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A mostrar mensagens de dezembro, 2016

BALANÇO DE FIM-DE-ANO

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  Mais um ano que chega, outro que vai Neste vaivém de ser-se e estar-se vivo Num tempo que julgámos ter cativo, Mas que, medido em anos, sobressai Na neve do cabelo, que essa cai Sobre a sorte de tê-lo em nada esquivo... Vou passando o passado pelo crivo, Pr`a ver, do que me sobra, o que me sai; Não fujo à Luta, mas já mal lhe chego, Que o meu presente é lúcido, mas cego, Ou vê tão pouco que me torna inútil A mesma lucidez que não me nego Enquanto lhe for tendo humano apego, Pois de aço feita; firme, honesta e dúctil. Maria João Brito de Sousa - 30.12.2016 - 15.32h  

O CHAMAMENTO

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  Por vezes tenho dúvidas . Não sei Como chamar por Ti. Que nome tens? Mas sei que, quando chamo, sempre vens No mesmíssimo instante em que chamei E se, enquanto chamando, exagerei Pedindo-te mais graças do que bens, Dando-me exactamente o que conténs, Dar-me-ás muito mais que o que almejei… Se, assim, sem dar-te um nome redutor, Tu me dás tanta graça e tanto amor Que, por mais que agradeça, nunca chega, Eu ser-te-ei leal, mas sem te impor Um nome sem valor – seja qual for! – Porquanto não tem nome a nossa entrega…   Maria João Brito de Sousa – 06.11.2010 – 14.26h   À Poesia

GLOSANDO VINICIUS DE MORAES

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    SONETO DO AMOR TOTAL     Amo-te tanto, meu amor... não cante  O humano coração com mais verdade...  Amo-te como amigo e como amante  Numa sempre diversa realidade.  Amo-te afim, de um calmo amor prestante  E te amo além, presente na saudade  Amo-te, enfim, como grande liberdade  Dentro da eternidade e a cada instante.  Amo-te como um bicho, simplesmente  De um amor sem mistério e sem virtude  Com um desejo maciço e permanente  E de te amar assim, muito e amiúde  É que um dia em teu corpo, de repente  Hei-de morrer de amar mais do que pude.  Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'   SONETO DO AMOR SAUDÁVEL     "Amo-te tanto meu amor... não cante" mais alto este receio que me invade de amor tirano que me prenda ou espante o meu, que só se acende em liberdade...   "Amo-te a fim de um calmo amor prestante", colaborante e que, em cumplicidade, possa, ao lançar raiz, ser militante da causa bem maior de uma amizade...   "Amo-te como um bicho, sim...

GLOSANDO LUIZ VAZ DE CAMÕES IV

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    MUDAM-SE OS TEMPOS... * Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o Mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. * Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades. » O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. » E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía. Luiz Vaz de Camões *     DIALÉCTICA * "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades," Muda-se o gesto, o modo, o linguajar E até por não poder se não mudar, Se mudam, do ser vivo, as qualidades. * "Continuamente vemos novidades," De que iremos gostar, ou desgostar, Conforme as consigamos, nós, olhar Com lucidez que afaste ambiguidades. *   "O tempo cobre o chão de verde manto(,)" E, o nascimento, a vida de alegria Que tanta vez se muda...

APOGEU POÉTICO AVL - (2º Lugar)

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  Patrono: Florbela Espanca Académica: Maria João Brito de Sousa Cadeira -06 UM POUCO DE BOM-SENSO E DE HUMILDADE (O Egotista) Gabava-se esse, o todo-poderoso Senhor dos mil juízos que ditava, De nunca ter falhado e reclamava, Da autoridade plena, o pleno gozo, Um dos seus "réus", porém, menos faustoso, Mas sábio, humilde e justo, retrucava Que, não tendo isenção, lhe não bastava Dizer-se omnisciente e ser vaidoso... Nada ouviu, pois nenhuma opinião Lhe toldaria a glória, a presunção Da colossal cegueira da vaidade; Sendo egotista, tinha a sensação De não falhar, de sempre ter razão, Por falta de Bom-senso e de Humildade. Maria João Brito de Sousa - 09.12.2016 - 14.26h  

