RAZÃO - Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS - GOYA (1).jpg


"O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS"


Francisco de Goya


***


RAZÃO - Coroa de Sonetos


*
Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
*



1.
*
Chegaste escondida nas asas do tempo:


És ré sem sentença nem culpa formada


E germe da força que (in)gere o talento


Duma humanidade confusa e cansada
*



Encontro-te sempre. Não te oiço um lamento


Que a raiva - até ela! - se quer registada


Num ficheiro próprio e num só documento


Conquanto te nasça por tudo e por nada...
*



Chegaste e provaste de todos os frutos:


Exultaste os partos, choraste os teus lutos,


Sonhaste os teus sonhos, lavraste o teu chão...
*


 


Hoje destronada, Razão que aqui canto,


Quem ousa remir-te envergando o teu manto


Que sempre foi pródigo e fértil, Razão?
*


 


Mª João Brito de Sousa


16.07.2022 - 12.40h
***


Gravura de Francisco de Goya
***


2.
*


"Que sempre foi pródigo e fértil, Razão?"


um manto de luz pejado de estrelas


ou apenas triste, magra escuridão


que nem tua Musa se oferece p'ra vê-las.
*



Porquê tanto encómio na mente/razão


se ela funciona, em nós, como trelas


prendendo o sentido da nossa emoção


que ela se nega demais por contê-las?
*



Razão, ó razão, que és "razão pura"


não estragues dos versos a linda figura:


deixa extravasar o medo de Ser!
*


Porque, sendo mente, és pura estrutura


pejada da história que vem da cultura


e vai perseguir-te, depois de nascer.
*


Laurinda Rodrigues
***


3.
*


"E vai perseguir-(me) depois de nascer",


Sem medos, que medo não sinto... que queres?


Seduzem-me os monstros que deito a perder


No poço sem fundo dos fracos prazeres...
*



À Razão não perco e pretendo-a manter


Dialéctica eterna dos meus afazeres...


Não a quero pura nem estática ver,


Porque ela só pára se a não entenderes
*



E viva se espelha nas mãos proletárias,


De maneiras tantas, de formas tão várias,


Que os seus belos frutos sempre irão brotar
*



Ao longo de ramas reais, necessárias


Às almas obreiras e extraordinárias


Que entendem ser justo a Razão resgatar.


*


Mª João Brito de Sousa


18.07.2022 - 13.08h
***


4.
*


"Que entendem ser justo a Razão resgatar"


e dar-lhe o estatuto de criatividade


mesmo que, depois, a mente larvar


só produza ideias da posteridade.
*



Ó ervas daninhas, crescidas no ar,


da vossa presença não tenho saudade.


Quero enlouquecer e me apaixonar


sem ter normativos de terceira idade.
*


 


E, como uma onda, cobrir os sentidos


de torpes palavras e agudos gemidos


deixando na terra o gosto das águas...
*



Talvez sejam gestos, há muito esquecidos


em sono acordado de sonhos dormidos,


de uma alma insana nascida de mágoas.
*


Laurinda Rodrigues


***
5.
*


"De uma alma insana nascida de mágoas"


Nasceram dif`rentes posturas de classe:


Conspira o burguês, cria montros e fráguas


Que amansem "proletas", vencendo esse impasse
*


 


Cruzam-se os seus barcos. Vão mansas as águas...


Tão só de aparência pois quem as olhasse


Sondando o que cresce para além das tábuas,


Veria o que eu vejo... e talvez não gostasse...
*



Mas para que o saibas, aqui te confesso


No Pós-Modernismo ter visto progresso...


Cresci seduzida por ele. E contudo,
*



Amadurecida, só vi retrocesso...


Ser escriba ou poeta é todo um processo


De talento - é certo! - mas também de estudo.
*



Mª João Brito de Sousa


18.07.2022 - 16.50h


***


6.
*


"De talento - é certo! - mas também de estudo"


criaste teu espírito de Razão letrada.


Eu só partilhei o cinema mudo


onde todo o gesto é gesto de fada.
*



Percebo, no entanto, um pouco de tudo,


um tudo de tudo, um tudo de nada...


e, sempre sonhando, eu nunca me iludo


nem às frustrações eu fico fixada.
*



Se o mundo se arroga o Ser da Razão


deixando que morra o amor e a paixão


que sempre fecunda a terra e o mar,
*


 


Sempre gritarei ao outros meu "não"


por quererem impor essa reclusão


que a Razão impõe, em vez de sonhar.
*


Laurinda Rodrigues
*


7.
*


"Que a Razão impõe, em vez de sonhar"?


És tu quem o diz, que eu nunca o diria,


Já que é pelo sonho que me hei-de guiar


De dia e de noite, de noite e de dia
*


 


E à Razão, coitada, querem-na enterrar


Com sonhos e tudo, junto à mais-valia


Da mão que trabalha pra pouco ganhar


Que o grosso do lucro alimenta a avaria...
*


 


Em boa verdade te digo e repito


Estar ela em extinção neste mundo em conflito


Por ser dela o sonho que se concretiza
*



E tudo isto é fruto de um esquema, de um mito,


Que a quer difamada para que o aflito


Não saiba nem sonhe quanto idealiza!
*



Mª João Brito de Sousa


18.07.2022 - 20.30h


***


8.
*


"Não saiba nem sonhe quanto idealiza"


