GLOSANDO FERNANDO PESSOA III
QUALQUER COISA DE OBSCURO PERMANECE Qualquer coisa de obscuro permanece No centro do meu ser. Se me conheço, É até onde, por fim mal, tropeço No que de mim em mim de si se esquece. Aranha absurda que uma teia tece Feita de solidão e de começo Fruste, meu ser anónimo confesso Próprio e em mim mesmo a externa treva desce. Mas, vinda dos vestígios da distância Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia. Remiu-se o pecador impenitente À sombra e cisma. Teve a eterna infância, Em que comigo forma um mesmo ente. Fernando Pessoa (In, pensador.uol.com.bras) CONTRASTE (Chiaroscuro) "Qualquer coisa de obscuro permanece" Na sombra de uma luz, quando se acende O brilho da luzerna que pretende Iluminar alguém que a não conhece; "Aranha absurda que uma teia tece", Que fia cada fio que em manto estende, Porquanto desse manto ela depende E tão só pelo manto permanece, "Mas, vinda dos vestígios da distância", Como um resto de c...