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O FRUTO DO OVO

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  Que pássaro voou? Que lume acende, Neste terreno palco, uma vontade Que não desiste nunca e se não rende Enquanto não alcança a liberdade?   Que absurdo gesto nega e se não vende, Que lágrima a sulcar-me esta saudade Me traz quanta vontade aqui me prende? E quem me diz a mim que isto é verdade?           Foi a asa de um anjo imperativo Que, apontando este espaço onde me vivo, Me pediu para olhá-lo desde os céus,   Ou o fruto de um ovo, aceso em chamas, Trocando as tibiezas que proclamas Por quanto eu não conheço e chamo Deus?     Maria João Brito de Sousa

QUAIS BANAIS? QUAIS INTANGÍVEIS?

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Quando o sol vem mostrar que bem-me-quer, Tal como quer aos melros e pardais, Respondo-lhe que o quero ainda mais, Que, às vezes, sou mais ave que mulher…   Mas, se uma lua cheia acontecer, Redonda em seus abraços vesperais, Aceno-lhe a sorrir, faço sinais Para que ela, ao espreitar, me possa ver…   Tão ave quanto as aves, mas sem asas, Fico a vê-las voar por sobre as casas Enquanto estes dois astros, impassíveis,   Iluminando todos por igual, Não diferenciam homem de animal, Nem cuidam quais banais, quais intangíveis…     Maria João Brito de Sousa – 19.05.2011 – 10.05h

UNS TANTOS DE NÓS...

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  Muito além das conquistas ou dos medos, E dos bens que, pr`a ter, há que comprar, Das mentiras, verdades e segredos Que cada um irá, ou não, calar; Muito além das sereias nos rochedos [que inventámos tão só para enganar as fragatas que lançam seus torpedos quando nenhum de nós quer disparar…] Apesar das mil coisas que nos prendem À nossa condição de seres humanos E que no dia-a-dia nos constroem, Há uns tantos de nós que compreendem Que iremos muito além desses enganos Das “coisinhas” banais que mais nos doem…     Maria João Brito de Sousa

NEM SÓ DE MIM...

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  Porque nem só de mim te irei falar, Não só do que senti, do que pensei, Te apontarei os raios de luar Nas rimas dos poemas que farei,   Porque talvez – quem sabe? – eu vá rimar Sobre um milhão de coisas que nem sei E chegue, qualquer dia, a dissertar Sobre o que escrevo, além de quanto herdei…   Não leves muito “à letra” o que te diga! Há dias em que acordo e só me intriga A génese da Vida, nas razões   Que levam qualquer gato a nascer gato… (... nesses dias sem medo, nem recato, perco-me inteira em mil divagações…)     Maria João Brito de Sousa - 27.10.2010 - 15.18h

QUANDO EU MORRI

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  Quando eu morri, voltei para entender-me Com as coisas que a vida me negara E, talvez, para, enfim, reconhecer-me, Redescobrir, num rosto, a minha cara… Não me sabia nesse anteceder-me À noite, sendo ainda manhã clara E quando a madrugada veio ver-me Encontrou este pouco que sobrara… Mas, quando morri mesmo e percorri A estrada que se julga ser final E, depois fiz, inverso, esse caminho... Não sei por que razão me decidi A este recomeço vertical Do mundo acidental do que adivinho!     Maria João Brito de Sousa

A PARTILHA

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  Quando um novo horizonte me chamava Era nas coisas – todas! – que  sentia, Que voava pr`a  ele, nele aterrava, E que, depois, na volta, em mim trazia,   Pois sempre alcancei quanto desejava E soube que jamais me afastaria Daquelas – tantas... - coisas que encontrava Nesse mundo longínquo que antevia.   Aonde quer que os olhos me levassem, Desse pouco de mim que semeassem, Brotava, de repente, uma outra ilha…   Meu corpo era fronteira, era embalagem, E a ilha encantada era a voragem Que a mim me devorava. Era a partilha.       Maria João Brito de Sousa – 04.08.2010 – 19.05h  

DICOTOMIA

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Este é um trabalho a aguarela e pena com 70x46cm.       Muito filosófico, não é? Esta dicotomia é inerente à própria vida e não é exclusiva do ser humano. Haverá quem pense que não... mas eu mantenho esta perspectiva. Começando pela própria definição de vida... que é o contrário de morte. De belo, que é o contrário de feio. De calor, que é o contrário de frio... Isto daria "pano para mangas" e não pretendo transformar este post num tratado. Para os que não estejam de acordo com o que acabei de escrever, fica uma sugestão; transportem esta dicotomia para a pintura. Já está? Bem... agora imaginem uma pintura sem a dicotomia, ou seja, muito simplesmente o CONTRASTE, que é, em todos os seus cambiantes, a dicotomia da imagem. Ficou EM BRANCO!? Muito, muito monótono...