Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2011

MEMÓRIAS DE UMA FLOR À BEIRA MAR

Imagem
  Floriram meus amores em plaga incerta Quando um botão de cravo, a despontar, Irrompeu pelas dunas de luar Do dealbar da minha descoberta   Eu debruçada e já janela aberta Sobre aquilo que estava por chegar, Relembro, dessa praia, o mesmo mar Que me induzira em tão premente alerta   Pois, no desabrochar de cada flor, Há um tempo de riso e outro de dor, Um para receber, outro pr`a  dar;   Um tempo só de pétalas e cor E outro de recordar um velho amor A que nem mesmo a flor soube escapar.         Maria João Brito de Sousa – 29.07.2011 – 16.24h      

SOU DO MAR!

Imagem
  SOU DO MAR!   * Sou do mar na estranhíssima alquimia Que me transforma em fogo e pedra e gente E também desse mar que, à revelia, Se me sucede a cada sol nascente;   Da mesmíssima força em que ele nascia Renasce, dia a dia, o meu presente, E sinto exactamente o que ele sentia, E sou exactamente o que ele consente.   Sou do mar no processo indecifrável Que admite a simbiose entre o provável E aquilo que ninguém pode provar   Mas, fruto desse jogo, eu sou palpável E nessa mutação, nem sempre estável, Eu sempre acreditei que sou do Mar!       Maria João Brito de Sousa – 26.07.2011 – 13.00h  

MADRUGADAS E OUTROS RECOMEÇOS

Imagem
Fica tão triste a cor das madrugadas Em que o sol se esqueceu de vir brilhar E as nuvens plúmbeas crescem, desoladas, Sobre os últimos raios de luar   Mas, em compensação, outras, ousadas, Rompendo o escuro manto irão mostrar O azul do céu às vidas ensonadas Que agora mesmo acabam de acordar   Há sempre um cravo aberto na janela De cada madrugada que não esqueço Nas horas de um porvir que se aproxima   E, se alguém se esqueceu de olhar pr`a ela, Eu escrevo outro poema e recomeço No primeiro amanhã que nasça em rima       Maria João Brito de Sousa - 2011.07.22 - 12.17h

DE QUE ME FALAS TU, QUE ME NÃO SABES?

Imagem
  DE QUE FALAS TU QUE ME NÃO SABES? * Não me falas da pátria que mal vês Num povo que procura identidade. Falas do “teu” país mas, na verdade, Nem sei se hei-de chamar-te português. *   Não me falas das leis da natureza Pois nunca as encontrei no que tu dizes; Negas sabedoria aos aprendizes, Mas não saberás mais, tenho a certeza! *   De que me falas tu que me amordaças Quando vislumbro um pouco da verdade E tento partilhar o que descubro? *   Não te digo mais nada se ameaças Vergar-me o tronco firme da vontade Para arrancar de mim o cravo rubro! *   Maria João Brito de Sousa 2011   IMAGEM - Eu, aos seis anos, com o pai e a mãe

HORAS QUE SABEM BEM E, OUTRAS, BEM MAL...

Imagem
Nos dias em que o sol vem, de mansinho, Falar de aspirações e de horizontes, Em chegando às janelas do meu ninho, Abro-as de par em par, lanço-lhe pontes!   Da terra vem-me um cheiro a rosmaninho Regado pelas águas de outras fontes E quando o vento sopra em remoinho Movem-se as verdes copas sobre os montes…   Mas não fico a chorar se a chuva cai, Se o vento sopra tanto que lá vai O lençol que estendi no meu estendal…   São coisas desta vida, eu sei-o bem, E tenho, tal e qual a vida tem, Horas que sabem bem; outras… bem mal!       Maria João Brito de Sousa – 19.07.2011 – 19.27h       IMAGEM - Mapa meteorológico retirado da internet, via Google

