DAS TOURADAS E DAS GRANDES CONVICÇÕES - Carta aberta ao meu avô poeta
… e depois, António, eles benzer-se-ão e partirão gloriosos para a mortandade sem que os tenhamos podido desculpar e agradecerão as palmas com a consciência do ritual cumprido e haverá crianças - crianças como eu era quando, ao vê-los, fugia do ecrã da televisão… -, haverá crianças, António, que também baterão palmas e que crescerão embaladas pela apoteótica matança, abençoadas pelo deus a que eles se confiaram e em que eu nunca acreditarei porque, perdoa-me, António, eu não posso, nem quero, acreditar nesse mesmíssimo deus cruel e estúpido, se ele for tão estúpido e tão cruel que abençoe a ritualização da tortura… Ou fomos nós que sempre estivemos enganados? Ou fomos nós que errámos quando condenámos a raiz comum de todas as descriminações e de todas as atrocidades? Ou éramos só nós que víamos, nos olhos do touro, a mesma inocência dos dos cristãos novos, no Paço, dos dos negros, nos porões das naus, dos dos judeus, em Auschwitz, dos dos nossos amigos, nas masmorras da Pide? ...