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A mostrar mensagens de agosto, 2017

COM PRAZO DE VALIDADE

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  Algumas fomes têm data certa; Uma, aos fins-de-semana e feriados, Vai-nos deixando a porta entreaberta Aos tormentos por vir, aos já passados E aos que nos surgem duma descoberta Das consequências de passos já dados Que conduziram, muito embora alerta, A sermos novamente condenados. Quem fome sinta, logo o cinto aperta, Mas outras surgem porque, aos medicados, Vai faltando o remédio que os liberta De sofrimento e morte antecipados... E uma nova fome em nós desperta; Queremo-los todos comparticipados!   Maria João Brito de Sousa – 31.08.2017 -13.16h  

NESTA PAIXÃO MAIOR CHAMADA GLOSA...

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  Nesta paixão maior chamada glosa, Deixo o melhor de mim; encho-a de amor, Mesmo sabendo que é tão caprichosa Que dela nunca sei seja o que for, Quando a ela me entrego um tanto ansiosa, Como abelha a voar de flor em flor Em busca da que entenda mais viçosa Pr`a garantir-lhe ainda mais vigor. Glosavam-se os poetas, lá por casa, E, nas reuniões da Tábua Rasa, Cheguei a ver a glosa acontecer, Por isso vos confesso que me abrasa A glosa, que é espontânea e não desfasa Daquilo que não sei senão dizer...   Maria João Brito de Sousa – 30.08.2017 – 14.56h   (Reservados os direitos de autor)  

GLOSANDO JOÃO MOUTINHO II

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  SONHO SOLTO   Sento-me, só, no colo das ideias Do verso branco que não sei parar… Sinto o dilatar de todas as veias Que pulsam em mim, sem me sossegar   Todos os elos, todas as cadeias, Todas as ondas me vão navegar E desaguar nas mesmas areias Do mesmo sol-pôr, do mesmo luar   Cavalgo as marés da tua ternura Nas dunas de pele que quero sorver… Saciando a sede na tua candura   O sonho só solto ao anoitecer No amanhecer da minha loucura No verso de amor que não vou escrever   João Moutinho POR ELA “Sento-me, só, no colo das ideias”, Enlaço-me nos braços da Razão E, apagada a chama das candeias, Confronto a minha humana condição; “Todos os elos, todas as cadeias”, Todas as formas de escravização, São coisas que não sabes, mas premeias, Não por palavras, mas por omissão. “Cavalgo as marés da tua ternura” Quando descanso e sempre que puder, Mas assim que a Razão sonda e perfura “O sonho só solto ao anoitecer”, É por ela que aceito esta ruptura E, por ela, só dela passo a ser.   Maria Joã...

ESBOÇO EXPRESSIONISTA DA SERRA DE SINTRA

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  Ontem a serra estava tão bonita! Da varanda onde estive, a pude ver E por sobre ela uma pequena fita Azul, como se enfeite de mulher, Realçava-lhe a cor viva e bendita Que de verde a cobriu, logo ao nascer E, mantendo-se viva, lhe credita A justa fama de a mais bela ser. Mil vezes nesses verdes me perdi, Mil vezes me encontrei nessa memória Quando, em chegando a noite, não mais vi No seu verde contorno, a sua glória; Não a podendo ver, relato aqui Aquilo que senti, mas nunca a história... Maria João Brito de Sousa – 28.08.2017 – 10.36h

O VIGÉSIMO QUINTO DIA

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  À pressa, sempre à pressa, tropeçou No último degrau duma escadinha E, na pressa de erguer-se, derramou Da velha mala, tudo o que continha. Foi ainda com pressa que a apanhou E apressou-se mais porque a noitinha Caía sobre a esperança com que ousou Descer a escada à pressa, assim, sozinha. Passou-se o vinte e quatro e não chegou A grandemente ansiada esmolazinha; A conta por pagar, não a pagou, Cigarros, emprestou-lhos a vizinha... Repete-se, hoje, a angústia que a levou A correr, estando quase entrevadinha. Maria João Brito de Sousa – 25.08.2017 – 11.16h  

