NAQUELE RETRATO
Acordou mais cansada do que o habitual. Era uma sensação de peso que não conseguia entender e muito menos definir. O simples levantar, revelou-se-lhe uma manobra complexa e algo dolorosa. Estranhou e, incapaz de o entender, registou e prosseguiu em direcção à cozinha. Sentia. Sentia de uma forma que não a de todos os dias. Sentia-se, acima de tudo. Já no corredor, olhou casualmente para o lado e parou tão abruptamente que o corpo acabou por lhe embater ruidosamente contra a mesinha de apoio sob o espelho com que acabava de encarar. A dor foi prontamente abafada pela surpresa. Não se reconheceu na mulher idosa e assustada que via na superfície polida. …E morriam-lhe as mãos pelas curvas do rosto Na surpresa nascida de quem se conhece E descobre o sol-posto Do então que amanhece... Sorriu a custo, meneou a cabeça e levou as mãos aos cabelos brancos e já ralos que, poucas horas atrás, haviam sido a farta cabeleira negra que apanhara numa trança antes de se deitar. Como era possível...