PARA TE AMAR, POEMA II

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    Para te amar, soneto, ou por te amar, Empunho a espada do meu livre arbítrio, E ergo o meu escudo a quem tentar estocar Teu coração pulsante, honesto e vítreo. Razões não tenho, nem posso afirmar Que estás a salvo, que é seguro o sítio Erguido a pulso pr`a te resguardar, Ou que é de aço esta espada, quando é lítio... Hesitarás, portanto, em confiar-te Às mãos de uma tão frágil defensora Que nada tem pr` além de "engenho e de arte", Mas... que posso fazer? Indo-me embora, Quem mais daria a vida pr`a cantar-te? Que outra, assim, loucamente, te (e)namora? Maria João Brito de Sousa - 26.12.2016 - 15.44h

GLOSANDO ANTÓNIO GEDEÃO

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    Soneto Ao Luís Vaz, recordando o convívio da nossa mocidade. Não pode Amor por mais que as falas mude exprimir quanto pesa ou quanto mede. Se acaso a comoção concede é tão mesquinho o tom que o desilude. Busca no rosto a cor que mais o ajude, magoado parecer os olhos pede, pois quando a fala a tudo o mais excede não pode ser Amor com tal virtude. Também eu das palavras me arredeio, também sofro do mal sem saber onde busque a expressão maior do meu anseio. E acaso perde, o Amor que a fala esconde, em verdade, em beleza, em doce enleio? Olha bem os meus olhos, e responde. António Gedeão in Colóquio Letras, nº55, Maio de 1980     IMENSURABILIDADE(S) "Não pode Amor, por mais que as falas mude", Muito objectivamente ir-se explicando, Pois perde-se em razões, nunca encontrando, Quando se quantifica, uma atitude. "Busca no rosto a cor que mais o ajude"; Quando se lilude, é porque a foi esboçando E invariavelmente a vai cambiando Conforme se lhe impõe essa, a que alude....

GLOSANDO ANTÓNIO DE SOUSA IV

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FOLHETIM   Jogou-se à vida o meigo desvairado - em sete vezes sete cabriolas - Com os nervos timbrados como violas E uma pureza feita de pecado.   Tão cedo que chegou... e já deitado O mundo todo - farto de violas! Foi seu triste comer o pão de esmolas De uns velhos astros, de um luar cansado.   Trazia um sonho e nenhum sonho o mede! Só - como o vento em naves de pinhais - O seu destino é uma paisagem morta;   Ninguém acode ao cheiro de quem pede Sem moeda de compra, menos-mais... Nem a Deus, nem ao Demo se abre a porta.     António de Sousa   In "Livro de Bordo", 2ª edição Editorial Inquérito   INCÓGNITA   "Jogou-se à vida o/a meigo/a desvairado/a" Nos seus tempos dourados de abastança - que eram de sol, seus dias de criança -, Que a vida recebeu por convidada.   "Tão cedo que chegou... e já deitado/a" Às sortes de um pretérito em mudança, Que havia de mudar-lhe a negra trança Em cabelos de cinza desgrenhada...   "Trazia um sonho e nenhum sonho o/a m...

NOVE ANOS, POR AMOR, MOLDEI, ESCULPI...