MAPA MUNDI

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  Tentando refazer todos os passos Da minha venturosa desventura, Dei conta de me serem muito escassos Os meios de encetar essa procura Porquanto me faltavam força e braços... Faltava-me, afinal, musculatura E, de tabaco, tinha só dois maços Que é coisa que, bem sabem, pouco dura... Desisto da demanda! Se há mil espaços Na nova dimensão de outra lonjura, Porque hei-de desgastar-me em tais cansaços, Porque hei-de submeter-me a tal tortura? Deixo o meu Mar suspenso entre os sargaços E, à Terra, engendro-lhe outra curvatura! Maria João Brito de Sousa – 24.08.2017 – 11.28h   (Reservados os direitos de autor)  

O VIGÉSIMO QUARTO DIA

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  A cada vinte e quatro, por instantes, Enquanto subo e desço a escadaria, Sinto o mesmo alvoroço dos amantes E a extrema apreensão duma agonia, Quando a seguir, com gestos hesitantes, Tento pagar as contas que devia Ter já saldado umas semanas antes Do sempre ansiado e mencionado dia, Por isso, as minhas náuseas são constantes; Nunca a debilidade, a distonia, Ou mesmo outras angústias semelhantes, Me fariam sentir tanta euforia, Seguida por horror, ao ver gigantes Nas contas dos moinhos de energia... Maria João Brito de Sousa -23.08.2017 – 14.28h   (Reservados os direitos de autor)   Imagem retirada da net, via Google  

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Poetas

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  QUERIA SER POEMA   Queria ser poema, não poeta Poema que espalhasse afecto e amor Por todos os recantos do planeta Onde se dita a guerra, se faz dor   Poema que escorresse da caneta De qualquer presidente ou ditador Que ao assinar metesse na gaveta Tal decreto com fim exterminador   Queria ser poema no luar Para poder à noite iluminar Quem nada tendo dorme na calçada   Poema só com versos de amizade De alegria, prazer felicidade Lidos em cada triste madrugada     MEA 14/08/2017 UNOS, AINDA QUE SÓS “Queria ser poema, não poeta”, E tantas, tantas vezes o sonhei Que acabou por ser essa a minha meta Quando, ao último verso, enfim cheguei. “Poema que escorresse da caneta” Como sangue da carne em que o gerei, Que me deixasse grávida e repleta Do tanto que perdi quando me dei. “Queria ser poema no luar”, Ou verso apenas, sob a luz solar, Mas sempre sob um sol de todos nós. “Poema só com versos de amizade” Que nunca nos negasse a liberdade De sermos unos, mesmo estando sós. Maria João Brito ...

O INGREDIENTE PRINCIPAL

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I Um vinho tinto em vidro transparente, Um caldo verde espesso, fumegando, Um pão que sabe e cheira ao gesto quente Das mãos que o vão partindo e partilhando.   II Um copo que se entorna, de repente, A sopa na terrina, já esfriando, Brotam palavras da fornalha ardente Dos gestos doces que as vão convocando.   III Dois corpos que se enlaçam, se dobrando Sobre uma mesa que já vai sobrando, Matam a fome que se torna urgente,   Esquecidos, ambos, de que estão jantando, Porque esse abraço foi-se transformando No mais apetecido ingrediente.       Maria João Brito de Sousa – 21.08.2017 – 16.26h   (Resevados os direitos de autor)

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE - Barquito/Jangada

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UM BARQUITO NO TEJO Lá ao longe nas águas cor de prata Onde o sol se refresca ao fim do dia E onde o Tejo convida uma fragata Vai um barquito, só...sem companhia   Vai sereno na sua passeata Deslizando em reflexos de poesia Sob a ponte onde a água é mais pacata Quando a tarde é já cor de fantasia   Parece quedo ali ao meio do rio... Somente o balouçar lento e macio Denota que ele vai a navegar   De vela içada segue o seu destino E ao leme leva um sonho de menino Feito de sol de brisas e de mar   MEA 20/08/2017 ******** JANGADA DE SONHOS “Lá ao longe, nas águas cor de prata”, Flutua uma jangada aventureira Humilde, porque toda se recata, Sem âncora, sem rumo e sem fronteira. “Vai sereno/a na sua passeata”, Ao sabor das marés voga ligeira; Só nas cristas das ondas se retrata E só no azul do céu se espelha inteira. “Parece quedo/a, ali, ao meio do rio”, Onde não passa mais nenhum navio; O mar que a espera é seu, de mais ninguém! “De vela içada segue o seu destino” Deixando atrás de si o r...

