GLOSANDO ARY DOS SANTOS
SONETO DE MAL AMAR Invento-te recordo-te distorço a tua imagem mal e bem amada sou apenas a forja em que me forço a fazer das palavras tudo ou nada. A palavra desejo incendiada lambendo a trave mestra do teu corpo a palavra ciúme atormentada a provar-me que ainda não estou morto. E as coisas que eu não disse? Que não digo: Meu terraço de ausência meu castigo meu pântano de rosas afogadas. Por ti me reconheço e contradigo chão das palavras mágoa joio e trigo apenas por ternura levedadas. Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras' SONETO DE MAL-LEMBRAR "Invento-te recordo-te distorço" Essa velha memória desgastada Pelo tempo passado, pelo esforço, Pela estrofe que passa, desgarrada. "A palavra desejo incendiada"; Erro de paralaxe, ou óbvio escorço Duma memória em versos recriada Que é, da figura humana, apenas torso. "E as coisas que não disse? Que não digo (:)" Sobre as fomes de um pão que encontra abrigo Em quadras e sextilhas (en)cantadas? ...