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A mostrar mensagens de junho, 2018

EU, O LOBO

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  EU, O LOBO (Soneto de Coda) Sou um lobo e nasci para predar Quanto me baste pra me garantir, Bem como a todo o fruto que gerar Na compulsão de me reproduzir, Todo o bicho passível de matar A dureza da fome que eu sentir, Que também eu a sinto a protestar Quando o sustento vai tardando em vir... Se te assusto nas noites de luar C´o uivo prolongado que emitir, Mais a mim me violento, se o calar! Mais tu matas do que eu possa caçar E bem mais do que a fome te exigir; A ti, dono e senhor do teu mal-estar, Que apenas caças para te exibir, Que mais posso dizer-te pra mostrar Ter, também, o direito de existir?       Maria João Brito de Sousa – 27.06.2018 – 13.48h

MIOPIA(S)

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  MIOPIA(S) A musa está esgotada e já não esgrima Os floretes dos versos com mestria; A lâmina gastou-se, rima a rima, E embotou-se-lhe o gume à fantasia. Enverga uma armadura que abomina Que a sufoca, que a aperta e que a arrepia, Porque há questões que a musa não domina Quanto às contradições da Poesia, Por isso hesita e toda se sublima, De florete na dextra, contra o clima Que extrema, quando em extremos se extasia Pois, crendo ver à frente uma obra-prima, Avança e logo dela se aproxima, Mas mais não vê que a própria miopia... Maria João Brito de Sousa – 24.06.2018 – 13.14h  

FUTURO IMPERFEITO

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  FUTURO IMPERFEITO Num porto inseguro, um futuro imperfeito Promete a seu jeito. Com jeito o esconjuro Que a outro futuro, só outro, eu aceito; Não muda o conceito, depois do que apuro! Saltando algum muro, espraiada no leito De um quarto desfeito pintado de escuro, Nunca me descuro, mas pouco me enfeito; Meu crivo é bem estreito, não tem nem um furo E nem estrangulada por ferros de algemas Fiquei afastada dos sons, dos fonemas, Dos velhos poemas que nascem do nada Na terra lavrada por falsos sistemas... Meu fruto, entre os temas da voz divulgada, Qual fruta bichada, só causa problemas.       Maria João Brito de Sousa – 20.06.2018 – 10.47h  

SEMENTINHA(S)

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  SEMENTINHA Ó minha língua, minha Língua-Mãe, Por cá, cheirando a salsa picadinha, A açorda de alho, a azeite e a sardinha Pingando sobre o pão, como convém, Por lá, temp´rada de óleo de dendê(m), Bebendo água de côco ou caipirinha E pondo, na muamba de galinha, O gindungo, que ardeu mas soube bem... Abriste em flor e nada mais detém Os ventos que te levam muito além Da “cosa nostra” desta terra minha, Mas tem cuidado, não te arranque alguém A raiz que frondosa te mantém No chão de onde brotaste, sementinha! Maria João Brito de Sousa - 26.06.2014 – 13.17h (No hospital de Egas Moniz)  

ROL DE VERSOS

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  ROL DE VERSOS   Do mal que me governa ou desgoverna, Do bem que eu faça ou deixe de fazer, De Platão, quando engendra uma caverna, Dos muitos que à caverna irão descer,   De uns tantos que a subiram sem lanterna, Do Sol que nasce a cada amanhecer, Da Lua quando prenha ou da taberna Onde homem e mulher a vão beber,   Dos dias em que a noite é quase eterna, Dos vivos que desistem de a viver, Dos soldados de chumbo sem caserna,   Do chumbo que os atinge e  faz morrer E, deste rol de temas, a fraterna Partilha dos poemas que eu escrever.     Maria João Brito de Sousa – 24.06.2018 – 18.09h

NAS ARTÉRIAS E VEIAS DA CIDADE

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  NAS ARTÉRIAS E VEIAS DA CIDADE     O sangue inunda as veias da cidade Vindo da fonte humana que o contém, E só por uns instantes se detém Para beber um copo na Trindade,   Para dizer bom dia a quem lá vem, Pra dar-se num abraço de saudade, Pra comer uns natinhas em Belém, Ou na Avenida que é da Liberdade.     Corre o seu sangue em puro descompasso Do Marquês ao Terreiro que, do Paço, Passou a ser do povo que é sa(n)grado,   E nessa imensa/infinda hemorragia, Esvai-se a cidade inteira, dia a dia, Ao som das mansas notas do seu fado.         Maria João Brito de Sousa – 22.06.2018 -15.48h      

ALHO PORRO

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  ALHO PORRO Se à rua sais levando um alho porro Para enfeitar a noite ao São João E alguém, ao ver-te, grita por socorro, Não sabendo o que trazes tu na mão, Segue em frente. Nas ruas que percorro, Na da Memória e na da Tradição, Encontras quem recorde o que eu discorro E te devolve, rindo, o gesto são. O martelinho de hoje está distante De trazer-me a alegria esfusiante Do “porro” dos meus tempos de menina, Quando o brandia em gesto triunfante Ou, fingindo ter medo do tratante, Me apressava a esconder-me em qualquer esquina.   Maria João Brito de Sousa- 23.06.2018 – 19.40h    

SONETO AO POOOOOOOSTE!!!