O CONVITE II

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  (Soneto de métrica imperfeita/irregular) Porque chegaste desequilibrado, Porque partiste sem te equilibrar E, tropeçando em teu passo apressado, Me convidaste sem me convidar? Porque me deste um beijo descuidado, Porque me amaste sem nunca me amar, Porque deixaste este cheirinho a fado E bossa-nova, quase a combinar? Se foi convite, chegou-me atrasado, Se foi adeus, esqueceu-se de acenar E foi-se embora quase envergonhado Para não ter de ouvir-me perguntar; Como é que pode alguém, sem ter voltado, Dar-me esta sensação de por cá estar?   Maria João Brito de Sousa – 19.08.2017 – 08.31h    

GLOSANDO CHICO BUARQUE

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  SONETO Por que me descobriste no abandono Com que tortura me arrancaste um beijo Por que me incendiaste de desejo Quando eu estava bem, morta de sono? Com que mentira abriste meu segredo De que romance antigo me roubaste Com que raio de luz me iluminaste Quando eu estava bem, morta de medo? Por que não me deixaste adormecida E me indicaste o mar, com que navio E me deixaste só, com que saída? Por que desceste ao meu porão sombrio Com que direito me ensinaste a vida Quando eu estava bem, morta de frio? Chico Buarque SONETO II Porque vieste assim, louco e sem dono, Falar-me de mil coisas nunca ouvidas E me afagaste com mãos decididas, “Quando eu estava bem, morta de sono?” Porque bateste à porta, manhã cedo, E me ofuscaste em luz, na luz que entrava Por essa mesma porta que eu fechava, “Quando eu estava bem, morta de medo?”   Porque é que me quiseste dividida, Se inteiro preencheste este meu rio “E me deixaste só, com que saída?” Porque foi que sorveste cada fio Duma água que jamais fo...

SE EU PUDESSE, NÃO PODIA

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  (Soneto em decassílabo heróico) Se eu pudesse despir-me de razões, Minhas asas ao vento deitaria Ou, mesmo desasada, voaria Sem rumo, sem destino e sem paixões. Mas tem, este meu “se”, contradições; Eu sei lá se a paixão me moveria Nesse acto de voar, nessa ousadia De rebelar-me contra as convenções? Confesso que já houve ocasiões Em que qualquer paixão me perderia E, não fora a razão, despir-me-ia Cedendo às ilusórias tentações... Mas vem pôr-me, a razão, novas questões E, afinal, se eu pudesse... não podia!   Maria João Brito de Sousa – 18.08.2017 – 11.23h  

A SEREIAZINHA

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A SEREIAZINHA   * (Soneto em verso hendecassilábico) * Uma maré-cheia, duas marés cheias, Três marés tão cheias que já transbordaram, São as coisas belas que de mim ficaram (se não forem belas, tão pouco são feias) * E caso surgisse galgando as areias Onda que espantasse gentes que as pisaram Logo de olhos postos nos que se espantaram Alguém juraria: - São belas sereias! * Mas... coitadas delas, meras invenções Deste nosso infindo, estranho imaginário, Cantam nem sei como porque, sem pulmões, * Faltando-lhes órgão tão prioritário, Depressa se esvaem nas contradições; Na rocha, a sereia sonha um mar lendário. * Maria João Brito de Sousa – 15.08.2017 – 10.36h  

CALEIDOSCÓPIO

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  (Soneto em verso hendecassilábico) Nasci sendo parte de outro cinescópio; Desde os meus primeiros momentos de vida Via, em cada letra, um caleidoscópio E a frase sorria de tão colorida... Só sentido faço deste modo impróprio E só me concentro quando diluída, Mas nunca me digam; - Foi consumo de ópio... Pois desta maneira fui nada e parida! Sei ser muito humana, mas não sei se sei Explicar subtilezas que só eu distingo... Talvez o consiga, depois o verei, Caso sobre ainda uma gota, um pingo, Disto que, em verdade, sempre vos contei... Chamam-me aldrabona? Nem assim me vingo!   Maria João Brito de Sousa – 14.08.2017 – 13.59h     NOTA - Estas letras e dígitos não apresentam as cores com que eu mentalmente os vejo.   

