UMA LUZ - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

UMA LUZ
*


Coroa de Sonetos hendecassilábicos
*


Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*


Eu tenho uma luz que clareia o olhar


Que cego nasci e cego tenho andado


Mas vou-me encostando bocado a bocado


Assim prosseguindo livre e a cantar
*



Cá dentro nasceu-me este mundo sem par


Com aves voando mais o seu trinado


Um céu com estrelas muito iluminado


Os corgos correndo directos ao mar
*



A cegueira à volta não deixava ver


Cá dentro gerou-se toda a claridade


Que engrandece a vida e me faz viver
*



Com sonhos libertos que me traz a idade


Tantos afazeres dentro do meu ser


Que me enchem a vida de felicidade
*


Custódio Montes
***



2.
*


"Que me enchem a vida de felicidade",


Tanto quanto baste para qu`rer vivê-la


Sem baixar os braços, sem desistir dela


E sem erguer nela templos à saudade
*



Que o tempo não pára, pronto se me evade


Não me dando espaço para o que ergo nela...


Insisto, contudo! Não me prende a trela


Da cegueira imposta, nem da validade
*



Do meu corpo gasto, que eu não tenho idade


Se escrevo ao compasso desta liberdade:


Galopa, galopa, cavalo sem sela,
*



Vai galgando as ruas da minha cidade


Que quando te esgotes, corre uma amizade


A dar-te uma força, a abrir-te a cancela!
*



Mª João Brito de Sousa


23.07.2022 - 10.45h
***



3.
*


“A dar-te uma força, a abrir-te a cancela”


E a palavra avança segue o seu caminho


Há-de haver quem tenha por ela carinho


Já que na escrita fica sempre bela
*


 


E iluminada posta sobre a tela


Exposta em soneto dentro dum livrinho


Alegra em casa e também ao vizinho


Caminha no mundo já fora da cela
*



Em cada paragem vai ser admirada


Já que a palavra bem feita e tratada


Enriquece a história para sempre fica
*



E vai-se a cegueira que aparece luz


Traz o raciocínio, riqueza produz


E a vida prossegue cada vez mais rica
*


Custódio Montes


2.7.2022


***


4.
*


"E a vida prossegue cada vez mais bela"


Quando iluminada por essa luzinha


Que assim que se acende, connosco caminha


Ainda que sendo pequena e singela
*



Como esta que emana da chama da vela


Que derrama aromas nesta sala minha


E que sempre acendo quando estou sozinha


Ou acompanhada, escrevendo na tela...
*



Seja a luz tão sábia e tão protectora


Que, à sombra, conceda uma ou outra hora


De repouso e pausa para os nossos braços
*



Que já percorreram tantas longas milhas


Quantos, no planeta, há de atóis e de ilhas,


Dos profundos mares, milenares terraços.
*


 


Mª João Brito de Sousa


23.07.2022 - 15.15h
***



5.
*


“Dos profundos mares, milenares terraços”


Por onde se anda sempre a divagar


Ou em pensamentos ou a imaginar


Lançando poemas por esses espaços
*



Que somos poetas sem ter embaraços


Compomos palavras no vento e no mar


Com sonhos de amor porque é tão bom amar


E com amizade mandamos abraços
*



A luz que ilumina o nosso pensamento


De dentro promana e é complemento


De toda a magia que dentro irradia
*



E por cá andamos de dia e ao sol posto


Com contentamento a poetar com gosto


Canções que nos trazem enorme alegria
*



Custódio Montes


23.7.2022
***


6.
*


"Canções que nos trazem enorme alegria"


E mais um lampejo da luz que acendemos


Ao juntar os versos com que entretecemos


Uma nova c`roa, como por magia...
*



Metade amizade, metade poesia,


Já cresce a estrutura... Tanto já fizemos!


Nesta nossa barca, ninguém pousa os remos,


Nem nas horas mortas da maré vazia!
*



Mas "depressa e bem" traz sempre um senão:


Queimei o arroz que apurava ao fogão...


Paciência! Que importa s`inda lhe aproveito
*



Quanto baste para uma refeição?


Não me importo nada, garanto que não:


Sou eu quem o come, com ou sem defeito!
*


 


Mª João Brito de Sousa


23.07.2022 - 16.40h
***


7.
*


“Sou eu quem o come, com ou sem defeito”


Eu como de tudo pois tenho vontade


Não falta apetite na realidade


E com um bom copo mais eu me deleito
*



Ao vir para a mesa tudo aproveito


Sou de boa boca sem sobriedade


Como a minha parte sem dificuldade


E durmo a sesta logo que me deito
*



Se o arroz se queima acompanho com pão


Deito algum na sopa sem complicação


E com o presigo o como também
*



E para além disso, fosse eu cozinheiro


Cozia o arroz em novo braseiro


Lavando a panela de novo e bem
*


Custódio Montes


23.7.2022
***


8.
*


"Lavando a panela de novo e bem",


Braseiro não tendo, vou-me contentando


C`o fogo que tenho - eléctrico e brando -


Que, apesar de brando, esturrica também...
*



A culpa foi minha, que culpa não tem,


O pobre aparelho, de eu estar poetando


Em vez de, aprumada, o ficar vigiando,


Mexendo o "risotto" e virando o acém...
*



Da próxima vez, não vou ser descuidada,


Nem virei prá sala até estar terminada


Refeição que tenha já posto no fogo...
*



Isto afirmo agora que estou bem escaldada,


Mas dentro de dias, de novo olvidada,


Não juro cumprir esta regra do jogo...
*


 


Mª João Brito de Sousa


23.07.2022 - 17.55h


***



9.
*


“Não juro cumprir esta regra do jogo...”