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SONETO AO POOOOOOSTE!!! Escreve a ponte-de-lança – e vai lançada... , E falha numa nota – Assim, já foste!, Mas nem a multidão se ergue exaltada, Nem se ouve alguém gritar: - Soneto ao pooooste! Continua a escrever... não se ouve nada, Mas pode bem haver quem não desgoste Da nota musical mais afinada Que escanda entre jogadas que nem mostre... Foi golo ou não foi golo? É sempre incerto Torcer por quem da morte está tão perto Que só sabe estar viva porque escreve E não desiste de ir compondo um tango... Alguns irão espalhar que “meteu frango”, Mas mais nada lhe importa e... entra em greve.     Maria João Brito de Sousa - Entre 18.06.2016 (primeira estrofe) e 18.06.2018 (estrofes seguintes)    

TOLERÂNCIA ZERO

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  TOLERÂNCIA ZERO     Mas onde e quando ouvi a mesma história? Ouvi-a de Treblinka e de outros mais Onde os filhos morriam sem os pais, Sem um nome, sem tempo e sem memória   Em nome de uma abjecta, absurda glória Por causa de um punhado de ideais (que o foram, muito embora o não creiais...) Engendrados de forma aleatória.   Quão perversa se torna a raça humana Se se dizima e a si se desengana Quando se extrema em sonho... ou pesadelo?   Como prever ou como prevenir Toda a desgraça que estará por vir Se se repete ainda este modelo?     Maria João Brito de Sousa – 21.06.2018 – 15.05h   Imagem retirada da Net, via Google  

... ME APAGO, SE ACESA...

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  … ME APAGO, SE ACESA... O crime das horas, nestas horas minhas, É, quais libelinhas, quais aves canoras, Serem sedutoras, mas também daninhas, Não para estas linhas dardejando auroras, Mas para as penhoras dos reis, das rainhas Que deixam sozinhas as mãos produtoras, Essas, sim, senhoras dos trigos, das vinhas, Das frutas fresquinhas sempre tentadoras... Deixando-me ilesa, correm muito lestas, Passam pelas frestas, sopram sobre a mesa, Levam de surpresa rascunhos, palestras... São vivas arestas às quais fico presa; Fundem-me à certeza de etéreas orquestras, Estas horas. Nestas, me apago, se acesa. Maria João Brito de Sousa – 19.06.2018 – 19.42h       Soneto dedicado ao poema O CRIME DAS HORAS, de António Codeço.        

O ÚLTIMO DEGRAU

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  O ÚLTIMO DEGRAU Beijou, espantado, o último degrau, Saiu cambaleando até cair Redondo e tão sem vida quanto um pau Que não servisse mais, nem pra partir... Dos passos dados, nenhum fora mau E a este, nem cuidou de o prevenir; Foi num rompante que passou a vau O rio que separava o seu porvir, Do caixão onde cumpre agora a morte, Só porque, no degrau, foi a má sorte Quem o veio buscar quando caiu. Por mais que seja um homem fraco ou forte, Pode perder da vida o passaporte Por causa de um degrau que ninguém viu... Maria João Brito de Sousa – 17.06.2018 – 18.10h  

CONVERSANDO COM ALBERTINO GALVÃO - VALORES

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  FALO DO QUE SINTO   (soneto hendecassílabo com rimas encadeadas)     Já mortos, no tempo, andam os valores mas nascem “senhores” neste nosso chão que serão, ou não, por formação doutores... porém... estupores?!... Isso eu sei que são!   Com ou sem razão, a esses tais “senhores” chamo ditadores e aos que a eles dão, por bajulação, aplausos e louvores chamo de impostores! Digam lá que não!?   Sempre fiz questão de escrever de falar... sem medo apontar injustiças que vejo jamais p’lo desejo de ser aclamado...   foi-me já legado! Sem me comparar a Ary vou gritar, porque nele me revejo, não sou nem almejo ser vate castrado!     Abgalvão   ...*…     TAMBÉM DO QUE SINTO, FALO!     Também do que sinto falo sem pudor, Sem mudar de côr. Sobre essas, não minto, Nem douro, nem pinto valor que é valor, Nem que erga o teor à dor que hoje consinto     E que evito e finto, seja como for... Sem um só rubor, direi tudo o que sinto Sem branco nem tinto que altere o sabor, Melhor ou pior, do que é claro...

