BALAS DISPERSAS - Reedição

balas dispersas.png


Imagem gerada pelo ChatGPT após leitura/processamento


do poema


*


BALAS DISPERSAS



*
"Corpos esquecidos no meio da guerra"


Na morte que encerra sonhos desmedidos


Hoje adormecidos, jazendo por terra


E uma dor que berra nas chagas dos f`ridos
*



Magoando os ouvidos do que se desterra


Dessa mesma guerra de corpos caídos


Ou f`rindo os sentidos do que os desenterra


E que nisso erra, que estão já perdidos...
*



Dos mal-entendidos - estratégias perversas -


Surgem controversas brigas sem consenso


Que de modo intenso esgrimem nas conversas
*



Razões tão diversas que o verbo, de tenso,


Torna-se mais denso que as balas dispersas,


Ocultas, imersas neste logro imenso...
*


 


Mª João Brito de Sousa


05.03.2022 - 14.30h
***



Soneto criado a partir do primeiro verso do soneto CORPOS ESQUECIDOS de Custódio Montes.
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Comentários

  1. Boa tarde, Maria João
    Este soneto "Balas Dispersas" traz uma reflexão profunda e angustiante sobre os horrores da guerra, a violência que ela impõe, e o impacto das suas consequências na vida das pessoas.
    Este soneto é uma verdadeira denúncia poética do sofrimento causado pela guerra, usando uma linguagem forte e imagens impactantes. O uso das "balas dispersas" no título sugere a ideia de que a violência não é direccionada de forma clara, mas sim aleatória e destrutiva, atingindo todos de forma indiscriminada, tal como as balas que se espalham sem um alvo preciso.
    No primeiro quarteto, a autora fala sobre "corpos esquecidos no meio da guerra", uma metáfora que revela a tragédia da morte em conflitos, onde os sonhos e esperanças (representados por "sonhos desmedidos") são esmagados e sepultados junto com os corpos. A imagem da dor que "berra" nas chagas dos feridos é também muito forte, trazendo à tona a sensação de sofrimento contínuo, mesmo para aqueles que sobrevivem fisicamente, mas que permanecem marcados pelas cicatrizes da guerra.
    O segundo quarteto aprofunda-se na ideia de perda e esquecimento. O desterramento, de pessoas e de sentimentos, somado ao erro de, desenterrar o passado, parece sugerir que, mesmo quando se tenta recuperar o que foi perdido, não há mais sentido em tal esforço. Tudo está perdido, e o erro está na tentativa de reverter algo irreversível.
    Na primeira estrofe do terceiro verso, "dos mal-entendidos - estratégias perversas", a autora aborda a complexidade da guerra, com as suas "estratégias perversas" que muitas vezes criam "controversas brigas sem consenso". Esses mal-entendidos alimentam os conflitos, sem nunca chegar a um ponto de resolução ou entendimento mútuo.
    Por fim, o último verso do soneto traz um jogo de palavras poderoso: "Razões tão diversas que o verbo, de tenso, / Torna-se mais denso que as balas dispersas". Aqui, a autora sugere que as palavras, que poderiam ser uma ferramenta de pacificação, tornam-se tão pesadas e carregadas de emoção e hostilidade que se tornam mais perigosas que as próprias balas.
    O uso de imagens como "balas dispersas", "corpos esquecidos" e "estratégias perversas" revela uma crítica social contundente e uma denúncia sobre os ciclos intermináveis de violência e a complexidade dos conflitos humanos. A tensão entre razão e emoção, entre discurso e acção, é palpável em todo o soneto.
    Este soneto é uma obra intensa, carregada de uma reflexão poderosa sobre a guerra e seus efeitos devastadores, seja na vida dos que morrem, seja na alma dos que sobrevivem. A autora utiliza a metáfora das balas para nos mostrar como a violência não se limita ao campo de batalha, mas se espalha e se enraíza no coração das sociedades, nas conversas e nas estratégias de poder.
    A imagem embora gerada pela IA está em completa afinidade, com o trabalho poético.
    Deixo um beijo
    :)

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    1. Juro, Piedade , que não sei como lhe agradecer esta esplêndida, certeira e trabalhosa análise dos meus poemas. não as encontraria nem mesmo para agradecer um só que fosse...

      Mas é bem verdade que "a violência não se limita ao campo de batalha", é como um tumor maligno que tudo vai minando e destruindo em seu redor...

      Sabe que começo a acreditar que o ChatGPT foi configurado de forma a evitar imagens de violência? Levou imenso tempo a criar/produzir a imagem quando costumava levar segundos e deixou-a escura e muito pouco nítida, pelo menos para os meus olhos que, confesso, estão a precisar de uma urgente limpeza a laser... Não, não pode ser só dos meus olhos que são os mesmos que há poucos dias viam, nas imagens por ele geradas, a perfeição de traço de Ingres...

