andar descalça, beber duma fonte E morar na cabana lá do monte Era-lhe igual a ter capa dourada... *   Se era criança, ainda! Era-lhe igual Trincar côdea ou bolacha de água-e-sal E até a dura enxerga era bem vinda *   Quando o sono chegava de mansinho Depois do pão molhado em leite ou vinho Que tivera por ceia. E como é linda!   *     Maria João Brito de Sousa – 17.04.2020 -14.22h  

CORAÇÃO SUBURBANO E REMENDADO

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CORAÇÃO SUBURBANO E REMENDADO *   Coração suburbano e remendado É qual punhado de coisa nenhuma Que perdido entre agulhas de caruma Julgasse que afinal fora encontrado.   * Ao sentir-lhe o pulsar (des)compassado Como o de vaga ao desfazer-se em espuma, Ao mar o lançaria se outra escuna Mo levasse e trouxesse renovado!   * Mas nem o mar me of`rece tal benesse, Nem eu lhe of`recerei o que parece Desafinado, ainda que o não esteja. *   Pulsa enquanto pulsar lhe for possível, O punho ora rebelde, ora sensível, Que me traz presa à vida e que lateja.   *   Maria João Brito de Sousa – 16.04.2020 – 18.00h

VIAGEM POR DENTRO DE UM POEMA

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VIAGEM POR DENTRO DE UM POEMA *   Partiu de si à hora do costume, Sem ter de precaver-se em demasia Já que nesta viagem ficaria A léguas de si mesmo e do cardume. *   De si partiu depois de aceso o lume Da candeia do espanto, antes vazia Duma urgência que agora a consumia, Inda que à pandemia fosse imune. *   Partiu de si por tempo indefinido; Por um minuto ou dois terá partido, Ou talvez fossem dias, meses, anos... *   Partiu! Foi sem destino nem sentido Atrás de um verso em fuga, perseguido Por dogmas, frustrações e desenganos. *     Maria João Brito de Sousa – 16.04.2020 – 10.52h *   Fografia de António Pedro Brito de Sousa, meu pai

A HORA DO LOBO II

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A HORA DO LOBO II *     Percorri estepes que nunca pisei Usando a voz do lobo que não sou: “Matei, sempre que a fome mo ditou, Mas nunca além de quanto precisei   * Fui pai ou mãe dos filhos que gerei, Uivei de orgulho sempre que outro uivou, Morri quando o meu tempo se acabou E, quer creiam, quer não, também chorei. *   Chorei a morte do meu companheiro Que devolveu à estepe o corpo inteiro Quando por vós seguido e acossado.   * Alma, não sei se a tenho ou se a não tenho, Mas do mais alto abismo me despenho Antes de algum de vós me haver domado!” *     Maria João Brito de Sousa – 12.04.2020 – 17.46h

NÓS, HUMANOS

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NÓS, HUMANOS *   Cremos em anjos, demónios e santos, Criamos deuses de humanas fachadas, Tememos bruxas, duendes e fadas... E frágeis somos, mesmo sendo tantos! * Vemos mostrengos por detrás dos mantos Das nossas mentes pouco habituadas A questionar-se quando confrontadas Com dogmas pré-impostos por uns quantos. *   Assim somos! Assim nos coube ser Na profusão de vidas a nascer Que povoou este astro todo inteiro. *   O que me cabe a mim senão escolher, Já que negá-lo seria perder, Teimar que isto que afirmo é verdadeiro? *     Maria João Brito de Sousa – 10.04.2020 – 17.38h