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    (Soneto em decassílabo heróico) Nove anos, por amor, moldei, esculpi, Fui dando forma ao barro da palavra; Nove anos, sol a sol, servi, qual escrava, Na voz do verbo, o barro em que nasci! Nove anos, por opção, não desisti Dessa labuta que por mim clamava E nove anos a fio sobrevivi Dos parcos frutos que esse ofício dava. Por outros nove, ou mais, resistiria Se esta vida tão só mos concedesse; Mais nove vezes nove os moldaria No barro da palavra... se o pudesse, Pois quem do barro vive, em barro cria As palavras, nas quais se reconhece.   Maria João Brito de Sousa - 23.06.2016        

CONVERSANDO COM MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE VII

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  DIVAGANDO SOBRE O “NADA”   Que não existe, nulo, sem valor É o NADA a ausência bagatela Diz-se para falar de algo menor Ou do pouco que vemos da janela   Contudo olhando bem pró exterior Veem-se nele vãos sendo procela E ditos NADA essência bem maior Que o cintilante brilho duma estrela   Tanto NADA podendo ser o muito Depende da vontade ou do intuito De quem o quer olhar ou perceber   E tanto muito sendo apenas NADA Ninharia, irrisória madrugada Para quem trilha caminhos de poder   MEA 20/12/2016     UM SONETO CONQUISTADO A UM NADA...     "Conquistado" ao melhor do meu pior - porque em mau estado estou, não vou mentir - Vou tentar responder, mas sem rigor, Tanto quanto o meu estado o consentir...   Talvez tenha a palavra algum vigor E de um nada consiga construir, Em verso, um sonetito bem menor Do que outros que costumo conseguir,   Pois TUDO faz sentido, em seu contexto, Quando um NADA nos serve de pretexto Pr`á conversa banal que agora insisto   Em deixar, sem cuidados,...

GLOSANDO ALICE MENDES

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  O DIA NASCEU DEVAGARINHO     Hoje o dia nasceu devagarinho Quando o sol despertou a madrugada Abanou ao de leve aquele ninho Construído há muito na ramada.   Levou-me no meu sonho de mansinho Para outro caminho, outra estrada Como se fosse um débil passarinho Que voava tão pouco…quase nada.   Se a sua luz entrou pela janela Raiando com intensidade bela Capaz de iluminar o meu porvir,   Deixou um bom odor e sensação Fiquei com alecrim no coração No rosto, só o esgar do meu sorrir.     Alice Mendes   30.10.2016 PONDO OS PÉS NO CHÃO, AO DESPERTAR "Hoje o dia nasceu devagarinho", Com pés de lã prudentes, cuidadosos, Escondendo o astro-rei nalgum cantinho Dos céus acinzentados, nebulosos. "Levou-me no meu sonho de mansinho" Por mágicos caminhos pedregosos E trouxe-me de volta ao velho ninho Fazendo-me esquecer seus magos gozos... "Se a sua luz entrou pela janela", Fazendo esmorecer a luz da vela Que iluminava um corpo adormecido, "Deixou(-me) um bom odor...

GLOSANDO ANTÓNIO CODEÇO

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    FEL Aceito haver o fraco, haver o forte, A negra morte, o nada, a breve vida O Sol a desaparecer na despedida A Lua à noite viúva entregue à sorte.   Aceito aquele que anda já sem norte O que não encontra a porta de saída O que vive do vício da rapina O que sucumbe sem ter passaporte.   Aceito o vento como obra do acaso A cobra fria que usa letal veneno Entrando num jardim que não é o seu   Aceito a flor que morre em seco vaso A dor de ser mortal, de ser pequeno Mas esse fel que provas não é meu     António Codeço, 2016     NEM TUDO FEL, NEM TUDO MEL...   "Aceito haver o fraco, haver o forte," Nascer, da sombra, a luz dum Sol intenso, Queimar, até à cinza, um pau de incenso, Ou quanto tempo reste, antes da morte...   "Aceito aquele que anda já sem norte", E o outro, o que o descobre e torna imenso, Mas mal me aceito a mim, se fico tenso De tanto ir aceitando e, de tal sorte,   "Aceito o vento como obra do acaso", Mas nunca meço o fluxo entre as pressõe...