Mas falhamos sempre que temos um gosto


Assim como digo, consigo aposto


Que diz isso agora mas não o faz logo
*



Faço-lhe uma aposta que aceite, lhe rogo,


Ao ter muita fome, visível no rosto,


Com o tacho ao lume com conduto posto


Vá para a cozinha e acenda o fogo
*



Com a sua pressa de me responder


Ao ver meu soneto o seu vai fazer


Indo para a sala. Quando acabar
*



Lembra-lhe a panela que deixou ao lume


Mau cheiro inala e, como de costume,


Deixou o conduto de novo queimar
*


Custódio Montes


23.7.2022
***


 


10.
*


"Deixou o conduto de novo queimar",


Diz-me com tal graça que a rir me deixou


Tanto e de tal forma que se me olvidou


Um verso oportuno que pensara usar...
*



Aceito essa aposta que, sei, vou ganhar


Já que prá cozinha, de novo, não vou:


Comerei aquilo que já se queimou,


Não corro mais riscos de o arroz "bispar"...
*



Mas onde a luzinha que connosco estava?


Dela me esqueci enquanto gargalhava,


Mas penso que ainda lhe sinto a presença...
*



Ei-la aqui tingida de cores informais,


Sorrindo às apostas concretas, banais,


Que agora fizemos... sem sombra de ofensa!
*



Mª João Brito de Sousa


23.07.2022 - 19.05h
***


11.
*


“Que agora fizemos …sem sombra de ofensa”


Mas nestas apostas falámos do assunto


Que as nossas ideias em todo o conjunto


A luz pressupõem na sua presença
*



A ideia que chega e que a gente pensa


Não é luz acesa? Isso eu lhe pergunto


E o que nós dissemos é tema adjunto


É isso que penso com sua licença
*



A gente interpreta o seu interior


Pensamos a ideia, damos-lhe valor


Falamos connosco sentimos a vida
*



Voltamos à ideia, torna-se evidente


E assim cá dentro sinto-me contente


A cegueira acaba que vai de vencida
*



Custódio Montes


23.7.2022
***


12.
*


"A cegueira acaba que vai de vencida"


E em boa verdade, tem toda a razão


Pois nascem ideias da tal reflexão


Que nos ilumina. É verdade sabida!
*



Mas a nossa cr` oa, de improviso urdida,


Requer outra garra a que chamo paixão


- talvez raciocínio que ande em foguetão... -,


Veloz como a luz a que demos guarida!
*



Assim a Paixão e a Razão, de mãos dadas,


Tornarão mais belas estas caminhadas


De versos amigos e conversadores
*



Que se entreajudam se a Musa vacila:


Bem certo é que caia uma c`roa que oscila,


Que anda aos solavancos, que nem tem valores...
*



Mª João Brito de Sousa


23.07.2022 - 21.00h
***


13.
*


“Que anda aos solavancos, que nem tem valores...”


E quer que concorde? Não sei se o faça


Que assim o fazendo ninguém leva a taça


Nem nesta coroa seremos doutores
*



E eu que pensava receber louvores


Se assim pensarmos não teremos graça


E a nossa coroa resvala em desgraça


E de ouvir teremos outros professores
*



Ao ter eu pensado ver a claridade


Na luz que me vinha dar felicidade


Afinal não soube erguer este meu canto
*



Mas revendo agora o que se escreveu


Se é mau o meu canto bonito é o seu


E ao lê-lo de novo nele encontro encanto!
*


Custódio Montes


23.7.2022
***


14.
*


"E ao lê-lo de novo nele encontro encanto",


Tal como eu encontro que aquilo que disse


Foi que, solitária, seria tolice


Criar esta c`roa, tecer-lhe este manto
*



E a dois, este pouco, transforma-se em tanto


Que os versos redobram de tagarelice


E escrevo as ideias antes que as previsse:


Isto quis dizer, isso eu lhe garanto!
*



Luminosa e estável se encontra a coroa


Que está quase pronta e que muito bem soa


Ao humano ouvido que a queira auscultar
*



E embora alguns versos se riam à toa


- tonteiras que sei que o leitor me perdoa -,


"Eu tenho uma luz que clareia o olhar" !
*


 


Mª João Brito de Sousa


23.07.2022 - 23.00h
***


ESSÊNCIA.jpg

Comentários

  1. Trabalhos/sonetos poéticos brilhantes, fascinantes de ler. O meu elogio e aplauso
    .
    Um domingo feliz
    .

    .

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  2. E ninguém me disse da Festa
    Boa e bela Semana
    belo dia de Verão com alegria pra vocês, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom dia, Anjo

      Já nos conhecemos há tanto tempo que nem precisas de convite: estás sempre convidado

      Agradeço-te pela parte que me cabe e desejo que tenhas uma excelente semana

      Beijinhos

      Eliminar

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