      Mas voltemos às suas sábias e generosas palavras que sinto terem captado tudo, exactamente tudo o que senti quando pela primeira vez o escrevi a partir do primeiro verso do soneto "Corpos Esquecidos" do poeta Custódio Montes: eu, que sou fraquíssima na prosa e reconheço ser uma péssima comentadora .dos poemas que vou lendo na blogosfera, admiro profundamente a facilidade e o rigor literário com que se expressa.

      Continuo sem saber como lhe agradecer e não encontro forma de evitar o velho e desgastado OBRIGADA.

      Como anda por aqui, é bem possível que tenha publicado um novo poema no seu Olhares em Tons de Maresia... não, já vi que não, ainda lá está aquela pequena pérola que é o SOMBRAS EM ECO.

      Deixo outro grato beijo para si

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    2. Maria João
      eu só publico à terça-feira.
      E não agradeça, são poucas pessoas a quem faço uma analise exaustiva.
      E a Maria João merece....

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    3. pronto, querida amiga com sol no nome, agora deixou-me muda de todo.

      Outro beijo

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  2. Os poetas bem gritam, mas os ditadores não os ouvem, só querem poleiro, isso de mortos e estropiados são danos colaterais, dizem os generais.
    Bom fim-de-semana, Maria João.
    Um abraço.

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    1. Ai, Cheia, eu chamo-lhes vidas, vidas dos nossos irmãos de espécie ou mesmo as nossas próprias vidas, que se uma terceira guerra mundial rebenta, só serão poupadas as dos multimilionários que mandaram construir "bunkers" que os manterão confortavelmente durante alguns anos.

      Tivesse eu balas - de chocolate, claro - e atirá-las-ia à cara dos "nossos generais"..

      Bom fim-de-semana e um abraço

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  3. Brancas nuvens negras5 de abril de 2025 às 00:19

    Zonas a ferro e fogo e os governantes do mundo com dois pesos e duas medidas, condenam uns mas não condenam os seus. Choca os cultores da Paz, verem o que Israel faz há décadas impunemente e essa impunidade é intolerável.
    Um abraço.
    L

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    1. Sem dúvida, L. , a impunidade de Netanyahu é perfeitamente intolerável.

      Outro abraço

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  4. É verdade, Maria João, as guerras de palavras podem ser tão mortíferas como as balas quando vêm carregadas de ódio e espalham a intolerância.

    Já que de guerra se fala, lembro o famoso poema de Fernando Pessoa "O Menino de Sua Mãe" e proponho ouvir a forma como Fernando Lopes-Graça o verteu em música. Dificilmente alguém poderia compor uma música mais trágica do que esta, nos antípodas das célebres "Heroicas" do mesmo Lopes-Graça, e que só é equiparável ao "War Requiem", de Benjamin Britten. Não é música bonita, esta, e nunca poderia sê-lo, mas é música da melhor.

    https://www.youtube.com/watch?v=W4hamfB97M0

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    1. Boa noite, Fernando

      Antes de vir deixar aqui umas palavras - tremidas. que não tenho estado nada bem - mergulhei no link que me enviou e fui ouvir O Menino de Sua Mãe" musicado pelo genial Fernando Lopes-Graça. O trabalho de dois génios . ele e Pessoa - fez-me hesitar um pouco, antes de aqui lhe trazer um soneto meu inspirado neste poema de Pessoa. Como nem todos podemos ser tão geniais, aqui fica o meu humilde poema.

      IMAGINE

      *

      Imagine-se a dor da companheira,

      Da mãe que o concebeu, da sua irmã,

      A angústia da família, toda inteira,

      Que foi vê-lo partir noutra manhã,
      *


      Imagine-se a bela cigarreira

      De que Pessoa fala, intacta e vã,

      Caída mesmo ali, à sua beira,

      Como um grito de paz na terra chã.
      *


      Imagine-se o todo, em pormenor.

      A surpresa, a revolta, o espanto, a dor

      E o buraco negro que os sucede
      *

      Imagine medir, se capaz for,

      A grandeza, o tamanho desse horror

      Que tenho para mim que se não mede...
      *


      Maria João Brito de Sousa – 16.04.2018 – 13.11h
      *

      NOTA - Na sequência da leitura de um poema homónimo de António Manuel Esteves Henriques

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  5. Um belo e necessário poema para, aqui, reeditar.
    Venho deixar o meu carinho e admiração.
    Um beijinho

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    1. Muito obrigada, Ana.

      Estas reedições acontecem quando estou menos inspirada ou demasiado doente para escrever algo que jeito tenha, mas quase sempre procuro poemas que estejam tão actuais quanto estavam no momento em que foram escritos.

      Outro beijinho para si, também recheado de carinho e admiração

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