NÓS DA MESMA CORDA

Imagem
Ele há dias assim, contraditórios, A que podemos lá dizer que não E, mesmo com poemas meritórios, Julgamos ter perdido inspiração…   Já lhes conheço bem os repertórios Por isso vos proponho a condição De só os mencionar se abonatórios Dos dos dias dos poemas que virão;   Lembro-me bem de um dia, era eu menina, - só o quero lembrar porque, em crescendo, vi bem que não seria tão tremendo… -   Em que me vi herdeira de má sina… [e porque, volta e meia, ele mo recorda,  tento atá-lo a dois nós da mesma corda…]     Maria João Brito de Sousa

A FLOR E A ARMA

Imagem
    METAMORFOSE   “Tenho alma de papoila; mal se toca, mal se agita, caem-lhe as pétalas todas e fica morta, despida   noutras vezes, a papoila, só por força do dever, transforma-se em rocha dura resiste à dor, à tortura, nada a pode comover   mas, rocha bruta ou papoila, no palco fica a Mulher; eu, metamorfoseada em anjo ou alma-penada, ora papoila, ora fraga, conforme vos convier”     Maria João Brito de Sousa - 1993(?)   Poema introdutório, escrito por mim no Verão de 1993       A FLOR E A ARMA   * Dei-vos a flor das armas que não tinha - ou tinha e quereria nunca usar... - E a dupla imensidão desta alma minha Num corpo que a mal sabe resguardar,  * Entreguei-vos a espada, sem bainha, Na baioneta, pronta a disparar, E ninguém reparou que ela, sozinha, Se transformava em flor pr`a vos cantar  * Por isso já não sei se arma, ou se flor, Mas seja ela aquilo que ela for, Ninguém pode negar-lhe a dupla vida *  E, ao entregá-la com tão grande amor, Com ela disparei, sem mágoa ou dor, Um ve...

O SEM NOME

Imagem
Um homem que tem nome e não tem nome Numa terra qualquer, que não é sua, Nuns dias a comer, noutros, com fome, Esmolando o dia-a-dia em cada rua,   Numa busca incessante, que o consome, Que o faz ser quem não é, que o desvirtua, Que o leva a não saber que rumo tome Na estrada que a miséria tornou crua…   Esse homem que partiu, talvez não volte… Talvez essa miséria nunca o solte, Talvez a fome o leve um destes dias,   Talvez seja mais um dos que, à partida, Arriscaram – quem sabe? – a própria vida Por causa do tal excesso em que vivias…     Maria João Brito de Sousa      IMAGEM RETIRADA DA INTERNET - "O Emigrante" - Charlie Chaplin

NEM SÓ...

Imagem
Nem só de ambiguidades e sorrisos Se faz a Poesia de um país E nem sempre se fazem bons juízos Se um poeta, a escrever, diz ser feliz,   Pois há sempre uns murmúrios de raiz Sobre as razões pr´a ter, ou não ter, siso, Quem, sendo pobre, não se contradiz E faz surgir, do nada, um paraíso…   Por vezes está doente e sente dores Mas, nem que venham mil e um horrores, Alguém pode afirmar que, arrependido,   Pudesse ter inveja dos senhores Que falam muito e que recebem flores Apesar de um discurso sem sentido…       Maria João Brito de Sousa

PESCADORES - "Soneto" experimental com versos de nove sílabas métricas

Imagem
  Será sempre miséria o que temos Porque é sempre no mar que buscamos Esse tanto que nunca tivemos Do manjar que, não tendo, vos damos   Sobre o mar, que é tão nosso, crescemos, Defendendo os interesses dos amos, Retirando da força dos remos Cada metro do chão que varamos   Quando às redes dos braços trazemos Todo o peixe que agora pescamos Somos nós e só nós que sabemos   Quanta luta de morte enfrentamos Nestes braços cansados que erguemos Pelo pão que jamais vos negamos!         Maria João Brito de Sousa – 09.07.2011 – 17.09h  