DEPOIS DA MARÉ-CHEIA...

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  DEPOIS DA MARÉ CHEIA *   Que faço de um poema que não pinto, Nem burilo, polindo-lhe as arestas? Que faço ao que me escapa pelas frestas, Daquilo que não vejo ou que não sinto? * Que faço, já que eu própria me desminto Pois vou desperdiçando em mornas sestas As horas de criar, quando em giestas Podendo transmutar-me, o não consinto? * Ah, toda a minha vida andei correndo E agora repouso, compreendo... Mas pudesse eu correr como corria * E garanto que, ainda que morrendo, Seria mais veloz, menos doendo Depois da maré-cheia, outra, vazia. * Maria João Brito de Sousa – 11.08.2017 – 11.40h  

UM MOSQUITO NO COPO DO LEITE II (Em setenta e sete palavras)

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UM MOSQUITO NO COPO DO LEITE II *   Olho o copo de leite que aquecera E emito logo involuntário grito, Porquanto, nesse copo, acontecera Boiar um desgraçado dum mosquito! * Sem saber por que raio se metera Esse insecto no leite que ora fito, Penso: - Quando mosquito assim se esmera, Fica qualquer humano apoucadito! * Em leite, nunca nado... e sou mulher! Como pode um flebótomo fazer Tamanha veleidade, ousar assim? * Talvez tenha pousado pra beber E mergulhado sem se aperceber Que o leite desse copo era pra mim. *   Maria João Brito de Sousa – 06.08.2017 – 13.10h   Imagem retirada do Google  

UM MOSQUITO NO COPO DO LEITE (em cem palavras)

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UM MOSQUITO NO COPO DO LEITE *   Neste copo de leite anda um mosquito! Que falta de cuidado e de respeito Por parte de quem faz, do leite, um mito, Por parte de quem vê, no mito, um feito! * - Senhor, peço um favor, não fique aflito Que eu salvo a situção de qualquer jeito! Vou buscar outro copo e não repito O erro de o deixar no parapeito... * - Ao erro cometido, lho credito E juro que não peco por defeito, Pois posso garantir que assim que o fito * Vejo alguém que não faz nada direito E está mais que ditado o veredicto: Mosquitos no meu copo... nunca aceito! *   Maria João Brito de Sousa -04.08.2017 – 10.18h   NOTA - De visita a um blog amigo, fiz algo que muito raramente faço; cliquei no "nick" de um dos comentadores e, de acaso em acaso, acabei por ir dar a um blog que propunha uma história sobre um mosquito num copo de leite, em setenta e sete palavras. A curiosidade foi grande e não pude resistir à tentação de conseguir um soneto perfeito com as tais setenta e sete pala...

RUGA A RUGA

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     Eu reivindico as rugas! Ruga a ruga, Fui conquistando ao tempo a Poesia, Esta que agora gravo, inda que, em fuga, Mais pareça criar desarmonia, Porquanto, cruamente, a dor me aluga Os sentidos em flor com que escrevia E nem a melodia em mim madruga Como há bem pouco tempo acontecia... Foi, no entanto, delas que me veio Cada verso daquel`s por que hoje anseio E que não trocarei por coisa alguma; Venham mais rugas porque as não receio! De falsidades anda o mundo cheio E, às minhas, conquistei-as uma a uma! Maria João Brito de Sousa – 03.08.2017 - 11.35h Dedicado à MEA e escrito após a leitura do seu lindíssimo soneto “Não Deixem que me Vista de Saudade”.   Imagem retirada da Fábrica de Histórias