ESCONDER O NILO EM TAÇA DE ESPUMANTE

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ESCONDER O NILO EM TAÇA DE ESPUMANTE *   “Nas águas inquietas deste açude” Se banha o mundo inteiro em convulsão; Sonham os velhos com a juventude, Jubilam  jovens na antecipação   *   De um futuro ideal. Se algum se ilude E cai na muito humana tentação De apenas vislumbrar sonho e virtude Onde se abre uma porta à decepção, *   Não posso condená-lo nem puni-lo, Nem poderei tentar dizer que aquilo Que julga estar tão perto, está distante... *   No entanto, é possível consegui-lo! Impossível será esconder o Nilo Numa pequena taça de espumante. *     Maria João Brito de Sousa – 12.04.2020 – 12.09h *   NOTA IMPORTANTE - Soneto criado a partir do último verso do soneto "UM AÇUDE DE ÁGUAS INQUIETAS", de MEA, seguindo o exemplo de JOAQUIM SUSTELO que assim criou o soneto "CHAMASTE POR MIM?".

GRAUS DE CONSCIÊNCIA

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GRAUS DE CONSCIÊNCIA *   No asfalto, é devagar, devagarinho Que hoje se avança. O tempo é de clausura; Quem a quebre e se faça ao (des)caminho,  Tudo e a todos arrisca na aventura. *   “Daqui à nossa meta, é um tirinho”, “A fuga à regra nunca foi loucura”, “É triste estar em casa tão sozinho”, “Tanto confinamento é já tortura!”, * São argumentos muito pertinentes Dos que serão (ou não...) sobreviventes Desta praga sem nome ou dimensão. *   No fundo, todos somos dependentes De alheios corpos e de alheias mentes; Uns disso estão cientes, outros não.   *   Maria João Brito de Sousa – 10.04.2020 – 11.16h

"PELO SEU PRÓPRIO PÉ"

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“PELO SEU PRÓPRIO PÉ”   * Há pouco, ouvi o canto insinuante De um pedaço de verso. Um verso alheio Que ficou a rondar-me e, neste instante, Ecoa cá por dentro qual gorjeio *   De ave que em mim pousasse e que, hesitante, Em seguida mostrasse algum receio... Não reisti. Segui-lhe o rasto errante Quando partiu cantando. Que outro meio *   Teria eu de ouvi-lo novamente Se é livre cada pássaro que a gente Sente pousar em nós, quando acontece *   Ver-se ou ouvir-se um verso irreverente Que canta e soa tão divinamente Que tudo o mais ofusca e empobrece? *     Maria João Brito de Sousa – 09.04.20-20 – 10.30h (?)

"VA PENSIERO"

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“VA PENSIERO” *   Voa pensamento nas asas douradas Que hoje amordaçadas espalham seu lamento... Voa contra o vento que sopra em rajadas Por ruas e estradas. Redobra de alento,   *   Voa como eu tento quando as madrugadas Passam demoradas, suspensas no tempo... Voa! Voa atento às gentes magoadas, Marginalizadas, murchando ao relento... *   Que isso que te eleva te não leve em vão; Que te sobre o pão e que ninguém se atreva A pensar que deva pôr qualquer travão *   A quem, por paixão, dê de quanto escreva... Na próxima leva, leva e traz-me, então, Mais uma fracção do que ilumina a treva!   *     Maria João Brito de Sousa – 08.04.2020 – 23.57h  

TOMAR GATO POR LEBRE ou LOBRIGAR RISCOS ONDE BRILHAM ESTRELAS

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TOMAR GATO POR LEBRE ou LOBRIGAR RISCOS ONDE BRILHAM  ESTRELAS *   Mal vejo porque os olhos baços, baços, Mais baços do que os vidros das janelas, Não deixam vislumbrar mais do que uns traços Das coisas mais comuns e  mais singelas. *   Abrem-se-me horizontes, surgem espaços Nos quais vislumbro absurdas caravelas Cruzando um céu cortado em mil pedaços Por estranhas setas que afinal são estrelas... *   Ainda exijo aos olhos que não parem De ver loucuras, se a tal me obrigarem! Ainda não entrei em desespero! *   Antes ver pouco e mal do que não ver Sequer aquilo que algo parecer, Desde qu`inda discirna esse exagero...   *   Maria João Brito de Sousa – 07.04.2020 – 17.11h