OUTRO MISTÉRIO DE LISBOA

Imagem
Sou do Tejo no abraço em que Lisboa Se dá ao mar e, desse mar, reclama Esse amplexo ideal, que não magoa, Que nasce do poema, quando a chama   Virei dessa atracção sem raciocínio Com que ela seduziu um mar vadio E nascerei, também, do seu fascínio Sempre que à noite a canto à beira rio…   Esta minha cidade é como eu sou, Tem a mesma magia em que me dou Nos versos que lhe escrevo em cada dia…   Mistérios não se devem desvendar Mas sei que a cada abraço do seu mar Reinventa o mesmo amor que a principia…     Maria João Brito de Sousa

AMADA FILHA DO MAR

Imagem
Eu sei que tenho manhas e manias Pois tento ser aquilo que Deus quis Mas juro que é assim que sou feliz, Fazendo, certamente, o que devia…   Se a metáfora surge… é por magia! Não sei explicar, de todo, o que ela diz, Mas diga o que disser, sei bem que fiz Exactamente aquilo que ela queria…   Nas manhãs em que, ouvindo a voz do mar, Me sinto tão mais viva e tão mais eu, É dentro do meu mar que encontro o céu   Posso ser só um fado por cantar Mas sei que cada vez serei mais ilha Por ser, deste meu mar, a amada filha.       Maria João Brito de Sousa – 10.07.2011 – 20.27h

UM SONETO PARA OS MAIS PEQUENINOS - O pardalito capturado

Imagem
Há um murmúrio quase inexistente Nas asas sussurrantes de um pardal Quando passa por nós e mal se sente, Quando, ao passar por nós, pressente o mal…   Um de nós dá-se conta e, de repente, Levanta a mão no ar, de forma tal Que, num gesto, captura o imprudente Que ousara uma intrusão no seu quintal…   Pardal quer liberdade e não gaiola! Não quererá viver quando, por esmola, Lhe of`recerem migalhas e poleiro…   Nascido pr` a reinar sobre os telhados, Por mais que lhe dispensem mil cuidados, Depressa morre quando em  cativeiro…     Maria João Brito de Sousa – 06.07.2011 – 21.43h     IMAGEM RETIRADA DA NET

REVISITAR ABRIL NO VERÃO GELADO DE 2011 - Olha as ruas!

Imagem
Olha as ruas que o povo engalanou Com cravos a nascerem das chaimites, Olha as ruas que eu quero que visites Nas imagens dos versos que te dou…   Olha as ruas e vê se já chegou A hora libertária em que acredites, Que não tenha lugar para os “palpites” De quem as viu mas nunca acreditou…   Olha essas ruas cheias de vontade De voltar a gritar que a liberdade Está pronta pr`a tomar um novo rumo!   Olha os braços das ruas apontando O caminho que o povo vai tomando… E o medo há-de passar desfeito em fumo!     Maria João Brito de Sousa – 04.07.2011 – 21.04h   Fotografia de Eduardo Gageiro retirada da internet via Google

BRINCAR AOS IMPOSSÍVEIS

Imagem
Vem meu amor, vem brando e descartável, Com a máxima urgência que imagines, Moldar-me esta vontade indecifrável Que eu sempre duvidei que tu domines…   Vem depois deste aviso - o que é louvável… - Ver se há, ou não, caminho que destines E dar-me o teu conselho… esse improvável Das linhas com que – pensas… - me defines.   Vem sempre de passagem, sem que faças Do meu poema a tua residência, Subtil como um enigma irresolvível,(*)   Passando sem notar as ameaças Que nascem das alheias conivências E crescem sem tornar-te, a ti, possível…       Maria João Brito de Sousa - 04.07.2011   * - "Irresolvível" - Neologismo criativo para insolúvel.  Na minha opinião a poesia não deve mostrar-se completamente fechada à ocorrência de um ou outro neologismo criativo. Querem-se, no entanto, muito esporádicos e nunca saturando gratuitamente um poema.   IMAGEM - Tela de Ernst Ludwig Kirschner - pintor expressionista