GLOSANDO MARIA DULCE SALDANHA

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PASSEEI PELO MEU EU   Passeei pelo meu Eu e passo a passo encontrei infortúnios e alegrias, tudo isto recolhi no meu regaço, pedaços de sonhos e fantasias.   Encontrei-me com momentos de euforia, e lágrimas rolando no meu rosto, já vi o sol brilhando no meu dia, e, vi o fim da tarde de um sol posto.   A vida não escolhemos, acontece! nem sempre é aquilo que parece, é um livro muito nosso... é pessoal.   Desfolhamos dia a dia  a nossa vida, já lemos parte dela, é a vivida, não vamos conhecer,  é o final! . Dulce Saldanha     A VIDA QUE EM MIM PASSEIA...   "Passeei pelo meu Eu e passo a passo", Redescobrindo espaços já esquecidos, Colei-os, quando feitos em pedaços, Descosendo os que estavam já cosidos.   "Encontrei-me em momentos de euforia," Espelhei-me, criativa, em mais de mil, Vasculhei-me por dentro, em cada dia E, em cada dia, achei rastos de Abril.   "A vida não escolhemos, acontece!" Nunca sabendo o que ela nos of`rece, Lembrando tudo o que ela já n...

CONVERSANDO COM MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE VI

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  RECEBO-TE MANHÃ   Recebo-te manhã que nasces prenha De futuro, de amor,de paz, de vida Que entras sem precisares duma senha E no meu dia fazes-te nascida   Recebo-te manhã mesmo que venha Contigo não apenas luz cupida Mas triste descrição numa resenha Dum dia que parece de saída   Recebo-te manhã todos os dias Vislumbro de ti tantas melodias que se escondem na paz do teu nascer   Recebo-te manhã, cada manhã Como se não houvesse outra, amanhã Aonde eu me pudesse renascer   MEA 15/12/2016 RETRATO HIPER-REALISTA DE UMA MANHÃ GELADA DE DEZEMBRO (Contraponto) Recebo-te encolhida, a tiritar, Manhã deste Dezembro em que envelheço Um ano por minuto... e, sem chorar, Enfrento-te, manhã que desconheço Se vieste tão só pr`a me enfrentar, Ou porque, em te acolhendo, eu não te impeço... Cada renovo teu, mais vem gelar Este quarto em que durmo e nunca aqueço E por ser bem real o que aqui digo, Que mais posso dizer? Não te mendigo A caridade de um calor de estio, Pois bem sabes, manhã; estarei cont...

CONVERSANDO COM MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE V

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  FIM DE TARDE Entra o sol pla vidraça entreaberta Vem brilhar no meu rosto já esquecido Dos suaves afagos desta oferta Que por  beijá-lo o deixam aquecido   Com ele traz suave mas incerta A música dum pássaro atrevido E que mesmo cantando fica alerta E faz-se esvoaçar por um estalido   O sol é tão ameno. O canto frágil!  Vai desmaiando o Sol. O passaro ágil  Desfaz-se do seu canto, cala a voz   Pla vidraça fechada apenas escuro Nem o brilho do sol, mesmo inseguro Nem o canto do pássaro veloz     MEA 11/12/2016 ESPAÇO-TEMPO (Um dia sem poesia) Por cá, passou-se o dia, e mal o vi... Choveu, é certo, a meio da manhã, Mas se houve sol, nem del` me apercebi Nesta canseira imensa, inteira e vã Em que, por força externa, me encolhi Por dentro, qual semente da maçã Que fiquei a olhar, mas não colhi Porque, olhando melhor, não estava sã... Por cá, passou-se o dia. Mais um dia Em que nem mesmo o verso, a melodia Me veio consolar com suave abraço, Pois tudo o que o cansaço permitia Era ir sobrev...