é imperativo do Código que indica


as razões do jogo, que o jogo precisa


p'ra salvar o Ego, de que nunca abdica.
*



É tal sua força, que julgo exterioriza


que tem de enfrentar o medo, que fica


quando, à noite, só e triste, precisa


dessa mão e colo que o dulcifica.
*



Somos todos sábios e néscios na vida


a querer desvendar sentido à partida


p'ra morte que chega, nunca com razão...
*



E usamos a história, que foi muito lida,


contando o segredo e a mágoa da ferida


por termos matado nosso coração.
*


Laurinda Rodrigues
***


9.
*


"Por termos matado nosso coração",


Dirão alguns néscios e sábios em coro


Não compreendendo que foi a Razão


Que foi despojada da c`roa de louro
*



E logo enterrada em três palmos de chão


Pela burguesia sedenta do ouro,


Senhora da guerra que actua à traição


E nos manipula sem qualquer decoro
*



Não vês que anda o mundo cego e tresloucado,


Que tudo confunde, virtude e pecado,


E que andam os pobres cada vez mais pobres,
*



Que embora pulsando num peito estouvado,


Nem um coração foi detido e julgado


Em nome de causas que se afirmam nobres?!
*


 


Mª João Brito de Sousa


19.07.2022 - 09.10h
***


10.
*


"Em nome de causas que se afirmam nobres",


a Razão declara submissão e paz,


com promessas vãs que sempre descobres


estar pr'além daquilo de que se é capaz.
*



Assim divididos um e outro, encobres


que a sua verdade é mentira e jaz


entre a multidão de ricos e pobres


que acabam iguais, quando a morte apraz.
*



Em nome da honra e do compromisso


brincas à Razão e invocas feitiço,


destino cruél que vem do Além.
*



Mas - ai! - já não escapas e acreditas nisso


pois é com palavras que a maldade atiço


em forma de medo, de raiva ou desdém.
*


Laurinda Rodrigues


***


11.
*


"Em forma de medo, de raiva ou desdém"


Respondes àquilo que serena exponho...


Qual de nós conhece tudo o que convém


Ao homem que cresce dentro do seu sonho?
*



Desdenha, enraivece... nada nos detém,


Nem sequer o monstro mais cru, mais medonho


Que afronte e desminta um homem de bem,


Redimido agora, jamais enfadonho
*



Desconheces, creio, que o capitalista


Destrói a Razão pra que ela desista


De ser ferramenta dos trabalhadores
*



Eu, que em mim a trago, tenho-a por benquista


Irmã do explorado, Musa do artista


E um alvo a abater, para os seus censores.
*



Mª João Brito de Sousa


19.07.2022 - 11.26h
***
12.
*


"E um alvo a abater, para os seus censores"


descobres na pele, nos nervos, Razão?


É Razão porquê, se são delatores


e, sem caridade, não estendem a mão?
*



Estarás a ser alvo de estranhos temores


de um planeta exangue, com fome de pão,


sem qualquer resposta de dias melhores


mergulhado apenas na destruição?
*



Nas minhas entranhas, é certo que sei


que todo o presente é fruto da lei


que já vigorou em tempos passados...
*



Não falo, nem escrevo, sobre aquilo que dei,


o que recebi, aquilo que esperei...


Apenas desejo novos seres alados.
*



Laurinda Rodrigues
***


13.
*


"Apenas desejo novos seres alados",


Ícaros - quem sabe? - com asas de cera,


Mais tarde ou mais cedo sendo castigados


Plos deuses irados do topo da esfera
*



Tal qual a Razão foi, por seus jurados


Sem escudo lançada na jaula da fera


De compridas garras, dentes afiados


E a ferocidade sem fim da quimera
*



Tu e eu, burguesas privilegiadas,


Temos perspectivas bem distanciadas:


"Nem guerra entre os povos, nem paz entre as classes!"
*



Sim, são bem bonitas essas tuas fadas,


Mas que sabem elas de bocas esfaimadas,


Dos povos sem terra e dos grandes rapaces?
*



Mª João Brito de Sousa


19.07.2022 - 15.00h
***



14.
*


"Dos povos sem terra e dos grandes rapaces"


sei mais do que pensam ou julgam pensar...


Nasci de outra vida em tempos fugaces


onde não havia Razão para cantar.
*



No entanto cantei, sem temer as classes,


brincando ao poder que quer dominar...


E, sendo mulher de poucos enlaces,


troquei-lhes as voltas e soube singrar.
*



De burguesa tenho poesia editada


que posso exibir, quando estou tentada


a jogar, com os outros, esse passatempo...
*



E, um dia, a Razão há-de estar parada,


abrindo-te as portas quando, p'la calada,


"chegaste(,) escondida nas asas do tempo".
*


Laurinda Rodrigues
***


 


 


 


 

Comentários

  1. Com este calor
    fazer muros
    dá pavor

    Bela tarde MJ, beijinhos

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  2. Sonetos deslumbrantes que me fascinou ler. Deixo o meu elogio.

    Cumprimentos cordiais

    ResponderEliminar
  3. Ó Meninas
    até já tenho os olhos em ferida
    de tanto lêr brinco

    Bom e belo dia pra vocês com parabéns, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que exagerado, Anjo meu

      Pois olha que nós ficámos com os dedinhos em sangue de tanto escrever, rsrsrs

      Obrigada, pela parte que me cabe!

      Beijinhos!

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