CONVERSANDO COM JOAQUIM SUSTELO - TEMPO

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  MURMÚRIOS DO TEMPO   Às vezes há murmúrios pelo tempo… O vento geme em portas e janelas As nuvens dissimulam as estrelas O sol fica sem brilho, pardacento O céu muda de azul para cinzento A chuva traz-nos novas aguarelas; Mudando a Natureza as suas telas Talvez ela até faça algum lamento   Porém o tempo chora e há beleza No cinza de que veste a Natureza Embora haja uma bruma no seu rosto   Serão choros do tempo, de tristeza? Há tratos que lhe damos com rudeza Talvez haja no choro algum desgosto...     Joaquim Sustelo   (editado em MURMÚRIOS NO TEMPO)   ...* ... SILÊNCIOS DO TEMPO Outras vezes o Tempo silencia As vozes murmuradas dos poetas, Guardando-as em caixas tão secretas Que nem um adivinho as acharia E ninguém sabe por que as guardaria, Por que razão as cala se, directas, Essas vozes se erguiam muito erectas No tempo em que o poema resistia. Lamentos, ou sorrisos, ficam mudos Nas gavetas dos linhos, dos veludos E das sedas que o Tempo resguardou Dos humanos ouvidos, quais riqu...

CONVERSANDO COM JAY WALLACE MOTA

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  PAIXÃO DE NAMORADOS Como a chama reclama combustível, Para manter-se acesa e aquecida, A paixão, igualmente perecível, Depende do desejo pra ter vida. Como a chama, a paixão é suscetível  De extinguir-se depois de consumida, Mantendo-se, porém, inexaurível, Se a fonte dos desejos for mantida!   Não a fonte da eterna juventude,  Mas a tal sensação de plenitude Que completa os casais apaixonados;   Que funde, além dos corpos, nossas almas Nas chamas da paixão, que, mesmo calmas, Nos fazem para sempre namorados!     Belém, 12 de junho de 2018. Jay Wallace Mota.   ...* ... A CHAMA DA AMIZADE E quando a chama acesa permanece Cúmplice, humana, atenta e solidária, Quando por tudo e nada se enternece E emana uma luzinha igualitária, Será companheirismo, o que enaltece Essa luz que julgámos temporária, Mas que reluz ainda e mais parece Ter-se tornado humana luminária. Não explode em grandes brilhos de paixão, Mas vai-nos garantindo a combustão Por muito, muito tempo, essa luzinha Que se acend...

RIBEIRA DE OEIRAS

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  RIBEIRA DE OEIRAS     A minha ribeira, hoje tão distante, Corria cantante mesmo à minha beira... Agora, ligeira, passa-me adiante E eu, cambaleante, dou-lhe a dianteira. Passa pela feira calma e sussurrante, Depois, num rompante, faz-se toda inteira Ao mar. Ah, ribeira, morres triunfante No mais belo instante da tua carreira! Lembro uma clareira, clara e verdejante, Na qual lendo Dante pela vez primeira, Te escutei, ribeira do rumor constante, Dar-te ao mar amante na foz derradeira... Nenhuma fronteira tinhas por diante; Só eu, lendo Dante, te invejei, ribeira. Maria João Brito de Sousa – 16.06.2018 – 00.23h   Imagem - "Petite Liseuse", Jean Baptiste Corot  

CIDADE SEM SENTIDO(S) - Editado e declamado por ALBERTINO GALVÃO

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LEDO, LEDO ENGANO...

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  LEDO, LEDO ENGANO... * (A História, na perspectiva do povo conquistado) * Venho falar do ledo, ledo engano dos feitos mais que gastos, desgastantes, de uma vã glória que só trouxe dano a povos e mais povos, tão distantes... * Camões cantou Neptuno, mas Vulcano foi quem dizimaria os habitantes de civilizações que, ano após ano, foram tombando às mãos dos navegantes. * Doenças, preconceito e escravidão, foram minando povos. A prisão que era imposta ao nativo e ao seu destino, * Fez do seu chão um chão de reclusão e, não mais sua, a própria fruta-pão lhe foi roubada. Em nome do Divino. * Maria João Brito de Sousa – 10.06.2018 – 13.47h     NOTA – Salvaguardando todo o imenso respeito e admiração que nutro pela poesia épica do enorme Luís Vaz de Camões, lembro que a História veste sempre duas capas; a do conquistador, que prevalece, e a do conquistado, quase sempre silenciada.        

UM SONETO PARA FRIDA

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  UM SONETO PARA FRIDA   Era Frida, não eu, quem se pintava No aço do colete que a sustinha E muito mais do que eu, Frida chorava Porque mais do que eu estou, estava sozinha. Travando a mesma luta que ela trava, Pra ela escrevo, porque à dor que é minha Descrevi-a, gritando que bastava Ouvi-la transformar-se em ladainha, Quando sinto não ser nenhuma escrava, Nem jamais aspirei a ser rainha De reino algum, do verso, ou da palavra. De Frida falo. O resto se adivinha No mesmo aço da dor que a atormentava E, em mim, se torna coisa comezinha...     Maria João Brito de Sousa – 08.06.2018 – 14.23h