FERA E DONO - Reedição

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Imagem prcessada pelo ChatGPT


*


FERA E DONO
*



Tu estavas de joelhos frente à fera,


Ao titã que rugia e que rosnava...


Na tua face impávida, severa,


Nem sombra de temor se adivinhava
*



A fera ali espreitando, à tua espera,


E cada gesto teu a ignorava,


Como se protegido pela esfera


Do aço que a vontade em ti forjava
*



- A fera é o Soneto!, afiançaste.


Não sei bem se o domaste, ou não domaste,


Porque a noite caiu, fiquei com sono
*



E fui dormir. Ainda vislumbrei


Em sonho os vossos vultos mas não sei


Qual de vós dois passou de fera a dono.
*


 


Maria João Brito de Sousa


16.07.2018 -13.06h
***


Nota - Este soneto, embora tecido em verso decassilábico, foi dirigido ao célebre


soneto Alexandrino, o mais difícil e complexo de todos os tipos de soneto

Comentários

  1. A Maria João dá um grande valor à forma do soneto.
    Eu dou importância à sua mensagem.
    Provavelmente, a forma é até mais importante.
    Eu sempre tive dificuldade com a forma, mas fui sempre perita na interpretação.

    Li que a Mistral vai hoje ao veterinário. Desejo que tudo esteja bem.

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  2. Esgrima da boa MJ
    Umas festinhas à Mistral, boas melhoras, boa e bela semana.
    Beijinhos

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  3. Bom dia, Teresa

    A forma do soneto tornou-se tão mais importante quanto mais começaram a multiplicar-se por aí poemas compostos por duas quadras e dois tercetos a que os autores chamavam sonetos, sem que o fossem porque não cumpriam as regras do jogo musical entre sílabas átonas e tónicas que o siciliano Jacopo da Lentini e, depois, Dante e Petrarca trabalharam arduamente ao longo de anos para que o soneto se tornasse perfeito em termos de sonoridade. Mas o tema também é muitíssimo importante: neste A FERA E O DONO, por exemplo, eu sou em simultâneo a narradora que acaba por adormecer e o poeta que enfrenta a temível fera que em tempos fora, para mim, o soneto alexandrino.

    Agora não tenho a menor dificuldade em compor um alexandrino, mas são raros os sonetistas que não se sentem literalmente diante de uma fera quando tentam criar um alexandrino verdadeiro.

    Antes de me apaixonar, aos 55 anos , pela poesia metrificada e, acima de tudo, pelo soneto, escrevia poesia Modernista de verso branco ou poesia de rima livre, mas os temas não eram mais importantes para mim do que o são no soneto, nas décimas, nas sextilhas ou mesmo nas quadras, mais levezinhas e mais propícias a temas ligeiros, embora também essas possam colocar algumas dificuldades a quem não domine a redondilha maior. Enfim, a partir do momento em que senti que o soneto, que o meu avô poeta tanto amava, estava a ser desvirtuado e trucidado, comecei a considerar a pertinência de uma ou outra nota sobre o tipo de soneto que estava a publicar. O soneto é um tesouro demasiado precioso para se perder no tempo e até a enorme Florbela Espanca passou por sérias dificuldades quando os poetas modernistas tentaram menosprezar e até ridicularizar o soneto. Mas ele passou incólume pelo século XX e eu tenho esperança de que consiga também atravessar o século XXI.
    E agora passo a debruçar-me sobre a bela Mistral que está muito, muito longe de estar bem e particamente perdeu a capacidade de se locomover, não conseguindo dar mais do que meia dúzia de passinhos sem se deitar ao comprido no chão. Vou ao hospital com ela, sim, mas vou pedir mais análises para além da frutosamina cujo resultado levará mais de 24 a ser disponibilizado pelo laboratório. O veterinário que a costuma atender está de férias e eu não conheço o que o vai substituir, mas quero um exame completo, nem que tenha de lá deixar toda a minha pensão do próximo mês.
    Sempre convivi com pessoas e animais e sei muito bem quando umas ou outros estão em sofrimento. O dela tem-se vindo a manifestar desde quinta-feira passada e tenho de saber se há, ou não, forma de o aliviar.

    Ando de coração nas mãos porque não me sinto preparada para a perder, mas também não tenho o direito de a manter viva se não houver forma de aliviar-lhe as dores.

    Obrigada pelo seu cuidado e os seus votos de que tudo corra bem.

    Um abraço

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  4. Bom dia,

    Por aí esgrima-se e por aqui nem esgrimindo consigo evitar as mazelas da Mistral... Vou hoje ao hospital veterinário com ela...

    obrigada, boa semana e beijinhos

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  5. Gostava de saber fazer sonetos assim, mesmo que se me apresentassem sob a imagem de uma fera que me provocava e deixava que as palavras viessem sem limites e dentro das regras.
    Parabéns por este soneto que gostei imenso.
    Tudo de bom.
    Um beijo.

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  6. É isso mesmo caro/a anónimo/a, as palavras jorram instantaneamente e sem limites, sempre dentro das regras que nós, sonetistas, já nem nos lembramos que existem quando estamos a escrever.

    E como se tivéssemos dentro do cérebro uma pauta musical que comandasse as nossas mãos...
    Um abraço

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  7. Uma luta sem fim.
    Um abraço, Maria João.

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  8. Esta, por acaso, até teve um final feliz e eu, que neste soneto sou tanto a narradora como o domador, passei a dar-me muito bem com a fera que era o soneto Alexandrino ;)

    Outro abraço

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