DIALOGANDO COM MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE IV

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CONSOADA ESPECIAL   Havia pela tarde uma magia No preparo da noite desejada Lenha seca arrumada com mestria Massa que se queria levedada   Noite fora a família em harmonia Junta à volta do lume, atarefada Esticando os coscorões logo os frigia Numa alegria simples e animada   Havia brincadeira, festa, riso Um misto de loucura e paraíso Na noite desenhada de surpresa   Fumegante no púcaro, café Amigo fiel, vai da chaminé Acompanhar a nossa sobremesa     MEA 13/12/2016   A VELHA BRASEIRA DE COBRE     Diluídos no tempo, ecoam, vagos, Vestígios de uma antiga Consoada; Sorrio, cá por dentro, e são afagos Que a memória me dá, não dando nada.   Os meus olhos, agora, são dois lagos Onde se espelha o tempo e, consolada, Nem vejo quanto o tempo fez de estragos Ao longo desta longa caminhada.     Não sei dizer porquê, mas, de repente, Impõe-se-me, da ceia, o morno, o quente Da braseira de cobre, sob a mesa   E, ainda sem saber se outrém o sente, Acendo-me eu, inteira, internamente, Num brasido de ...

DIALOGANDO COM FLORBELA ESPANCA

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  A MINHA DOR *   A minha Dor é um convento ideal, Cheio de claustros, sombras, arcarias, Aonde a pedra em convulsões sombrias Tem linhas dum requinte escultural. *   Os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal... E todos têm sons de funeral Ao bater horas no correr dos dias... *   A minha Dor é um convento. Há lírios Dum roxo macerado de martírios, Tão belos como nunca os viu alguém! *   Nesse triste convento aonde eu moro, Noites e dias rezo e grito e choro, E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém... *   Florbela Espanca   In "Livro de Mágoas"   ----------------------------------------------------------------------       MINHA DOR, MINHA MUSA   *   A minha Dor, se às vezes me domina, As mais das vezes bate em retirada; Diante de um poema, vale um nada Do que me vale o verso que a fascina! *   Minh`alma - minha carne e minha sina - Quando por tanta dor desencantada, Consuma-se em soneto e, consumada, Torna-se a dor, menor, mais pequenina *   E se, em verdad...

AUTOR/LEITOR

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(leitura) * ... e depois das discórdias, dos consensos da carne alvoroçada e dos sentidos, sobraram-me alguns versos embutidos em mim, que ainda os sonho e sempre imensos... * Vibram estirados estes versos tensos, arcos de besta em tiro distendidos, que apenas olhos, gastos, consumidos, não varam nevoeiros, quando densos * Mas, melhor vendo um verso do que nada, mais retesam a corda já estirada entre autor e leitor. Sempre nós dois * No centro da tensão já consumada sobre um verso qualquer, na balaustrada deste nem-sei-o-quê que vem depois.   * Maria João Brito de Sousa - 12.12.2016 - 14.39h

GLOSANDO ANTERO DE QUENTAL

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  NÃO ME FALES DE GLÓRIA: É OUTRO, O ALTAR (A Alberto Sampaio) Não me fales de glória: é outro, o altar Onde queimo piedoso o meu incenso, E animado de fogo mais intenso, De fé mais viva, vou sacrificar. A glória! pois que ha n'ela que adorar? Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso... Que vislumbre nos dá do amor immenso? Esse amor que ventura faz gosar? Há outro mais perfeito, único, eterno, Farol sobre ondas tormentosas firme, De immoto brilho, poderoso e terno... Só esse hei-de buscar, e confundir-me Na essencia do amor puro, sempiterno... Quero só n'esse fogo consumir-me! Antero de Quental In "Sonetos" AINDA UM OUTRO ALTAR   "Não me fales de glória: é outro o altar" E outra é a razão dos meus sonetos, Que são, pr`á glória, trastes obsoletos, Mas são, pr`a mim,  o pão que eu cozinhar!   "A Glória! Pois que há nela que adorar?" Palácios de ilusões, sempre inconcretos, Com túneis, tão sombrios, quanto secretos, Em que me perderei, se os alcançar.....